BiograFrias

Toda vez que me deparo com um romance “histórico”, pergunto a mim mesma se o autor tem o direito de invadir a vida de outras pessoas e recriar sentimentos e situações que, na verdade, nunca aconteceram.

Evidente que se uma biografia narra um diálogo para o qual não há testemunho algum, digamos, uma suposta conversa entre Maria Antonieta e seu confessor minutos antes que ela fosse decapitada, sabemos imediatamente que se trata de uma ficção. Ainda assim, esse diálogo poderia fazer sucesso em um livro sobre a vida de Maria Antonieta.  Adotamos a prática da mentira consentida.

Biografias romanceadas não raro acabam por substituir a realidade e denegrir a memória de quem não pode mais se defender.  O filme “Amadeus” fez de Salieri um vilão. Não há quem possa afirmar que Mozart concordaria com isso, ou não. Nem mesmo que soubesse do que estamos falando.

Assim, de fantasia em fantasia, vamos invadindo a privacidade alheia sem pedir licença. Reinventamos fatos, transformamos cafajestes em heróis, estragamos reputações.  Com que direito?

O problema da confiabilidade não é novo.  Nem a História escapa de ser manipulada: não raro, a realidade é distorcida para servir a propósitos diversos. Há exemplos bem conhecidos de fotografias adulteradas, onde indivíduos aparecem ou desaparecem para atender às conveniências do momento. E se você acha que a montagem de fotos é coisa recente, pós-photoshop, saiba que vem sendo usada desde que inventaram a fotografia.  Se nem as fotos são confiáveis, como ter certeza de que Cleópatra era linda?

É claro que atualmente existe material mais farto à disposição de quem quiser escrever uma biografia. E mais mentiras também, que o diga a internet, onde é cada vez mais difícil separar o falso do verdadeiro.

Algumas biografias são aprovadas pelos herdeiros. Responda sinceramente: você conhece assim tão bem a vida do seu bisavô a ponto de afirmar que o casamento dele foi infeliz? Apenas porque uma tia velha achou uma carta carinhosa que ele escreveu para uma antiga namorada? Quem pode afirmar que a verdadeira paixão dele não foi a sua bisavó, com quem teve sete filhos?

Há também biografias aprovadas ou encomendadas pelo próprio biografado. Difícil saber até onde uma pessoa é honesta consigo mesma, e como lida com os aspectos negativos de sua vida. Biógrafos sérios vão coletar dados que lhes permitam reconstituir os fatos o máximo possível, mas ninguém escapa do efeito Rashomon.

Não estou me referindo às biografias que derivam de exaustivos trabalhos de pesquisa e não fazem especulações sobre como pensou ou agiu fulano ou sicrano em tais ou quais circunstâncias, mas biografias desse tipo costumam virar livros chatos, enquanto as biografias romanceadas, embora repletas de invenções, resultam em leitura mais agradável.

Romancistas são contadores de histórias;, podem usar a imaginação à vontade, mas gostamos de acreditar em algumas das histórias que nos contam: personagens reais são um bom começo. O fascínio que exercem pode ser medido pelo sucesso das revistas de celebridades. Fofocas, históricas ou não, são capazes de substituir os contos de fadas. O universo mágico, de uma forma ou de outra, nos acompanha por toda a vida, e há quem morra acreditando em duendes.

Biografias romanceadas, se escritas de boa-fé, em muitos casos ajudam a preservar a memória coletiva, mas com que direito preenchemos a vida das pessoas com detalhes fantasiosos? Arrisco dizer que talvez esse direito nos seja conferido ao reconhecer que, por algum estranho mecanismo da mente humana, a realidade não nos basta.

 

 

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