Bill Dog

por Cláudia Vasconcelos

 

Ao dar os primeiros passos em direção à bilheteria do Teatro Municipal Café Pequeno, fui abordada por uma mulher de uns 40 anos. Perguntou-me se eu iria assistir à peça; com a resposta afirmativa, indagou-me se eu não tinha ingresso sobrando, “Não, não tenho”.   Estranhei.

Após pegar os dois convites, ainda permaneci alguns minutos em frente ao teatro. Ali, tive a oportunidade de presenciar a mesma mulher “atacar” insistentemente todos os que chegavam com a mesma pergunta.

Os olhares do porteiro, segurança e bilheteira eram inequívocos: estavam tão surpresos quanto eu com a atitude da desconhecida, que balançava as pernas e cabeça entre um pedido e outro. Seu vestido, de estampa chamativa, oscilava a cada movimento, bem como os cabelos lisos de tamanho mediano.

Sem aguardar o desfecho, entrei no teatro. O diretor da peça “Bill Dog”, Guilherme Leme, gentilmente havia reservado a primeira mesa para mim. Instalei-me ali, para em seguida solicitar uma tábua de frios — esse é o grande diferencial entre esse e os demais teatros: um bar que serve aos espectadores comida e bebidas de qualidade, com atendimento primoroso dos garçons.

O teatro de quase arena estava lotado, mas ao término do segundo aviso sonoro vi a figura estranha adentrar o ambiente. Tinha conseguido seu intento.

O músico Márcio Tinoco entrou de chapéu, sentando-se com seu violão na cadeira lateral ao palco. O ator Gustavo Rodrigues apareceu em cena totalmente vestido de preto: sapatos, calça, camiseta e gabardine. Daí em diante, tudo que se tem de adjetivos para descrever uma atuação brilhante não preenche o domínio das técnicas de encenar: a figura eletrizante, os gestos estudados que cumprem à risca seu papel, os sons emitidos, o suor em profusão, o absoluto controle do texto, o exato timing de cada fala e olhares, enquanto Márcio Tinoco aponta com seu violão cada marcação da peça.

Genial! Genial em todos os segmentos, quer pela direção espetacular de Guilherme Leme — que vem dando banho em sua segunda atividade, pois como ator é referência —, quer pela atuação irretocável de Gustavo Rodrigues, além da trilha sonora, iluminação etc. Ou seja, uma peça a que não se pode deixar de assistir. Não à toa, é um cult, um hit londrino.

Terminada a apresentação, público em delírio, aplaudindo em pé. Eis que surge ela, a criatura entrona, bem na minha frente. Novamente, com espanto, a escuto perguntar se poderia comer os frios que haviam sobrado na tábua. Estupefata, concordei. Testemunhei a mulher engalfinhar-se no salaminho. Assustada com tal despautério, saí da mesa para cumprimentar e agradecer a Guilherme. No trajeto, constatei que a sujeita, com a boca ainda cheia, atracou-se nos salgadinhos que sobraram de outra mesa, além de pegar um copo meio cheio de vinho e sorvê-lo com cara de deleite, misturado a um olhar de “pouco se me dá” para os circundantes.

É, naquele sábado, 1/9/12, assisti o inusitado: a tresloucada — ou sabidona? — “comer” a peça “Bill Dog”, e uma peça inigualável, que comi com meus sentidos.

 

 

 

Cláudia Vasconcelos é escritora e poeta. Nasceu em Porto Alegre, na penúltima meia hora do dia 18 do mês de agosto. Ainda menina, tomou gosto pelas redondilhas das palavras. Não parou mais. Sua alma de viajante a levou aos quatro cantos do planeta, nas asas dos aviões da Varig, onde foi comissária de bordo por 30 anos. Pela KBR, publicou o best-seller Estrela Brasileira.

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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