Bicho estranho

É o bicho mais estranho que conheço: anda do jeito dele, e tem hora que empaca ou nos faz empacar. Apesar de aceitar a monta, nos carrega indiferente; a despeito da nossa ilusão de conduzi-lo pela mão, é ele quem manda; o diabo do menino nos leva para o nosso próprio destino.

Mas como já nos ensinou o poeta, “o tempo parou num instante”, sabe-se lá por quê. Vira e mexe, quando já estou numa toada ligeira, nas trilhas da vida, o bicho resolve estancar, e nessa hora, haja espora e aflição, como se com isso encontrássemos a solução. Não adianta, o danado do animal, tinhoso como ele só, morde o capim da beira da estrada e se deixa ficar. O jeito é descer da sela e tentar afastar aquilo que (se supõe) impede o bicho de avançar.

Nos trajetos, já encontrei todo tipo de material: doença, preguiça, raiva, mágoa e desilusão. Se vocês acreditarem em maldição, lá está; olho gordo e quebranto também tem pelo chão. Esse tipo de erva daninha é o cão: entra em nosso caminho, cresce e se alastra que nem fogo no sertão, impedindo que se aviste o lugar pretendido ou a direção.

Montado no animal, esperando que ele se decida, enfim, por andar, o homem não percebe que se deixou encantar. O tempo não vai se mexer ou se afastar. O pião pode esquecer ou viver na ilusão, mas somente quando perceber o engano e quebrar essa fantasia, sua chance de enfrentar a estrada aumentará na mesma proporção.

Faz-se necessário dar sentido à vida, arrumar um enxadão de vontade ou um facão de coragem e desbastar a multidão. O bicho, em vez de ajudar, vai ficar ali, olhando meio de lado, como se a coisa não fosse com ele. Mas, se você iniciar essa empreitada,  arrumar desejo e vontade será sua maior dificuldade: montar no bicho, fazê-lo virar na direção oposta, esporear.

Sei lá para onde, para qualquer lugar. Se o desejo ficar para trás, perdido no meio do mato, comer ou ficar, com sede ou com ar, já perdeu o significado. Importa é ir, sair desse marasmo, se movimentar, avançar para lá, não deixar o tempo parado à espera de ninguém, mas não é que nem isso o desgramado faz, se para frente não vai, para trás nem com coça de pai. Pode forçar, sentar tasca no lombo, que aquela desgrameira nem se mexe. Ou por raiva ou desalento, só há duas saídas: se deixar ficar ali, parado, sem direção, ou enfrentar a desilusão e se pôr a trabalhar.

Decidido a prosseguir viagem, mais de uma vez apeei da besta e me pus a picar tudo o que me impedia o progresso. E para minha surpresa, constatei que basta limpar uma beirada para o animal disparar. Ele larga o que está fazendo, parecendo mordido por marimbondo, arranca e corre em frente, sem aviso ou instrução.

Nessa hora, é ficar esperto, pular ligeiro de volta para o lombo do bicho e rezar para não cair ou desanimar. De vez em quando, tento segurar o danado pelas rédeas, mas ele nem se faz de rogado, anda em sua própria toada e só se deixa guiar se reconhece em mim o senhor do meu próprio destino.

Quando vai chegando o meio do ano, fica pior. Ele estica o pescoço para frente, eu fico tentando puxá-lo para trás. Mas não adianta: de uns tempos para cá, parece que ele só quer andar ligeiro, e não é raro galopar. Eu querendo admirar a paisagem e o bicho sem querer parar. Tem horas que fico cansado de tanto cavalgar, dá vontade de apear e se deixar ficar. Mas aí dá uma tristeza doída; só de pensar que o fim de minha jornada se aproxima devagar…

Com medo de aquela que não é bem-vinda se aproveitar da ocasião, monto de novo no bruto e, mesmo com esta dor remoída, decido continuar, aceitando que o tempo é que é o dono deste lugar.

 

2 comentários em “Bicho estranho

  • 05/07/2012 em 01:28
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    Obrigado Manuel
    Sua leitura é importante para mim!
    Abrs,
    Gustavo.

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  • 04/07/2012 em 20:10
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    Todos temos este burrico que nos acompanha…na caminhada da vida..!
    Recordações de uma obra prima “PLATERO E EU”…. De Juan Ramon Jiménez

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