Berlim em três tempos

muro de berlin Cada vez que assisto a uma tentativa de calar as vozes dissidentes, me lembro de Berlim: foi lá que me deparei com as reais consequências de um regime político onde falta liberdade. Percebi que a política é problema de todos e que, de uma forma ou de outra, é preciso participar. Pode ser uma coisa pequena, como não anular o voto ou fazer parte da associação de bairro.

É importante defender com unhas e dentes a liberdade de expressão, desde que não se caia na armadilha de dar liberdade completa a quem quer tirar a liberdade dos outros. A tolerância com os diferentes é fundamental. O assunto é polêmico, as fronteiras são tênues, há paradoxos envolvidos. Só para dar um exemplo: já me horrorizei muito mais quando via um político contrariar hoje o que havia dito ontem. Podem chamar de jogo de cintura, se quiserem, na maioria das vezes eu chamo de falta de caráter ou oportunismo. Apesar disso, reconheço que esse tipo de coisa evita guerras: se todos se mantiverem firmes e decididos acabaremos indo às vias de fato com frequência, com prejuízos ainda maiores para os envolvidos. Há mérito numa atitude flexível, tanto na vida pública quanto na particular, e se é voz do povo que os políticos não são confiáveis, e eu sou povo, deveria também ser dito que são necessários.

Mas voltemos a Berlim. Estive lá três vezes e continua na minha lista de lugares para conhecer antes de morrer.

Na primeira vez, nos idos de 1982, o muro separava as duas metades da cidade. Como estrangeira, tive permissão para visitar a zona oriental, proibida aos alemães ocidentais, os que mais gostariam de ir até lá, com tantas famílias divididas. A paranoia era completa e amigos me aconselharam a não levar comigo nenhum escrito que não fosse de fácil compreensão, porque poderia ser interpretado como mensagem cifrada. Mesmo duvidando, segui a recomendação e pude constatar, pouco tempo depois, que eles tinham razão: no aeroporto de Moscou vi retirarem da mala de um turista objeto por objeto, com ênfase nos papéis, incluídos aí meros cartões postais ou folhas soltas com anotações de números de telefone, mas isso já é outra história que conto para vocês qualquer dia desses.

A ligação entre as duas metades de Berlim se fazia num local chamado Checkpoint Charlie. Na zona ocidental, os edifícios eram encostados na fronteira, mas na oriental foi criada uma faixa de terra de ninguém, desértica, para facilitar a visão dos guardas nas torres, que vigiavam dia e noite quem tentasse passar para o outro lado. Como se não bastasse, retiraram os moradores dos prédios no entorno da fronteira, que permaneciam desocupados e abandonados. Próximo ao Checkpoint Charlie (do lado ocidental, é claro) havia um pequeno museu onde se podiam ver os mais diversos estratagemas usados pelas pessoas para fugir da zona oriental, alguns bem sucedidos, outros não. O museu existe até hoje e, apesar de não ser bonito, é imperdível.

Berlim era habitada dos dois lados pelo mesmo povo, mas vivendo em condições bem diferentes.  Na zona comunista os museus eram lindos e bem cuidados, mas nem só de cultura e ciência vive uma cidade, as pessoas gostam de se cercar do que é belo. Aquelas ruas tristes e vazias, os edifícios feios e mal conservados, as lojas com mercadorias pouco atraentes, de vitrines horrendas ou mesmo sem vitrine alguma, eram deprimentes. Berlim oriental ficou com a parte mais importante da cidade e era considerada a joia da coroa (é estranho o uso desta palavra no contexto) comunista, o local onde os altos membros do partido gostavam de passar férias, mas era desolada, e até comprar água mineral para uma turista sedenta requeria paciência. As ruas do ocidente, ao contrário, apesar das construções mais modestas, eram cheias de vida, havia música e artistas performáticos, cafés ao ar livre, gente passeando.

A segunda visita que fiz a Berlim foi em 1990, com a cidade recém reunificada, eufórica, vendendo pedaços do muro como lembrança. O Checkpoint Charlie e a zona de ninguém continuavam lá, mas agora eram passagens abertas, passava-se à vontade de um lado a outro. Os alemães ocidentais já tinham matado a curiosidade e pouco cruzavam a antiga fronteira por ali, mas os orientais faziam compras desenfreadamente no lado ocidental. Havia um movimento em massa de pessoas voltando a pé para o lado oriental, carregadas de embrulhos grandes, que pareciam ser eletrodomésticos e artigos para a casa em sua maioria. Os prédios do lado oriental próximos da antiga fronteira começavam a ser de novo habitados, mas permaneciam em estado precário. Berlim ocidental continuava uma festa, agora maior ainda, enquanto o lado oriental continuava sisudo.  Os alemães estavam, naquele momento, em lua de mel uns com os outros, ainda não haviam começado as desavenças que se seguiram até que os dois lados se ajustassem.

Na terceira vez, 1998, Berlim era um canteiro de obras, a maior concentração de gruas que já vi por metro quadrado. Quis voltar ao Checkpoint Charlie: tive imensa dificuldade em encontrá-lo. O entorno estava irreconhecível, a zona de ninguém completamente modificada. O museu, antes facilmente detectado, ficara perdido no meio da cidade. O progresso na integração das duas Alemanhas era visível, embora houvesse muita discussão. Livre e democrática. Até pequenos detalhes, como qual formato prevaleceria nos semáforos luminosos da cidade, se o oriental ou o ocidental, estavam sendo debatidos.

Relatos bem mais recentes do que o meu dão conta de que Berlim floresceu e retomou sua vocação para a vanguarda. Ficou para trás a época em que vários alemães, para espanto meu, se desculparam comigo (?!) pela guerra, mesmo alguns que nem eram nascidos quando ela começou, e em que muitos lamentavam os compatriotas atrás da cortina de ferro. Tomara que as novas gerações se lembrem de aprender com o passado. Lá e cá. O assunto é sério.

 

 

Você pode gostar...

Deixe você também o seu comentário