Beleza e esporte

Vendo todos aqueles esportistas que participam das Olimpíadas não podemos deixar de ficar imaginando o que se passa em suas cabeças quando estão tão concentrados, pouco antes das provas. Há alguns esportes em que estou certa de que durante sua execução ninguém tem tempo de pensar absolutamente nada, dada a velocidade em que ocorrem, haja vista a prova de corrida de cem metros rasos, ou uma piscina de cinquenta metros; mas seus rostos focados no objetivo pouco antes da largada nos faz imaginar quantas e quantas horas de trabalho, dor e superação foram necessários para que cada um deles tivesse o privilégio de estar ali naquele instante.

Soube por um amigo que um japonês decidiu escrever um livro acerca de seus pensamentos durante as corridas que faz toda manhã, e tem recebido muitos retornos de outros atletas da mesma categoria que dizem compartilhar dos mesmos assuntos: sua maneira de pensar é equivalente.

Eu, como tantos outros, antes de começar uma corrida sempre estou de má vontade, vou por pura obrigação, dou uma enroladinha no começo e muitas vezes começo caminhando por uns dez minutos; depois, quase que instintivamente, começo um trotinho bem leve até sentir que a musculatura e as articulações já estão prontas. Durante todo esse tempo, vou reclamando com meus botões e pensando em como gostaria de estar em outro lugar, fazendo outra coisa; após uns vinte minutos, começo a esquecer o que estou fazendo e gradativamente vou me lembrando de todas as tarefas que tenho que desempenhar. Os pensamentos ainda chegam rascantes, com dificuldade, mas logo começo a solucionar os problemas mentalmente e tudo começa a parecer muito fácil. A gente começa a ver a paisagem e os outros atletas ao nosso redor; tudo vai entrando em foco e as cores ficam mais brilhantes.

Lembro-me de quando ainda estava no ramo de confecções e, durante o percurso da corrida, conseguia montar praticamente toda a coleção da estação; chegava ao vestiário parecendo uma doida à procura de um lápis para anotar tudo antes que se perdesse — uns rabiscos que somente eu entendia, mas que eram a base para um trabalho de muitos meses.

Mais para o fim do exercício, começamos a sentir o cansaço e uma necessidade urgente de olhar o relógio contando o tempo que falta; vamos colocando objetivos do tipo “passar alguém” ou “chegar a um determinado ponto” e daí, sim, desistir. Mas ao atingir o objetivo, quando ainda restam forças, propomos outros objetivos mais à frente e assim vamos chegando ao proposto inicialmente. Às vezes as forças não chegam para tanto e sucumbimos, na certeza de que fizemos o nosso melhor; isso nos consola.

Imagino que durante as competições de alto nível  tudo o que se passa na mente é relativo ao esporte que estão praticando. Nota-se também que o principal “músculo” utilizado é o cérebro: de nada valem todo o treinamento e esforço anterior se na hora exata a concentração é perdida, e foi exatamente o que vi acontecer com uma ginasta candidata à medalha de ouro que, ao cometer um erro, se desconcentrou e continuou o exercício como uma amadora. Já a vencedora parecia estar mais descontraída, confiante, nos brindando com imagens magníficas de saltos impensáveis.

Louvo a todos os esportistas, que por sua coragem, determinação e capacidade de trabalho são nossos heróis modernos. Desejo sucesso e alegrias a todos eles.

Bem, agora que já dei aquela enroladinha que citei logo no início, vou tratar de me preparar para o exercício do dia.

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2 Resultados

  1. manuel funes disse:

    Muito bom.
    Como se fala : “A dor faz parte do uniforme do esportista !”

  1. 03/08/2012

    […]   publicado também aqui […]

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