Beira do mar

Era um dia de sol, desses que só parecem ocorrer no verão, quando o astro-rei acorda despido de qualquer preguiça e ilumina o céu sem regatear seu brilho. O azul contrasta com o amarelo, refletindo as águas cristalinas do mar. Pequenas nuvens surgem, timidamente, querendo ocupar um pequeno espaço. A praia, ainda deserta, se estende a perder de vista. Somente alguns surfistas madrugadores se aventuram no mar. Ondas se formam delicadamente e, de repente, num impulso inexplicável, ganham altura e movimento, num instante sincronizado e de rara beleza e força. O dia segue tranquilo.

Mais um pouco e as primeiras famílias chegam ao recanto para aproveitar o dia. Poucas se animam, nesse horário; é cedo para os jovens e os mais velhos chegam devagar. Naquela época, nos anos 1970, ainda havia praias quase inexploradas, que aos poucos eram descobertas. Essa era uma delas.

Eu tinha cinco anos e levava numa das mãos meus instrumentos de trabalho: balde de plástico verde; uma pazinha da mesma cor, para movimentar areia; três moldes do mesmo material em forma de peixe e um em forma de estrela-do-mar. Estes últimos, quando pressionados contra a areia, formavam um aquário terrestre. Finalmente, eu trazia, além disso, dois de meus soldados de brinquedo preferidos para guerrearem no meu deserto particular de areia.

Mamãe, segurando a minha outra mão, tinha dificuldades para me conter. Afinal, chegamos ao local que ela considerava adequado, onde desenrolou a esteira de vime que carregava em sua sacola e armou o pequeno guarda-sol para nos proteger. Ela o colocara sob um de seus braços, num equilíbrio difícil, mas necessário. Eu me sentei imediatamente na areia, ocupando o meu espaço natural.

Começando o trabalho, fiz um enorme buraco, segundo os meus cálculos, e só parei quando encontrei certa umidade. Com o material dali retirado, criei vários peixes e estrelas marinhas. Tracei, então, um caminho tortuoso na areia, e escondi, atrás de um monte erguido para este fim, um dos meus soldados; com o outro passei, distraído, em frente ao inimigo.

Enquanto me entretinha nesta batalha de escaramuças, mamãe aproveitou minha distração e me untou com Coppertone, me envolvendo numa camada branca de protetor solar. Só percebi o ocorrido quando ela interrompeu a batalha imaginária para passar no meu rosto o creme detestável e, para mim, completamente desnecessário. Apesar das minhas caretas e reclamações, ela terminou o serviço que se propôs fazer e só então advertiu:

— Paulinho, fique debaixo da sombra!

Meu Deus!, pensei com meus botões, eu com tanta coisa para fazer e minha mãe me interrompendo!. Nem escutei direito as palavras dela, às quais respondi automaticamente, com um movimento de cabeça.

O dia seguia sossegado; eu já tinha terminado minhas batalhas e meus peixes e estrelas-do-mar jaziam esquecidos ao meu lado. Tinha entrado duas vezes no mar sob a supervisão de minha protetora, pois estávamos a poucos passos da água, e ela seguia meus movimentos toda vez que eu me preparava para mais um mergulho.

Depois de certo tempo em que me diverti correndo atrás de um pequeno siri, que eu tentava capturar, pedi a ela para catar algumas conchinhas para levar para casa. Minha mãe assentiu, não sem antes admoestar:

— Não se afaste muito! E não entre na água!

Depois de uma segunda sessão de tortura de Coppertone, me vi livre e iniciei minha nova atividade. Enquanto minha mãe voltava seu olhar para a Revista Cruzeiro, eu me sentia imensamente feliz. Havia conchas de todas as cores e matizes, mas as minhas prediletas eram as cor-de-rosa, quase translúcidas. O grande tesouro, porém, eram as que pareciam ter uma estrela do mar impressa nas costas, raras, difíceis de encontrar, objeto de desejo de qualquer criança. No encalço de minhas preciosidades, comecei a me afastar do local demarcado. A mãe, no início, controlava pela voz:

— Paulo, volte para cá, menino!

Contudo, com a chegada de uma amiga, ela se distraiu por um instante, o suficiente para que eu me afastasse de suas vistas, entretido como estava em minha função. O sol já estava a pino e eu, com o balde quase cheio, continuava minha peregrinação. Enfim encontrei a tão almejada concha: havia uma flor estilizada no seu costado e ela estava perfeita.

Dando-me por satisfeito, voltei para a direção contrária e então percebi que tinha me afastado mais do que imaginava. Estava quase no final da praia; as pedras que antes tinha remotamente avistado se encontravam ao meu redor. Apesar de não saber a distância, sabia agora que estava longe do lugar da partida. Comecei a caminhar de volta. O boné que tinha na cabeça me protegia, mas mesmo assim sentia calor e sede.

O balde cheio de conchas começou a pesar em minhas mãos. Não sei o quanto andei e quanto tempo demorou minha volta. Só sei que, para mim, pareceu uma eternidade. Já com uma certa apreensão me tomando (que mais tarde reconheci como medo), apressei o passo. Procurava o rosto de minha mãe no meio da multidão. A praia, embora afastada, já se enchia de pessoas e barracas .O que havia sido um vago temor se transformou, claramente, em pânico. Eu caminhava já há algum tempo e o receio de estar perdido se apossou de mim. Nesta hora ouvi uma voz que me soou como a de um anjo:

— Paulinho!!!!!!!

Era minha mãe. Em seu rosto, vi o mesmo sentimento de perda que eu experimentara há pouco. Entre lágrimas e abraços, balbuciei ainda trêmulo:

— Desculpe, mamãe! Eu achei que estava perto!

Ela nada disse. Abraçou-me ainda mais forte, me carregou em seus braços. Eu fechei os olhos e, com o rosto apoiado em seu ombro, me deixei levar. Protegido e seguro, senti seu amor me envolvendo e lentamente adormeci.

 

 

10 comentários em “Beira do mar

  • 08/03/2012 em 10:36
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    Era assim mesmo, a gente andava mais para longe na praia e quando olhava para trás uma colcha de barracas coloridas, achar nossa mãe é muito bom!!!
    Beijos Cinthia.

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    • 08/03/2012 em 11:27
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      Não era?
      Mas os baldes com as formas eram ótimos!
      Bjo,
      Guta.

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  • 03/03/2012 em 20:55
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    Paulinho so queria um momento de liberdade…..nao conseguiu . LE MAMME SONO SEMPRE VICINE !!!!

    MUITO BOA GUSTAVO.
    ABRS
    Ulisse

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    • 03/03/2012 em 21:08
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      Ulisses
      Vc não vale!
      Percorreu mares e oceanos com toda liberdade!
      Um grande abraço!
      Gustavo.

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  • 02/03/2012 em 22:57
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    Adorei, Gustavo! Voce sabe como transportar o leitor para a vivencia real da cena, como num filme! Abs, Lucinha

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    • 01/03/2012 em 11:06
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      Obrigado Victoria!
      Sua opinião é importante e valiosa!
      Beijos.

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  • 29/02/2012 em 21:31
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    Muito fofa a crônica de hoje! Fez lembrar meus 5 aninhos também! Rs

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