Bêbado

 

 

 

A palavra “bêbado” tem uma conotação pejorativa, degradante, muitas vezes ligada ao alcoolismo. Mas bêbados podemos estar sem termos tocado em uma única gota de álcool, sendo, muitas vezes, um estado de espírito, um desencanto com a vida, um momento de pura nostalgia ou de tristeza. De alegria e de amor podemos, também, ficar inteiramente embriagados. Ninguém melhor descreveu este estado do que o genial Charles Baudelaire — autor de um dos livros mais importantes da poesia universal Les Fleurs du Mal  [As Flores do Mal], precursor dos grandes simbolistas e considerado por quase toda a crítica literária o criador da poesia moderna — no último texto do seu livro Les Paradis Artificiels [Os Paraísos Artificiais], que é dividido em três partes: “O poema do haxixe”, “Um comedor de ópio” e “O vinho”.

O capítulo “O Vinho” termina com esta preciosidade que se chama “Embriagai-vos.”

Embriagai-vos.
É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso: eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas — de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, ao pássaro, à estrela, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio hão de vos responder:
— É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; e embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

O surpreendente nesse texto antológico é essa conotação de que a bebedeira poderia vir não só do vinho, mas também da poesia e da virtude, e o fato de ter sido escrito por um escritor considerado maldito, que morreu jovem, no dia 31 de agosto de 1867, com 46 anos de idade, atormentado por doenças de fundo nervoso, vítima de paralisia geral originária da sífilis que o corroía, e que foi um grande consumidor de vinhos, do criminoso absinto, usou e abusou da cocaína, do éter, do haxixe e do ópio, o homem que declarou que “Deus é o único ser que, para reinar, nem precisa existir” e que “A Felicidade é composta de pequenos prazeres”.

Baudelaire, o maldito, tinha profunda admiração pelo filósofo Barbereau, e no seu mundo de contradições, em seu citado livro Os Paraísos Artificiais, transcreve o seguinte texto do filósofo: “Não compreendo por que o homem reacional e espiritual se serve de meios artificiais para chegar à beatitude poética, uma vez que o entusiasmo e a vontade bastam para elevá-lo a uma existência supranatural. Os grandes poetas, os filósofos, os profetas são seres que pelo puro e livre exercício da vontade chegam a um estado em que é ao mesmo tempo causa e efeito, sujeito e objeto, magnetizador e sonâmbulo”.

Essa contradição só pode ser atribuída aos efeitos que os paraísos artificiais já tinham causado em sua mente, e que ceifaram tão prematuramente um dos maiores nomes da literatura em todos os tempos.

Voltando ao álcool, é Baudelaire o autor da frase mais citada, quando se trata de beber ou não beber:

O homem que só bebe água tem, sem dúvida, algum segredo para esconder de seus semelhantes.

 

 

5 comentários em “Bêbado

  • 14/10/2012 em 11:47
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    Verdade e mais:

    Minha “Abuela” sempre falou:
    Mulher que não fuma & bebe não de confiança!

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  • 13/10/2012 em 19:31
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    Genial… Me embriaguei com a leitura e, com sorte, buscarei novos motivos para me manter assim …

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  • 13/10/2012 em 16:41
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    Esqueci de dizer que Baudelaire foi um maldito que nos embriaga com sua poesia e sua genialidade!
    boas bebedeiras poeticas e alcoolicas!
    beijo grande

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  • 13/10/2012 em 13:14
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    “O homem que só bebe água tem, sem dúvida, algum segredo para esconder de seus semelhantes.” sem duvidas…rsrsrsrsr
    boa cronica, realmente adorei

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