Balanço da vida

O balanço do carro de boi e a toada que vinha de suas rodas emolduravam a paisagem. O menino, que ia sentado na beirada do carro, se deixava enlevar pelo movimento e a cantiga de roda.

Suas pernas dependuradas brincavam com o movimento, num impulso constante e infantil. Olhava a paisagem sem pressa; de costas para o destino, via o mundo do cerrado se estendendo a perder de vista.

Um cachorro forte, sem raça definida, mas com belo porte, acompanhava o trajeto. Era branco, com uma grande mancha no dorso. Seguia o menino e o carro sem pressa e com dignidade. Já conhecia o trajeto, e o rabo elevado e a corrida tranquila diziam do seu prazer em estar ali.

— Sultão, vem cá! — chamou o menino com autoridade.

O cão se aproximou de seus pés e lambeu o dorso deles. O garoto inclinou o corpo e coçou a orelha do animal. Ao ouvir o latido  agradecido do amigo, sorriu .

O pai, que conduzia o cortejo carreando os bois, olhou de soslaio e sorriu também. Caminhava à frente dos dois bois carreiros e trazia na mão uma grande vara, com um aguilhão na ponta: tinha mais a função de guia do que de castigo; não gostava de ferroar seus animais. Para ele, carreador que se preze comanda os bois na voz, com autoridade, e não com o sofrimento.

O grande boi vermelho que respondia pela liderança desviou-se um pouco para a esquerda, e imediatamente ele o corrigiu:

— Afasta, Paraná, puxa, Rochedo!

Imediatamente, o boi branco que fazia dupla com o companheiro puxou com um passo, desviando o carro para a esquerda e à frente; o vermelho o acompanhou. Como se houvesse um movimento mágico, a trilha foi retomada com perfeição.

O garoto percebeu a manobra e o comando do pai, e se sentiu feliz por estar ali. Rochedo e Paraná eram considerados a melhor dupla de carro de boi da região, e seu pai o melhor carreador. Tirando a cor e o espírito de liderança do grande boi vermelho, eram praticamente iguais.O pai os amansara desde bezerros, e os escolhera pelo porte e pelo olho de quem conhecia seu ofício.
Enquanto pensava nisso, o menino deitou-se sobre o resto de cana no chão do carro. O cheiro acentuado, meio adocicado, o envolveu, enquanto olhava para o céu sem preocupação.

Um dia, ia ter seu próprio carro, e dois bois tão bons como os de seu pai. Enquanto sonhava, no balanço sem pressa, se deixava transportar pelo som das rodas que rasgavam o silencio do lugar.

 

 

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