Aviões

avião 4Difícil acreditar que já gostei de viajar de avião.  Até torcia para que o passageiro ao lado fosse uma pessoa interessante, de preferência alguém de outra nacionalidade com a qual pudesse trocar experiências. Não nego que valeu a conversa com alguns desses conhecidos eventuais, mas atualmente torço para que me deixem quietinha no meu canto. Ainda não cheguei à perfeição de uma amiga, que mandou fazer cartões de visita com um número de telefone falso, mas reconheço que um cartão desses encerra qualquer assunto e nos livra de sermos importunados no futuro por uma pessoa indesejável.

É provável que o encanto estivesse ligado ao fato de que, nos primórdios, as viagens de avião fossem acompanhadas por um clima de glamour. Eu era adolescente quando uma colega de escola teve a oportunidade de ir a São Paulo de avião. O acontecimento foi anunciado semanas antes, e as discussões sobre a roupa a ser usada na viagem arrastaram-se por dias. Muitos conselhos depois, ela encomendou — a um alfaiate! — um tailleur de cor escura. Este relato, saído do século passado, deve provocar ataques de riso nos atuais passageiros de transportes aéreos, com suas bermudas e chinelos de borracha. Podem rir, mas se a viagem for demorada, não se esqueçam de pedir um cobertor ao pessoal de bordo.

Os aviões aumentaram pouco em velocidade, mas diminuíram muito em espaço na classe econômica e simplificaram ao máximo o serviço oferecido aos passageiros. Já me serviram o seguinte lanche: um pãozinho redondo, duro e congelado, um caule de brócolis cru e uma cenoura murcha. A passagem tinha sido barata, mas aquilo era surreal. Como o voo tinha atrasado e era hora do almoço, as pessoas estavam famintas e tentaram comer. O resultado foi que o avião inteiro caiu na gargalhada, quando alguns começaram a morder os legumes e outros tentaram amaciar o pão batendo contra a bandeja e produzindo um som de tambor.

Somente uma coisa melhorou: a qualidade do entretenimento a bordo. Antigamente não passava nem um filmezinho básico. Ainda assim, talvez porque a vida hoje em dia seja mais corrida, acho desagradável ficar muito tempo dentro de um avião. Esse sentimento é compartilhado por muitos conhecidos, e daqui a uns cem anos vão olhar para as nossas viagens atuais como nós olhamos para as viagens de navio do século dezoito, quiçá para as galés de escravos. Espero no futuro dispor de um teletransporte do tipo Star Trek, que me coloque instantaneamente em qualquer lugar do planeta. Sem me transformar em mosca, é claro.

Enquanto não inventam o teletransporte, meu sonho de consumo imediato é só viajar de primeira classe. Ando fazendo contas de minha expectativa de vida para saber quando (e se) posso começar a fazer isso e ainda sobrar dinheiro suficiente para a enfermagem e para os remédios. Estou cada vez mais perto desse ponto de equilíbrio, o que não sei se é motivo para alegria ou tristeza.

Tudo por causa daquelas poltronas apertadas.  Não raro o vizinho é tão grande ou tão gordo que transborda para cima de você. Fora o cheiro de alguns. Permaneci catorze horas ao lado de um treinador de cavalos, que combinava as duas coisas. Nem inimigo merece.

Em outra ocasião viajei entre um jogador de tênis norueguês e um australiano enorme. O norueguês ocupava a poltrona do corredor e, sentando-se em diagonal, esticou para fora as longas pernas, pouco se importando com as pessoas que tropeçavam em seus sapatos. O australiano viajava espremido na janela. Eu, apesar de contida por todos os lados, era a menos sofredora. Imaginem na hora do jantar: parecíamos três loucos metidos em camisas de força.

Sem falar nos roteiros longos, ou que demandam conexões. Meu recorde é de trinta e uma horas, distribuídas por quatro voos seguidos, sem levar em conta o tempo de espera nos aeroportos. Literalmente, dois dias de viagem. Jurei que nunca mais passaria por isso outra vez e cumpri a promessa. Posso não estar velha o suficiente para andar de primeira classe, mas estou velha o suficiente para evitar fazer estripulias desse tipo.

Apesar de tudo, para distâncias maiores, entenda-se aí algo acima de duzentos quilômetros, o avião ainda é a melhor opção. Quando o meu dinheiro não dava nem para a última classe, viajei cinquenta e seis horas de ônibus até Buenos Aires. Voltei de avião em dez vezes com juros, e nesse caso também prometi a mim mesma que nunca mais. Cumpri. Acho que sou boa em cumprir promessas que me beneficiem.

Já perdi avião por causa de engarrafamento, já fiquei em terra devido a tempestade, já esperei por avião que se acidentou antes de chegar, já encontrei barata cascuda em avião novinho, minha mala já foi para o destino errado, já estive em avião com problemas técnicos e que retornou ao aeroporto depois de jogar fora o combustível, já viajei em Jumbo levando apenas treze passageiros, tão enorme e tão vazio que parecia uma nau fantasma.

Medo? Só de não poder viajar mais. Vou contar direitinho o dinheiro necessário para a tal primeira classe.

 

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