Atire a primeira moeda

Não sei onde eu estava com a cabeça quando entrei naquela loja de 1,99, se nesse tipo de comércio dificilmente consigo encontrar algo de que realmente necessite e há muito tempo a maioria dos artigos já custa mais do que isso.  Deve ter sido o fascínio dos preços: sem exceção, terminam em noventa e nove centavos.  Nunca entendi por que uma coisa me parece barata se, em lugar de custar cem reais, custar apenas 99,99.

Comprei uma inutilidade de 3,99 e, junto, lá se foi aquilo para dentro da minha bolsa.  Em parte, a culpa foi da insistência da vendedora, mas eu devia ter resistido veementemente às suas investidas.

Durante semanas aquela coisa me assombrou.  Poderia simplesmente tê-la jogado no lixo, mas não consegui.  Sou supersticiosa.  E se, depois de jogá-la fora, eu perdesse de repente tudo o que tenho, e que já não é muito?  Melhor mostrar algum respeito pelo objeto.  Nunca se sabe.

Semana após semana, cada vez que eu abria a bolsa, lá estava aquela coisa me encarando. Em diversas ocasiões, tentei passá-la adiante, ninguém aceitava.  Não posso culpá-los, eu deveria ter feito o mesmo.

Concluí que a única saída seria doá-la a uma pessoa menos favorecida: o pedinte esfarrapado que há anos faz ponto aqui na rua recusou.

— Pega de volta, madame, é capaz de fazer mais falta pra senhora do que pra mim.

Ser mendigo é uma coisa; perder o orgulho e o direito de se sentir insultado por um gesto de falsa caridade, é outra.  Envergonhei-me, mas acho que foi por ter escolhido a vítima errada.

Dias depois, morrendo de pressa e indo de taxi para o centro da cidade, paguei ao motorista quando ainda estávamos a cerca de vinte metros do meu local de destino.  Antes que o carro parasse, o taxímetro marcou mais alguns centavos.  Propus pagar a diferença de preço.

— Não precisa, moça, tá tudo certo.

— Faço questão, afinal o senhor vive disso e não é justo.  Tenho aqui algumas moedas para completar a corrida, aguarde um pouquinho.

— Se a senhora insiste…

Diante dessa concordância explícita, peguei uns trocados na carteira e mais que depressa despachei junto aquela moeda de um centavo que a vendedora da loja de 1,99 insistiu em me dar de troco.  Só não entendo porque estou me sentindo tão culpada.

 

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