Assunto de “principiante”

 

Nossos grandes cronistas — quando havia grandes cronistas, como Rubem Braga, Sérgio Porto, Carlinhos de Oliveira, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Pongetti, Rachel de Queiroz, o poetinha Vinicius, o grande Antonio Maria, Drummond, Bandeira, enfim, decididamente, uma turma genial — dominavam a arte de escrever e se reinventavam a cada dia, porque escreviam, não uma pequena crônica por semana, mas várias, sendo que alguns, como Nelson — sem contar as peças de teatro, poemas, músicas e shows —, escreviam todos os dias, eram incomparáveis, não sei de onde brotava tanto assunto.

Muitas vezes, se faltavam assunto e inspiração, recolhiam uma velha crônica, saída há alguns anos, e a republicavam. Lendo com vagar e atenção “O Homem na Varanda do Antonio’s” e “Diário Selvagem”, ambos do Carlinhos, você encontrará crônicas repetidas, o mesmo se passando com “A vida como ela é…” do nosso Anjo Pornográfico. Mas eram repetidas com genialidade, e o leitor nem reparava, porque a crônica saíra uns três ou quatro anos antes e eram tantas as escritas que ninguém se lembraria delas. Agora, quando você compra as coletâneas, vê como é complicada, dura, árdua e inventiva a vida de um cronista.

E assim estou eu, órfão de inspiração, sem assunto; pior, sem ter um quinto do talento desses mestres nem um décimo da bagagem que eles carregavam em anos de labuta, o que justificaria que eu buscasse uma crônica já esquecida e a republicasse. Na falta do talento, da bagagem e dos anos de vida de cronista, me resta somente o ato de confessar publicamente que estou virgem de ideias e vazio de temas.

Poderia escrever falando mal do trânsito carioca e da incomparável falta de educação dos nossos motoristas, sob a bênção dos guardas municipais que sofrem de grave problema ocular: só veem as infrações cometidas pelos carros particulares, pois quando se trata dos ônibus e das vans, estão sempre de costas para os loucos ao volante desses coletivos usados como catarse de todos os seus problemas pessoais. Mas isso seria cair no clichê, o que demonstraria, mais ainda, minha irresponsável falta de assunto.

Esculachar o prefeito também já virou lugar-comum: basta olhar para as ruas, calçadas, sujeira, árvores sem replantio, descaso, falta de respeito para com o cidadão, mas tocar nesses assuntos provaria minha absoluta incapacidade de descobrir um assunto diferente.

E que tal abordar mais um feriado neste país tão carente deles? O dia de Zumbi dos Palmares, por exemplo, feriado que parece só existir no Rio e na Bahia, o que demonstra que a falta de assunto não é exclusividade minha: tem muito governador que deveria descobrir algo mais para fazer do que ficar, na falta de assunto, promulgando feriados sem pé nem cabeça. Mas somos o eterno país do futuro, então, está explicado o assunto, ou, se preferirem, sua falta.

Na falta de outro assunto, vou narrar como passei minha semana. Passei-a com minha querida editora, Noga Sklar, ou via Embratel ou nas idas e vindas de incontáveis emails, trocando figurinhas, ideias, revendo o maravilhoso trabalho de revisão e editoração que ela fez no meu livro “Paris para principiantes” e que a sua KBR lançará no dia 10 de novembro;  na falta de assunto, acabei me transformando no meu próprio assunto, o que Freud olharia com ares de profunda reprovação e tentaria explicar como um ato de puro narcisismo.

Como não estamos em terras austríacas, nem me encontro recostado em nenhum consultório de psicanálise, posso garantir que não existe nada de narcisista nesse ato — foi, devo confessar, a oportunidade de falar do meu livro por total, completa e irremediável falta de outro assunto.

E acabei fazendo meu comercial… confesso que não era essa a intenção, mas agora não vou voltar atrás, até mesmo por absoluta falta de assunto.

Au revoir!

 

2 comentários em “Assunto de “principiante”

  • 20/10/2012 em 16:25
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    Aguardo o lançamento e meu exemplar autografado (prometo comprá-lo, é óbvio! Sou profundo inimigo dos frequentadores de ‘bocas-livres’ em lançamentos…Não se contentam com o convescote, mas querem o CD, o DVD ou o LIVRO de graça também…Só nesse país varonil, mesmo).
    Parabéns!
    Ainda me encherei da coragem que me falta.
    Tenho assunto, tenho o incentivo da família, mas falta-me coragem.
    Essa, você, Paulo Pinho, já aliou à competência e está aí! O Livro!
    Abraço!

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