As trutas do japonês

Quando cheguei, soube que trutas eram a especialidade local.  Hotel aconchegante, sossegado, tudo o que eu precisava por duas semanas.  O gerente, um japonês brasileiro, se esforçava para tornar a estadia agradável.  Foi quem primeiro me falou das trutas, numa conversa que transpirava orgulho.  Sua família tinha criação de trutas, as maiores e melhores da cidade, talvez do mundo.  Dispôs-se a trazer algumas para mim.

Não sou exatamente apaixonada por trutas, e tenho certeza de que ele percebeu isso logo de cara.  Meu arsenal de desculpas delicadas foi se esgotando à medida que o japonês, cada vez mais agradável, ia refinando a oferta: incluiu um convite para visitar a propriedade da família e uma receita imbatível da avó dele.

Passei a evitar a portaria do hotel, coisa difícil naquele ambiente pequeno e familiar.  Desisti.  Se não aceitasse comer as benditas trutas, e tecer todos os elogios ao meu alcance, ia acabar estragando as férias.  Tudo bem, amanhã irei visitar as trutas.  Pode até ser divertido, quem sabe?

Não fui.  Com uma desculpa delicada, o japonês adiou por vinte e quatro horas toda a operação.  Também não aconteceu no dia seguinte, porque um problema qualquer na família dele tornou a visita impossível naquela semana.  Entretanto, as trutas viriam para o jantar, com toda a pompa.   Não vieram.  Aos poucos, senti que o japonês me evitava, o que era muito mais difícil para ele do que tinha sido para mim.  Afinal, o cara trabalhava no hotel.

Vingativa, comecei a persegui-lo, assistindo o esgotamento de todo o seu arsenal de desculpas delicadas.   Nos últimos dias, fugindo de mim, o japonês se esgueirava pelos cantos.

Meu lado mau adorou.

 

 

Um comentário em “As trutas do japonês

  • 22/07/2012 em 12:56
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    Ser civilizado, no significa ter boas maneiras, mas perceber o que incomoda nossos semelhantes.
    (Paul Siebel)

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