As trapaças que a vida nos prega

SimonGandolfi4Gosto muito de ler o que Paulo Delgado escreve. Ele é sociólogo, colaborador do Jornal Estado de Minas. A frase que dá título a esta crônica retirei de um de seus escritos, ela me acompanhou nos meus pensamentos e movimentou algo em mim.

Muitas e muitas vezes na vida agi por impulso, corri em direção do mar, mas encontrei um deserto. A miragem que avistei era aquela que eu desejava, mas era uma ilusão.

Acho que quando o tempo passa, e os cabelos começam a ficar mais grisalhos, começamos a ver o que queríamos e não a realidade. A juventude perdida parece mais perto, quando compro uma motocicleta de grande porte e saio pilotando pela cidade. A bebida constante pode me trazer mais palavras à boca sem que estas tenham um verdadeiro conteúdo. E assim, caminhando pela rua, nos vemos conversando sem ter o que dizer. Um gosto amargo na manhã seguinte nos diz que a noite não foi nada boa.

Existe uma ilusão de que atrás da montanha tem um rio de águas mais doces, mas pode ser que só encontremos lá um pouco de desilusão. Seriam estas as trapaças que a vida nos prega? Esta busca sobre um suposto paraíso já levou muita gente a tomar atitudes das quais depois se arrependeram, não que o sentimento que as levou a isto fosse falso, não, ele só foi inocente.

O homem, quando inicia um movimento, não tem certeza de que vai conseguir manter o equilíbrio, ele o faz por instinto, e neste falso molejo ele age. Hoje, refletindo um pouco sobre o que fiz ou deixei de fazer, analiso, penso se seria possível agir de outra forma, organizada e pensada, onde os gestos fossem estudados e medidos. Acredito que não!

Quando não damos conta de lidar com o que nos incomoda, agimos muitas vezes de forma inconsciente. Falar o que se sente, trocar mais que algumas palavras e se fazer entender, talvez seja nossa maior dificuldade. São raros aqueles que escutam, mais ainda os que dizem o que sentem, sem magoar ou agredir o outro.

Perdemos-nos no dia-a-dia corrido, nas contas a pagar, nas raivas e nas mágoas. Quando dizemos algo, vem misturado nessa dinâmica, do pão nosso de cada dia, à luta incessante por ter mais. Mas o que nos falta talvez não tenha preço. Talvez seja a cidade e seu movimento, talvez o mundo capitalista, exigindo soluções e dinheiro. O certo é que ficamos à deriva nesse mar
de incertezas, acompanhados muitas vezes por nossa própria angustia existencial.

No jogo da vida existem regras, mas as trapaças não são incomuns. É como se estivéssemos sentados frente a frente com nossa própria pessoa e guardássemos sempre uma carta escondida dentro do bolso. No final, por mais que ganhemos, temos a sensação de não ter valido a pena. Ficamos com o dinheiro, o sucesso, o sexo e as bebidas… e a sensação de que falta algo.
Falta talvez uma amizade sincera, uma conversa onde as ideias sejam bem-vindas. E, principalmente, falta o amor; este que, aparentemente, viria a reboque das conquistas e da fama, pode se fazer ausente. Nessa hora, mesmo o grande jogador, aquele que sorri de suas próprias façanhas, pode sentir que perdeu.

A vida cobra, e nos diz que somos os únicos responsáveis por nosso próprio destino. Diante de nós está nossa consciência, nossos atos e a certeza que temos de viver com suas consequências.

 

 

6 comentários em “As trapaças que a vida nos prega

  • 22/02/2013 em 23:31
    Permalink

    Belas reflexões…
    Penso que somos “os artífices da nossa eternidade”!
    Também acredito que precisamos aprender a ouvir mais e dar mais atenção aos nossos sentimentos e saber expressá-los.

    Resposta
    • 23/02/2013 em 11:29
      Permalink

      Prezado amigo
      Obrigado pelas palavras.
      Ás vezes escutamos ,mas não ouvimos nosso coração.
      Sentimos, mas não temos coragem de viver nosso desejo,e a responsabilidade que o acompanha.
      Um grande abraço.
      Gustavo.

      Resposta
    • 19/12/2012 em 12:15
      Permalink

      Mas somos responsáveis por nossa vida!
      bjos.

      Resposta

Deixe você também o seu comentário