As águas que caem do céu

Olho pela janela do meu quarto. Uma chuva, dessas que na roça chamam de “criadeira”, cai sobre a cidade grande.

Moro aqui; logo, sofri com a seca e a poluição, que se agarraram nas janelas e no coração. A poeira se instalou em todo lugar, grudou-se aos vidros, às pétalas das flores, ao asfalto quente, à boca, aos lábios e onde mais pôde tocar. Foi um período estéril, árido. Na atitude das pessoas se refletia a falta de umidade; frescor e leveza nas palavras e nos atos, nem pensar! Todos estavam dispostos a debater, ânimos exaltados no calor da discussão.

Ao mesmo tempo, notícias de amigos em dificuldades chegaram até a mim. Longe, sem poder ajudar, não importando a distância, eu não quis recuar. Tentei lançar a palavra amiga, mas o sofrimento é inimigo tinhoso, que nos afasta de quem queremos nos aproximar. Deixou minha voz perdida, no vento da desilusão.

A vida, porém, pede disposição e coragem para seguir em frente, exige a iniciativa de procurar o que está distante. Só nas palavras encontrei um auxílio; coisa pequena, do tamanho das que consigo escrever. Olhando a chuva que cai do céu, me lembro de que tudo passa.

Há bem pouco tempo, eu corria na fazenda no meio do lamaçal, tudo era sorriso e brincadeira. O castigo era certo, pois mãe que é mãe não deixa estripulia de menino sem castigo. A dor de garganta e a gripe corriam atrás. A infância inteira brinquei de esconde-esconde com essas duas inimigas da saúde, frágil, mas a vontade, a mil, não podia ver a enxurrada se formar que corria para a rua para brincar.

Pisar no córrego miúdo na beira da calçada, fazer dique com o pé: alegria e satisfação. De noite, a febre chegava devagarzinho, a mãe ralhava, prometia castigo em dobro se a travessura voltasse a se instalar. Mas não tinha jeito, era só a chuva começar para ajuntar os amigos de folia e recomeçar. Ver a terra amolecendo, parecendo doce de leite, as pegadas marcando o chão, seguindo a gente, como ferro quente, era bom de verdade.

Olhava para cima, deixava a água bater no rosto, abria a boca e sentia o gosto do céu. A chuva trazia para a gente o sabor das nuvens que não conseguíamos alcançar. Tudo derretia devagar. Molhados da cabeça aos pés, nos sentíamos mais felizes do que pintos no lixo.

Talvez infância seja isso, um deixar brincar, um sorriso solto, travessuras no ar. Talvez a chuva que cai agora consiga levar pra longe a dor de um amigo, a mágoa reticente, a ausência de quem partiu. Com ela talvez venha a paz que tanto nos falta, a palavra que acalma o coração, a mão que dá um carinho, amor , perdão.

Uma verdade é certa: as águas às vezes caem dos olhos, às vezes correm para o mar, mas há dias em que elas caem assim, assim, bem devagar.

 

4 comentários em “As águas que caem do céu

  • 14/10/2011 em 15:04
    Permalink

    Já dizia Chico Xavier para não nos importarmos com as lágrimas, que lavam os olhos e nos permitem ver mais claramente.

    Resposta
    • 17/10/2011 em 17:54
      Permalink

      Oi Bia!Um grande beijo!Linda mensagem!

      Resposta
    • 17/10/2011 em 17:53
      Permalink

      Oi Vera!Obrigado pelas doces palavras!Só Vi sua mensagem hoje!Estive fora!
      Beijo!

      Resposta

Deixe você também o seu comentário