Às 17 horas

Agora são 17 horas. As trágicas 5 horas da tarde. A hora de fazer o quê? Ligar para a Terezinha? Ir à padaria, tomar banho? Fazer umas comprinhas ali no supermercado? Ou pura e simplesmente esperar passar o tempo, até às 6, talvez, dissimulando o não estar fazendo nada?

Me deitar um pouco vai dar uma culpa horrível. Que hora é essa, para mim sempre difícil? Não é à toa que os sábios ingleses inventaram o chá das cinco!

A que horas começar a acender as luzes? Quantas? Quais?

Para quem mora só, como eu, essa hora clama por uma disciplina, um ritual.

Não posso deixar de citar o Pessoa, meu íntimo, num trecho de uma ode não exatamente à Noite, mas à quando a Noite vem: “Vem, noite antiquíssima e idêntica/ …Por esta hora que não sei como viver…”

Eu também não sei. Penso nos operários, que trabalham com horários fixos, para quem talvez essa hora seja libertadora, a salvação de deixar o trabalho e ir para casa, para um encontro oculto, eventual ou religiosamente tomar um chopinho no bar com os amigos antes de se recolher. Mas chopinho ou o que o valha, com o cotovelo encostado no balcão engordurado dos lugares próximos de onde se trabalha… dá mau humor e de dor de cabeça.

Não.

Nessa hora, em lugar do constrangimento, do entorpecimento forçado, a nobreza, a degustação: arruma-se a mesa com a melhor louça; pãezinhos e bolinhos em cestos cobertos por panos bordados, açúcares brilhando sobre uns biscoitinhos; guardanapos e o bule, o centro da elegância, chegando aromático, treinando nosso olfato, sem pressa, distraidamente, entre conversas amenas; rindo, até que a noite nos envolve e nos salva daquele hiato desconfortável de tempo que já se foi.

Há anos tento instituir este pequeno ritual salvador da minha perdição crepuscular. Eu chego lá.

 

Um comentário em “Às 17 horas

  • 09/10/2011 em 18:59
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    Quando conseguir instituir o ritual me convida para o chá?
    rsrsrs…
    Muito bom, me deu uma vontade de tomar um chá…
    abraço,
    Raul

    Resposta

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