Apenas um gesto

Era um garoto triste. Tinha medo e não sabia por que, era solitário e sofria calado. Os pais não prestavam muita atenção nele. Afinal, menino bom, dos filhos era o que ficava quieto e não aprontava. De tanto ouvir para não fazer isso e aquilo, ele aprendeu que, se ficasse só em seu quarto, os pais paravam de gritar com ele.

Andava pelos cantos, lia o tempo todo. Nas histórias, era o mocinho aventureiro. Mergulhava no mar em mil léguas submarinas, andava no deserto e subia nos picos mais altos. Conseguia voar e era sempre feliz. Um dia a mãe o colocou num colégio interno (naquele tempo ainda existia isso). Lá, ele começou a se mover da mesma forma, silencioso e quieto. Como os quartos eram individuais e havia um grande número de alunos, sua presença passava sem ser notada.

Em sala sua postura era valorizada; não dava trabalho aos professores. No refeitório, comia rápido e pouco; quando terminava, punha uma maçã no bolso e subia para o quarto. Lá encontrava seus livros, heróis e sonhos. Sim, sonhava que o mundo era fraterno, que todos gostavam dele, que os pais o visitavam nos finais de semana como faziam as famílias de seus colegas.

Não raro, lendo com um toco de vela que ficava em cima do criado mudo que lhe fazia companhia, dormia sobre os livros. A vela era uma das muitas que roubara da capela do colégio, talvez seu único pecado; mas, como se tratava de uma boa causa, ele mesmo se perdoava.

Sua vida seguia como esses pequenos riachos no meio da floresta, os quais, despercebidos, correm silenciosamente, mas com um potencial imenso. Certa vez, porém, enquanto, distraído, folheava um de seus livros prediletos, ouviu uma voz:

— O livro é bom? — Assustou-se. Um garoto parado ao seu lado lhe fazia uma pergunta.

Sem se refazer ainda do acontecido, pois não acreditava que alguém, excetuando um professor na chamada, pudesse se dirigir a ele, respondeu timidamente, no tom mais baixo que podia:

— É, sim!

— Você pode me emprestar quando terminar? — Indagou o menino, tranquilamente.

— Empresto! — Conseguiu dizer o outro, estupefato.

— Legal! Meu nome é João! — disse, estendendo a mão.
Sem saber direito como agir, o leitor limitou-se a declarar:

— O meu é Lucas! — E apertou a mão, do outro, ainda com receio.

A partir de então, se tornaram muito próximos. João era quase da idade de Lucas, apenas um mês mais novo. O que faltava a um em espontaneidade e extroversão, o outro tinha de sobra. Enquanto João gostava do discurso, Lucas há muito aprendera a ouvir. Com o tempo, pela primeira vez, se permitiu dizer algo próprio. O companheiro de leituras se mostrou interessado nos relatos que o menino fazia do que já havia lido. Apesar de serem muito diferentes, amavam os livros com a mesma paixão.

Aquele relacionamento que nasceu pequenino foi se fortalecendo com o passar dos anos. Lucas, acreditando que alguém podia gostar do que dizia, aos poucos conseguiu se relacionar com outras pessoas. Um sorriso que ele não conhecia em si mesmo começou a surgir aparecer durante as conversas engraçadas dos colegas. Um novo tempo surgiu para ele, um tempo e um lugar onde era visto e reconhecido. Percebeu que tinha em suas mãos algo que jamais imaginara possuir, embora já tivesse lido a respeito em várias obras literárias.

Era muito melhor do que estava descrito nas histórias de aventuras. Era um tesouro, mais valioso do que as joias e o ouro pelos quais os piratas brigavam durante árduas batalhas, e destemidos exploradores arriscavam a própria vida no meio das selvas.

Era, na verdade, algo sincero e verdadeiro: um amigo.

 

2 comentários em “Apenas um gesto

  • 25/01/2012 em 11:37
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    Como sempre surpreendendo com sensibilidade e magia… Adorei ! Bjs Cris

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