Aos crédulos de todos os dias

O que pode um governo ou um partido prometer ao cidadão, senão que todos seus esforços, dedicação, trabalho, honestidade — tipo lágrimas, suor e sangue — serão no sentido de manter a ordem, respeitar a lei, combater a corrupção, promover o desenvolvimento, lutar contra as desigualdades, favorecer a moralidade? Pois nunca houve, com a exceção de Adhemar de Barros, um governante que pondo a mão sobre o peito — ou sobre a Bíblia, depende da convicção de cada um —, declarasse em alto e bom som que alcançou o poder para governar em causa própria, favorecer os especuladores, promover a desordem, esbanjar o dinheiro público, fomentar a miséria — pai e mãe de todos os populistas e demagogos —, desrespeitar leis e princípios, favorecer amigos e partidários. Se o fizesse, de louco seria chamado, e por tal estado mental seria do poder varrido, sem nenhuma compaixão.

O que causa pasmo é o fato de o cidadão acreditar nessas promessas na honestidade dos políticos, clamar aos ventos que finalmente foi eleito um presidente, ou governador, ou prefeito que chegou ao poder para modernizar, moralizar, lutar pelos rejeitados, ser probo e honesto, justo e digno e leal para com o seu povo e com os que o elegeram. É como acreditar no coelhinho da Páscoa ou em Papai Noel, miragens e milagres que nunca se realizarão, “sonhos de uma noite de verão”, como escreveu o bardo inglês.

O ser humano adora fazer perguntas cretinas, que só merecem respostas igualmente cretinas e falsas. Imagine adentrar em uma peixaria e perguntar ao peixeiro se é fresco o camarão: queria o quê, meu caro amigo? Que respondesse o peixeiro que o animal está estragado, mal acondicionado e maltratado, e que a sua ingestão produzirá em você uma maravilhosa intoxicação, senão a própria morte? Se num momento de sublime honestidade respondesse o peixeiro a santa verdade, imediatamente dele fugiria porta afora, berrando a todos que era maluco o peixeiro.

O mesmo se aplica, em gênero e número, a todos os homens públicos. A verdade, infelizmente, não foi feita para ser dita, nem nossos ouvidos para recebê-la. O genial escritor Eça de Queirós, em seu livro Echos de Pariz (Editora Chadron, Porto, 1905), conta uma história deliciosa, inventada ou não, pouco importa, passada com um amigo seu que viajava pela Inglaterra. Reproduzo-a no português da época, contido na edição saída cinco anos depois da morte do grande mestre:

“Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou n’um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a almoçar. O dia era de julho, elle apeteceu um vinho fresco e leve. Percorreu pensativamente a lista dos vinhos e perguntou ao criado, com a tradicional e humana ingenuidade:

— É bom o Chablis?

O criado, um velho, de suissas brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu secamente:

— É uma peste.

O meu amigo considerou o espanto, e um pouco desagradavel, aquelle homem verídico. Depois percorreu a lista.

— Bem, traga-me então d’este Medoc… É bom o Medoc?

O criado, muito sério, replicou:

— É horrível.

Perturbado, o meu amigo murmurou, timidamente, n’uma desconfiança vaga e escura que o invadia:

— Bem, beberei cerveja… Que tal a cerveja?

O criado volveu, convencido e digno:

— Droga, muito mediocre… Extremamente mediocre!

O meu amigo tremia já, n’um positivo terror. Mas ainda balbuciou:

— Que hei-de eu então beber?

— Beba agua, ou beba chá… Ainda que o chá, que agora temos, é realmente destestavel.

Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua mala, saltou para uma tipoia e fugiu.

Porque? Nem elle sabia. Tudo quando me poude explicar é que, perante tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de si, n’aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, da ficção, da convenção — é bem humano.”

Mais atual é impossível. E todos que ficam diante das televisões esperavam que os nossos cínicos, desonestos, corruptos, desarticulados, inimigos do idioma e assassinos da lógica, nossos políticos profissionais, fossem dizer o quê? Santa ingenuidade, pensar que daquelas bocas impuras saíssem, pelo menos, perdigotos de verdades? Como? Se nem eles sabem o significado da palavra verdade! Falta-lhes moral para pronunciá-la.

Diante da mentira, da ficção, da convenção, nossa crédula espera é até justificável: no fundo, somos todos humanos.  

 

 

3 comentários em “Aos crédulos de todos os dias

  • 04/08/2012 em 15:26
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    A verdade Ofende !
    Na realidade os governos não fazem absolutamente NADA !
    simplesmente transmitem uma FALSA sensação de estabilidade para as MASSAS.
    Delegar nosso direito de escolher o futuro, para grupos de DUVIDOSA honestidade é a maior das LOUCURAS!
    Bem… o vida é assim,,, que vamos fazer….
    RIR ……JA JA JA JA JA….

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