Any pill goes

Alan, como todo mundo sabe, tem um pé esquerdo no mundo das drogas. Legais, claro, ou eu não estaria aqui candidamente confessando. O passaporte de consumo assinado dele, que na California teria direito à maconha legal, é uma dor neurológica crônica resultante de um acidente que há mais de 40 anos afetou alguns discos da sua coluna, dor que o deixa louco às vezes, mas que quando medicada… o deixa mais louco ainda, sabem como é. De um jeito ou de outro, é o lado infernal do nosso casamento. Saber que não passa de um ódio químico — e que tudo passa, este surto também há de passar —, não constitui pra mim nenhum consolo, juro. Quando estou no inferno, tenho que me queimar.

Por conta disso, toda vez que aparece alguma notícia sobre drogas na mídia, vou lá e vejo, como esta semana no blog do Reinaldo Azevedo, ops, acabei de perceber que a postagem é meio antiga, embora o assunto esteja na crista da onda com a aprovação esta semana da descriminalização do porte de drogas para consumo próprio.

Sou contra? Não sou.

Vou contar uma historinha.

Quem me conhece sabe que eu sou confessional até a raiz da medula, mas desta vez vou deixar as coisas a nível (ui!) de nom de plume, vocês já já entenderão por quê.

A questão do vício tem, sei lá, deve ter mesmo algo a ver com a química do corpo, herança genética talvez, digo, uma expressa maldição da natureza. Eu, por exemplo, que há alguns anos — jovens anos de boemia — me acreditava alcoólatra, na verdade não tenho esse componente ativo, dei sorte, felizmente. Pode hoje em dia a casa estar entupida de bebidas que eu continuo tomando a minha tacinha de vinho tinto, diária e única, ou meu raro uisquezinho ao final da tarde, isso, porque uísque aqui em casa, como vocês sabem, não dura. Pode estar a geladeira entupida de chocolate que não excedo os meus um ou dois quadradinhos semanais. E mais recentemente, por conta de um incômodo na garganta que nesta sexta comecei a investigar seriamente, andei tomando um comprimidinho diário de Olcadil, muito a contragosto. Tentei 3 meses. Não me ajudou. Parei.

Pois exatamente por isso, na sexta à tarde, visitamos o consultório de um clínico que é também nosso amigo, e conversa vai, conversa vem, ele nos contou o caso dessa nossa amiga comum cujo marido, infelizmente para os dois, tem essa quedinha natural pelo vício. O cara acredita que sofre de insônia, e em períodos alternados — sempre depois de um mergulho típico de viciados o pobre retorna por um bom tempo ao mundo dos vivos, onde permanece muito bem por alguns meses até entrar numa de insônia novamente, pirado, o coitado — solicita ao nosso amigo uma receita legal, carimbada, bacana, oficialmente aprovada com o selo negro do governo.

O doutor dá, porque M. é hipertenso, precisa se acalmar. Mas dá, vamos combinar, com o cu na mão. Ele sabe de longa data que o sujeito infeliz talvez até precise de alguma ajuda para dormir, mas não pode se enfiar na casa dele e controlar o uso que ele faz na sua gana insana de consumir, se é que vocês me entendem. Então o marido da nossa amiga se autoaplica uma eventual “sonoterapia” maldita, que liquida com sua boa saúde usual em apenas poucos dias.

Dr. B estava justamente me contando o mais recente desses episódios, quando M. estava muito bem e, de repente, descambou. Em dois dias a face rosada e cheia de energia murchou, os olhos se injetaram, a barba encruou, sei lá. Foi tão forte a coisa que nossa amiga, a esposa, foi forçada a esconder o que restava das pílulas — suficientes para três meses e consumidas em sua maior parte apenas naqueles dois dias. “Na segunda noite”, ela disse, “foram 7 comprimidos, praticamente um a cada hora”. “Poderia ter morrido”, preocupou-se o Dr. B., “e eu ainda seria responsabilizado por isso”.

M., nas poucas horas em que se mantinha acordado, vagava pela casa com a destreza arrastada de um zumbi só metade vivo; quando viu que V. escondera as pílulas, enlouqueceu de vez, ou de cansaço, sei lá. Piração completa. Tirou todo tipo de pílula pra fora das gavetas e as espalhou pelo chão do banheiro. No final, agredida, ameaçada de morte, nossa amiga (que tem outro vício, igualmente triste: o de bancar a santa redentora) nem assim recuou. O pobre já nem sabia o que estava tomando naquela hora, pois ela deixara ao “relento” somente as teoricamente inocentes pílulas contra fungos nas unhas e contra azia. Acabou escondendo tudo, nem aspirina ela deixou.

No dia seguinte estavam no consultório do nosso amigo — ela devolvendo as pílulas escondidas num saquinho ziploc, pois M. no surto abrira todas as caixas de uma vez. Dr. B., sem outra saída, recomendou psicoterapia, onde M. não pisa nem… Bem. Talvez depois de morto, de ter se matado com pílulas, digo.

E o que eu pretenderia contando tudo isso a vocês? Bem. Reinaldo Azevedo em seu blog afirma ser contra a des-cri-mi-na-li-za-ção sob alegação de que “existem muito menos viciados em drogas ilegais do que nas drogas legais. O que isso quer dizer? Que a ilegalidade inibe o consumo”, bem, em termos. Pois de um jeito ou de outro o drogado se arruma pra conseguir aquilo que ele quer, e o uso que faz depois de se abastecer está sempre aquém do controle de seja qual lei se fizer estabelecer, do Estado, da família, o que for, até numa clínica isolado o sujeito é capaz de transgredir. É inútil resistir.

Legal ou não, não faz a menor diferença, podem me acreditar. O que distingue os casos nesse caso é pura e simplesmente a predisposição genética, e apenas quem convive com a porcaria sabe o nó que se tem que enfrentar, algo que não se deseja a ninguém, pois não há muito o que fazer. É o mundo “deles” contra o nosso, duas realidades que não se cruzam, só se enfrentam, e geralmente à base de extrema violência.

Então o que eu penso é que o problema das drogas não é da alçada do Estado de jeito nenhum. É de âmbito muito particular, de quem tem esse carma com o qual “escolheu” lidar, isso, é claro, supondo o absurdo de que existe alguma escolha nessas situações. Quando o Estado se mete, o que se promete é uma inaudita escalada da violência, desta vez estendida a quem nada tem a ver com isso, pois deixa-se a solução nas mãos de quem não tem amor algum, apenas tendência para o crime e ganância financeira. Entenderam?

Taí. Drogue-se à vontade quem nasceu para se drogar. Mate-se. Dane-se. A única pena nisso tudo é que junto com ele danam-se as famílias, esposas, pais e filhos, haja amor para suportar.

E um bom domingo procês, desculpem, nem por tabela eu escapo da fatalista sensação de desgraça que tem me acompanhado ultimamente. Mas em breve eu chego lá. Prometo.

 

PS. Pra completar, ontem à noite, depois que já tinha escrito a crônica, assisti no dvd a “Precisamos falar sobre o Kevin“, baseado no premiado romance de Lionel Shriver que eu não li. Ainda bem.

 

 

 

 

2 comentários em “Any pill goes

  • 05/06/2012 em 18:52
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    Ei, Noga! Muito bem colocado. Ainda bem que escolhi fazer a coisa certa para aproveitar a folguinha, vim matar as saudades de te ler. Beijo!

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  • 03/06/2012 em 14:54
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    Salve, Noga!
    Morrer é o de menos, afinal é a única garantia da vida…
    O negócio é o SOFRIMENTO! Antes, durante e quiçá, Depois…
    Abraço,
    Raul Augusto

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