Anúbis à procura de um escriba

manoAnoiteEra quase meia-noite. Desliguei o notebook. No prédio solitário, apenas eu e talvez um velho guarda, roncando num canto do estacionamento. Lá fora, a garoa, a névoa e um frio que calava fundo nos ossos. Para variar, estávamos sem elevador e tive que descer oito andares, o que aqueceu as minhas pernas.

Lembrei-me de Gangue; até parece que não fui eu quem o escreveu, e talvez seja verdade. No silêncio da noite, todos os sons parecem assombrações; pegadas atrás de mim ecoavam no fosso das escadarias.

Nossa mente bloqueia fatos que não se encaixam na “realidade”, e esqueci muito do que ocorreu naqueles três meses na ilha, especificamente minhas conversas com o velho “Raul” num bar de estrada, do outro lado do campo santo, a luz oscilando, vibrando ao ritmo de meu coração. Que merda, estou com medo!

“Obrigado por escrever…” — me pareceu escutar a voz do fumante exagerado, que terminou por pegar câncer. O rosto do companheiro de conversas se perfilou perante meus olhos cansados, ele que me obrigou a escutar, tomar notas e beber “água ardente”. Apressei o passo, deve ser efeito do trabalho, do estômago vazio e do estresse; nesses momentos, qualquer explicação que “racionalize” é valida. É bom rever os amigos, porém, quando estes morreram e foram enterrados num lugar esquecido, no limbo, temos que ter reservas.

O bloqueio mental se quebrou ao chegar no estacionamento no subsolo. Madrugadas de lua cheia, nas quais minha alma quase sumia do corpo, voltaram a assombrar-me. Olhei para trás, para os dois lados, e nada. Tinha que chegar em casa, tomar um trago de tequila e rir, de nervoso.

Não sei por que os espectros só podem vagar pela terra na primeira noite de lua cheia. Quem fez essa regra idiota? Entrei na caminhonete, tranquei as portas e saí cantando os pneus. O guarda nem se mexeu. Até em casa eram quase onze quilômetros, e havia ainda aquela reta obscura. Na metade do trecho, o motor parou, o sistema elétrico entrou em pane.

Fiquei quinze minutos em silêncio, até que tomei coragem.

— Boa-noite, Raul, quanto tempo…  — o halito frio por trás de minha nuca me deixou feito pedra.

Bem, pelo menos era melhor do que estar fugindo de algumas coisas que não têm como evadir-se. Após esses sete anos, estava no meio de uma estrada desolada conversando com meu “espectro favorito”, dono da historia de Mário Esteves e seu grande amor Michele, a dos olhos azuis lindos de morrer.

Me voltei e ali estava ele, na minha frente, com aquele ar triste, cor de cera, cabelos penteados para trás e um riso disforme, uma curva entre a tragédia e o paradoxo de uma vida.

— Manuel, sabes por que os lobos uivam para a lua?

Com lágrimas nos olhos, neguei com a a cabeça.

— Os lupinos uivam para Bastet, para contar a verdade, e as maldições das feiticeiras se quebram com seu fogo… Eu sou Anúbis, filho de Osíris, guardião dos mortos, “senhor da necrópole”.

Falei com meus botões, poderia ser Ísis ou talvez Néftis. Ele chegou mais perto e quase cravou seus dentes:

— Sim, poderia… — rosnou. — Raul está na região subterrânea, falou-me sobre um escriba que o libertou de suas culpas.

A situação era mais séria do que eu havia pensado.

— Nada de mais, algumas páginas, nem  papiro ou papel… — comentei, com receio.

— Tu, mortal, serás meu escriba ou tua alma permanecerá por sempre na região dos mortos.

Era uma proposta irrecusável.

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“Anúbis (em grego antigo: Anoubis) é o nome dado pelos antigos gregos ao deus com cabeça de chacal associado com a mumificação e a vida após a morte na mitologia egípcia. Na língua egípcia, Anúbis era conhecido como Inpu (também grafado Anup, Anpu e Ienpw). A menção mais antiga a Anúbis está nos Textos das Pirâmides do Império Antigo, onde frequentemente é associado com o enterro do Faraó. Na época, Anúbis era o deus dos mortos mais importante, porém foi substituído durante o Império Médio por Osíris. Assume nomes ligados ao seu papel fúnebre, como Aquele que está sobre a sua montanha, que ressalta sua importância como protetor dos mortos e de suas tumbas, e o título Aquele que está no local do embalsamamento, associando-o com o processo de mumificação. Como muitas divindades egípcios, Anúbis assumiu diversos papéis em vários contextos, e nenhuma procissão pública no Egito era realizada sem uma representação de Anúbis marchando em seu início.” (Wikipedia)

Na hora da morte, o coração era pesado numa balança, contra a pluma da verdade, Maat, enquanto Thoth anotava no Livro dos Mortos. Nada permanecia oculto, todas as mentiras e traições queimavam sob a luz de Osíris. A luz pálida de Selene iluminou nossas almas naquele instante, seu rosto se transfigurou — a cabeça de lobo num corpo humano uivava dentro da caminhonete. O som terrível quebrou os vidros e meu coração.

— Voltarei na próxima lua cheia…

O motor ligou. Ele tinha ido embora. No banco traseiro, restavam alguns pelos castanhos. Dirigi até em casa com o vento entrando pelos vidros quebrados. Abri a porta e nem a fechei ao entrar, afinal de contas, ter medo de quê? Peguei no minibar uma garrafa de tequila. Joguei-me no sofá de couro negro e imaginei por alguns momentos que, no próximo romance, seria honesto ter dois autores, não importando que um deles fosse lupino. O Deus Egípcio vaga durante a noite e procurou-me para contar suas histórias, cansado de uivar para a lua!

Por via das dúvidas, pela metade da garrafa, encontrei uma velha oração que os desencarnados rezavam ao passar pelos portais de ouro e ônix, que conduzem aomundo oculto de Anúbis:

Não pratiquei pecados contra os homens. / Não maltratei os meus parentes. / Não obriguei ninguém a trabalhar além do que era legítimo. / Não deixei de pagar minhas dívidas. / Não insultei os deuses. / Não fui a causa dos maltratos de um senhor ao seu escravo. / Não pratiquei enganos com o peso da minha balança. / Não causei a fome de ninguém. / Não fiz ninguém chorar. / Não matei ninguém. / Não pratiquei fraudes na medição dos campos. / Não subtrai o leite da boca das crianças.

Lá pelo último terço da tequila a verdade chegou para me assombrar: o cosmos abriga muitas entidades; a essência da vida tem sua fonte nesses vórtices de energia, onde o mal e o bem carecem de sentido; nós, como cegos, não conseguimos discernir entre todas as realidades que nos envolvem como tufões divinos, pobres criaturas!

A meio caminho da verdadeira existência, as vozes da verdade nos alcançam como meros murmúrios de anjos caídos!

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