Ano novo: uma crônica realista

FELIZ2013PAZNo dia 31 de dezembro de 2012 será comemorada a entrada de um novo ano. Vou me ater somente ao meu Rio, mais ainda à Zona Sul da cidade, que é por onde circulo, diga-se a bem da verdade cada vez menos: estou me tornando quase um ermitão do Leblon, cercado por obras e buracos, guardas que não param de apitar por ser a única coisa que lhes foi ensinada e não conseguem fazer absolutamente nada além de ensurdecer os ouvidos de todos, reforçados agora por uma turma ainda mais despreparada — parece que eram cabos eleitorais do prefeito e foram contratados pela Cet-Rio como desorientadores do trânsito, e pela ridícula indumentária que utilizam, nas cores azul e verde, receberam o apelido de marca-texto.

Mas vamos ter muita festa, muito pagode, muito samba, muitos fogos — mais uma vez, a mesma maior queima de fogos que o mundo já assistiu, algo que somente a genialidade do carioca poderia criar. As pessoas vão encher a cara, como se esse ato de se embriagar lhes proporcionasse a felicidade suprema. Comerão uvas, mesmo não sendo as maduras de que falava La Fontaine, devorarão lentilhas — prato mais do que saudável nesta canícula de dar insolação em beduíno, tomarão espumantes de origem duvidosa, saltarão sobre um único pé, pularão das cadeiras, sendo estas duas últimas medidas a alegria dos ortopedistas — como eles gostam da festa do Ano Novo!

E assim, em um mar de branco, saudarão Iemanjá, alguns se afogarão, haverá uma festa surpresa no Edifício Chopin, em Copacabana, e as dondocas com suas estonteantes e extravagantes roupas douradas, verde-alface, purpurina deslumbrada, vermelho toureiro, sol de maia — os tais que erraram tudo — devidamente fotografadas com aquela maquiagem leve de dar inveja a travesti aposentado, serão a alegria de todos os salões de beleza, consultórios médicos e barbearias, únicos lugares onde é encontrada e lida a revista Caras.

Exatamente na virada do ano, as pessoas serão mais felizes, os pobres ficarão ricos, os ricos milionários, os milionários irão certamente para algum lugar, os doentes ficarão curados, os que têm saúde ficarão ainda mais saudáveis, os ateus tornar-se-ão carolas, e tudo graças ao milagre da noite de 31.

Mas tenho a impressão de que aquela linda mulher vai continuar tão linda em 2013 como era em 2012; as feias vão amanhecer ainda mais feias, porque acordarão com cara de ressaca, os tristes continuarão tristes, os alegres serão sempre alegres; as ruas continuarão sujas e esburacadas, pelo menos até a Copa do Mundo, já conhecida como alegria de empreiteiro e político — a reforma do Maracanã custará o dobro do que custou a reconstrução do estonteante Estádio de Wembley, na Inglaterra; os ônibus e vans continuarão mandando na secretaria de transporte; os ciclistas imbecis, verdadeiros assassinos em potencial, atropelando, andando em alta velocidade nas calçadas e na contramão; os entregadores dos supermercados, tais como os aviadores nazistas mergulhavam com seus stukas, continuarão a mirar com seus triciclos os pedestres idiotas, que insistem em olhar somente para o lado que a rua dá mão, tudo sob a complacência descarada dos nossos guardas de trânsito, os mesmos que viram as costas para as atrocidades cometidas pelos motoristas dos coletivos — que conseguem a proeza milagrosa de fumar, falar no celular e dirigir, ao mesmo tempo —, deveriam estar procurando vaga no Cirque du Soleil enquanto buscam, avidamente, eles os guardas, carros de particulares que não estão no esquema para serem devidamente multados.

A saúde continuará sendo usurpada, as escolas ensinarão cada vez menos, as árvores que caírem não serão replantadas, as praias que foram tão lindas continuarão sujas e os restaurantes os mais caros do mundo, a luz desaparecerá esperando a vinda de um Aladim salvador, as comissões cada vez mais altas — os 10% de antigamente agora viraram troco, e todos nós achando tudo muito bom, muito legal, muito alto astral.
Estou mais do que amargo, pode ser. Realista, pode ser. Desagradável e estraga-prazer, também pode ser. Mas posso garantir que nada vai mudar somente porque viramos uma pagina do calendário.

Enfim, são pequenas considerações sobre fatos que vão se repetir, e, em maior quantidade, porque parece que a cada ano nos tornamos mais egoístas, egocêntricos, mais selvagens, mais desumanos. E aquela marca registrada que se espalhou pelo mundo a simpatia do carioca, e que se tornou uma lenda, será cada vez menor, até que nos tornaremos, sob os aplausos dos nossos governadores e prefeitos, o povo mais mal-educado do mundo.

Meus poucos leitores, conhecidos e amigos, espero que esteja errado, mas vou saindo de mansinho e deixando uma saudação que ficou eternizada na música do mais carioca de todos os cariocas, o homem que sabia amar e ser amado, o poetinha Vinícius de Moraes: “Saravá! A benção, que eu vou partir”.

 

 

7 comentários em “Ano novo: uma crônica realista

  • 30/12/2012 em 12:17
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    Puxa, tinha esquecido das lentilhas !!! Vou correndo ao Franprix comprar uma lata…. nesta Paris gelada, certamente não fará mal nenhum!
    Rosa

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  • 30/12/2012 em 03:54
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    Gostei da sua crônica querido “Polinho” Paulo De Faria Pinho, como bom observador que sempre foi , mas curtindo mais o Velho Mundo, eu acho que pegou um pouco pesado. A anarquia e/ou baguncinha, sempre existiu neste Rio amado,porém na minha opinião de uma gaucha” mais Ipanemense que nunca” (como disse surpreso o meu advogado, quando eu resolvi morar na Barra) penso que o carinho e o calor humano do carioca (como você) supera muitas destas tradições e hábitos um pouco chulas de um povaréu reunido nas residências ou nas praias para ver os fogos, comer e se abraçarem . Neste momento de passagem de ano os corações se unem em uma boa sintonia que só faz melhorar e elevar a vibração ambiente e forma-se uma Egrégora de Luz capaz de criar uma gigantesca onda de Amor e Solidariedade, inebriando desde os mais fracos aos mais fortes.Mas concordo com você quanto ao fato do dia seguinte à festa de Reveillon continuar tudo igual , com as mesmas sequelas , apenas com uma esperança redobrada na vinda de melhores dias. Então Boas Festas !

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  • 29/12/2012 em 21:26
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    Vous avez absolument raison. C’est drôle comment les choses empirent. C’est l’échec du système, sa signature de l’imbécillité. Tout le monde veut sa part du gâteau quelles que soient les personnes. La vie est asim, pauvres de nous!

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  • 29/12/2012 em 13:21
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    Oi Paulo…estou longe do Brasil e nao gosto de ouvir “falar mal dele”. Mas tudo o que voce escreveu, nao me pareceu ser “invencao” de escritor que quer “suspense”. Fico triste porque acreditei em sua palavras…. gostaria que nao fosse “diversao” e que a realidade nao doesse tanto…saudades….

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