Ando em crise, ou… androcrises

Última forma: ontem à noite, enquanto cada qual em sua janela admirava o belo pôr do sol, Alan me (re)enviou esta imagem, do Valentine's do ano passado. Melhorô.

Mal amanhece o domingo de sol (se estiver chovendo, por favor, não liguem: todo mundo sabe que escrevo esta crônica às sextas-feiras) e já vou recebendo a primeira chapuletada do dia, antes mesmo de sair da cama e com os olhos ainda semicerrados, sonolentos: “Ah, é domingo, dia de perder tempo com o seu ego inútil escrevendo aquele monte de besteiras que ninguém quer ler.”

Pois é. Fala-se muito na mídia das crises hormonais de toda mulher, coitadas de nós, fala sério: entra conquista e sai conquista, continuamos sendo vistas como mera gangorra emocional — TPM, menopausa e algum outro bicho-papão de que se possa ter notícia futuramente —, para além de nosso (im)possível e falho controle mental, fazer o quê. Sábias, caladas e contritas por hábito e educação, fazemos de nossos problemas o tema de nossa tediosa expressão primordial — para os íntimos, a mais que vilipendiada “literatura mulherzinha”, vida mulherzinha, é isso aí.

É. Estou amarga hoje, desculpem, mas tenho razões para isso: há coisa de umas três semanas, deflagrado como maldição por uma visita de rotina ao doutor, instalou-se aqui em casa mais um demônio verbo-conjugal que não cala a boca de jeito nenhum, mesmo que eu me recuse a escutar, sabem como é… socorro! Tragam de volta o meu companheiro desaparecido!

Quem visse, não acreditaria. Impelida por um prosaico problema de pressão — pressão sanguínea, digo —, levei meu marido Alan finalmente a um bom cardiologista; já vínhamos tentando há anos com médicos do ambulatório em Itaipava e aquelas drogas mais receitadas no “mercado”, mas nenhuma resultava na normalização desejada, então fomos em frente. Eu estava feliz, sinceramente, rindo e cantando enquanto dirigia até a consulta marcada, pois graças aos meus hercúleos esforços dos últimos dois anos, finalmente podíamos pagar… por um cardiologista decente.

Mal sabia eu… que junto à receita do mais moderno vasoconstritor ou betabloqueador ou coisa que o valha — obviamente, por intensa falta de tempo e de interesse, não sou tão versada quanto o Alan em medicina moderna, mesmo porque, vamos combinar, e ele não se cansa de afirmar, “não acredito na medicina moderna” —, viria o passaporte liberado para o hodierno, odioso remédio para os desconfortos da mente, é, quem diz que se sente bem com ele(s)… mente, e estava instalado o caos mental, a última ruína da paz conjugal: quem sou eu para competir com o Frontal?

Ah, tudo bem, apaguem aí. Vai que a hiper bem-sucedida indústria do moderno bem-estar social decida me processar por danos filosóficos e morais… e estarei lascada de vez. Isso, pra nem mencionar os tantos que enxergam nesta espúria medicina psiquiátrica legal um bem necessário, uma intenção de aclamar, ops, desculpem, acalmar os dolorosos anseios de nossa humanidade constantemente incomodada, ah, façam-me o grande favor.

O lado triste da história é que libertadas, em tese, as íntimas tensões, aflora a verdade abafada por anos de convivência e amoroso tesão — bem, este, como vocês podem sem nenhuma dificuldade imaginar, misericordiosamente aplacado, anestesiado pelo hábito como seria de se esperar, adormecido, sei lá —, et voilà, um misógino inimigo não demora a se apresentar, e que estranho seria este que encontro agora em casa, diariamente, bastando para isso simplesmente acordar? Hein? Argh.

No milagroso Facebook, opção conectada que pode muito bem, dependendo das circunstâncias e do que a gente compartilha lá, mitigar a angústia de nossa solidão milenar, dezenas de amigos se adiantam para me consolar: “liga não, é uma crise, espera que ela vai passar”, seria um breve resumo das respostas gentis ao meu desabafo vernacular.

Bom. Não é a primeira vez que passamos por isso, vale confessar. Há sempre entre nós dois alguma disputa externa maligna que tenta, e consegue, nos conflagrar, e sempre tento me safar escrevendo sobre isso, não custa lembrar: o que pra mim é puro exercício de literatura — ficção autobiográfica, tudo bem, pra dourar a pílula do gênero de texto confessional que insisto em praticar, em vez de simplesmente me anestesiar em algum perdido sofá, quer dizer, divã, sei lá —, para o meu atencioso marido é “este monte de besteiras” que vocês estão lendo agora, tempo precioso roubado à minha voluntária obrigação de me matar cotidianamente de trabalhar, ah, melhor deixar pra lá.

Sim. A crise vai passar. Se não for antes, certamente quando as caixas disponíveis de calmantes terminarem seu serviço de angustiar, a ele e a mim, particularmente, como já aconteceu outras vezes. E mais uma vez darei a ela — à crise, digo — o benefício do meu endêmico esquecimento de filha do Alzheimer, como Alan faz questão de lembrar.

Quem me dera. A verdade dos fatos é que embora eu a trate com todos os panos quentes que consigo arregimentar, minha memória por enquanto — a emocional, pelo menos —, é inconsolavelmente cavalar.

Fico me perguntando até onde conseguirei me segurar, francamente, em minha patética disposição de amar, suportar, trabalhar por este amor que é bem mais — embora haja quem custe em nele acreditar — que mera defesa contra a “inutilidade de mulheres na faixa dos sessenta anos que não têm um marido para as apoiar”.

Porque, como disse aquele meu bom amigo mineiro, no fundo no fundo, todo relacionamento amoroso é um misto de incômodo e prazer que na verdade é difícil administrar; e o que menos importa, neste cotidiano das mentes casadas mais conscientes, é com que pessoa a gente escolhe estar: é tudo mais do mesmo, não vale a pena a gente arriscar.

Ah. Você aí, no seu fim de semana familiar, amoroso, tesudo, apaixonado, sei lá, vai se ofender com certeza com esta falta incisiva de romantismo de minha parte, ao lado da falta de fé que insisto em expressar, tudo bem, cada qual tem direito à sua ilusão exemplar, desculpe, me esqueça e vá se divertir.

Tudo isso vai passar, repito, e voltarei a me empolgar… apesar das vicissitudes desta vida bandida, de amargar. Como disse o escorpião àquele sapo salutar, convicto de que as coisas podem, enfim, mudar, e que ele escolheu para o transportar: é minha natureza. Fazer o quê?

O que eu na verdade ando mais precisando é de apenas um pouco de descanso, de relaxar de vez em quando como todo mundo, nada de mais. E pra isso é que o domingo foi inventado, coisa de gênio, não é mesmo? Ou como dizem alguns crentes, créus, crus: coisa de Deus.

E um bom domingo procês, desculpem aí o mau jeito. Fui.

 

3 comentários em “Ando em crise, ou… androcrises

  • 11/09/2011 em 17:59
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    Mau jeito?
    Linda crônica. Comovente.
    Rilke escreveu certa vez:
    “A certeza de que devemos preferir o difícil nunca nos deve abandonar. É bom estar só porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, motivo mais forte para a desejar. Amar também é bom porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais superior testemunho de nós mesmos, a obra absoluta em face da qual todas as outras são apenas ensaios.”

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  • 11/09/2011 em 16:21
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    São coisas que não dão em poste… Só em gente. Gente como a gente.
    abraço,

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  • 11/09/2011 em 10:40
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    “todo relacionamento amoroso é um misto de incômodo e prazer que na verdade é difícil administrar; e o que menos importa, neste cotidiano das mentes casadas mais conscientes, é com que pessoa a gente escolhe estar: é tudo mais do mesmo, não vale a pena a gente arriscar.”

    puta merda, que merda! mas é a mais pura e simples verdade. essa mistura de muitos anos de convívio com a maturidade dos anos insere qualquer casal nesse inferno. por mais que se mantenham as aparências, na intimidade TODOS SABEM DISSO, mesmo quem mantem tudo em segredo, o que não é o seu caso né Noga? 🙂

    Afirmo o seguinte: 1) vc não está sozinha, e a exceção são os tesudos e apaixonados; 2) Não importa o que acontece com a gente. Importante é como lidamos com o que acontece. bjs.

    p.s. não vou curtir esse post.

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