Amor incondicional

Confesso que há dias em que desanimo com este mundo: é prefeito roubando e desviando ajuda destinada a desabrigados, pessoas importando lençóis descartados de hospitais americanos e vendendo-os à população como pano para confecção de roupas, gente agredindo velhos e crianças que estão sob sua guarda, um cão sendo arrastado pelo carro do próprio dono porque este já não o queria mais no seu convívio, guerras e atrocidades pelo mundo, algumas em nome de um Deus que protege e ama só aqueles que professam sua fé. Parece que a filósofa judia Hannah Arendt, ao cunhar a expressão “a banalidade do mal”, estava falando de nosso tempo, e não dos crimes cometidos por nazistas.

Nessa hora, dá vontade de pedir: “Para o mundo! Eu quero descer!” Mas aí acontece algo que me enche de esperança, e foi o que ocorreu alguns dias atrás. Eu estava participando de entrevistas para recrutamento de técnicos de enfermagem, cuja presença nos hospitais muitas vezes não notamos, a não ser quando nos encontramos em uma dessas instituições de saúde, internados ou amparando um ente querido que passa por essa provação. Nesses momentos, não é raro encontrarmos um destes profissionais, que chega para ministrar uma medicação ou medir a pressão arterial do paciente.

Isso já aconteceu comigo, quando acompanhava uma pessoa querida: uma técnica de enfermagem chegou com delicadeza, se aproximou daquele que sofria e, tocando-lhe o braço, perguntou como ele estava se sentindo. Depois, com um sorriso, disse que ele iria melhorar. É verdade; também encontrei pessoas que trabalhavam nesta função e não correspondiam a este modelo. Mas não é a regra. Naiara, a psicóloga que fazia as entrevistas que eu acompanhava, me garantiu que o perfil dessas pessoas era diferente; elas eram boas na essência.

Iniciamos as entrevistas. Entrou um rapaz, João. Ele nos contemplou com segurança e tranquilidade. Sentou-se na cadeira à nossa frente. Naiara lhe perguntou sobre sua experiência profissional. Podia nos falar um pouco de si mesmo? Ele nos contou que trabalha há 5 anos no CTI. No início, recém-formado e trabalhando em uma área hospitalar de menor urgência, ficava um pouco inseguro, mas hoje afirma sentir-se confortável com seu conhecimento e prática. Contou também que começou a estudar enfermagem para cuidar da avó que o criara. Apesar de ter outras irmãs, ele, o único neto, é que tinha paciência e carinho para cuidar dela. O que era difícil para vários, ele fazia sem constrangimento. Assim se formou. Quando começou a trabalhar num hospital, percebeu que era isso que queria fazer da vida. Abandonou a antiga profissão, na qual ganhava mais, mas que não dava a satisfação que esta lhe proporcionava. Declarou que estar no CTI e poder ajudar aqueles que sofrem não lhe trazia fadiga ou incômodo. Relatou ainda que, apesar da tensão e da responsabilidade de cuidar da vida de uma pessoa, se sentia gratificado em poder ajudar alguém. Olhei para ele e vi nos seus olhos que era verdade o que dizia.

Entrou uma menina: Regina era seu nome. Apesar de no currículo constar que tinha 23 anos, aparentava bem menos. Seu sonho de menina era ir para a África ajudar as crianças e pessoas necessitadas. Entrou no curso de Técnico de Enfermagem com esse objetivo, que, infelizmente, não conseguiu até hoje realizar. Naiara lhe diz que a área para a qual estamos contratando é a que cuida de pessoas que estão há longo tempo acamadas; em razão disso, esses pacientes apresentam muitas complicações. São idosos, na maioria, e apresentam feridas de difícil cicatrização. Ela responde que não tem o menor problema para lidar com ferimentos, pois já possui experiência nesse tratamento. Diz ainda que não se intimida diante de uma grande ferida aberta,  e, após tratá-la, é com alegria e satisfação que a vê se fechar. Pergunto-lhe qual a maior dificuldade que ela enfrenta ou já enfrentou no exercício da profissão. Ouço, em resposta, que não é dificuldade, mas tristeza o que ela sente quando percebe que, apesar de todos os esforços, um paciente do qual cuidava vem a falecer. Ao ver o sofrimento dos que ficaram e ao se lembrar daquele com quem conviveu de modo tão próximo e que partiu, se sente triste. Mas faz uma oração para todos, em especial para aquele que estava sob seus cuidados: “Que descanse em paz!” E recomeça suas tarefas no dia seguinte, pois ama o que faz e existem pessoas que precisam de seu auxílio. Olho para ela e seu sorriso sereno de menina me diz que tudo isso é verdade.

Terminamos as entrevistas e, conversando com minha amiga psicóloga, revelo que me senti tocado e emocionado ao ver seres tão humanos. Ela concorda comigo.

Saio do trabalho. Me vejo andando pelas ruas de minha cidade. Sinto-me diferente: acredito que o mal existe, mas o bem também é real. Olho para o pôr do sol e acredito num novo dia que virá.

 

 

14 comentários em “Amor incondicional

  • 20/11/2011 em 21:14
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    É verdade, são pessoas silenciosas que nos aliviam do sofrimento, uma boa lembrança ,
    Beijo, Cinthia.

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  • 17/11/2011 em 09:13
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    Lindo!!!

    Isso sim é a melhor forma de começar o dia!!!

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    • 17/11/2011 em 08:01
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      “Por mais distante o errante navegante eu jamais te esquecerei”
      Bjo,
      Gustavo

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  • 17/11/2011 em 01:56
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    Parabéns,Gustavo!
    Uma injeção de ânimo,pois ” o bem também é real”!
    Um abraço,
    ME

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  • 16/11/2011 em 13:55
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    E isso aí, Gu! E tem mais: quem faz mal as pessoas devia trabalhar mais…pode ser falta do que fazer. Bjs

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  • 16/11/2011 em 11:56
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    Gustavo, é verdade que essas pessoas são especiais. Vejo isso acontecendo todo dia com as tomadoras de conta encarregadas da minha mãe. É um carinho meio inexplicável… Eu agradeço.

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    • 16/11/2011 em 23:01
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      Noga
      ‘E verdade nessas horas ter estas pessoas ao nosso lado ‘e uma benção!
      Bjo,
      Gustavo

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