Amor de lua

Nossa cama na Rue Galande

Tem uma coisa de Paris que ainda não contei pra vocês… bem, vamos combinar que com a honrosa e urgente exceção da Via Joyce — e mesmo assim deixando de fora os detalhes escabrosos, que oportunamente deverão aparecer —, ainda não contei nada de Paris.

Joyce, vocês sabem, além de gênio, era uma criatura insuportável, pobre Nora. Como se não bastassem seus hábitos instigantes, sua dedicação extenuante ao mundo delirante da própria mente que excluía quase tudo o mais, ainda brigava com problemas de saúde que eram bastante limitantes, isso, pra nem mencionar a falta de dinheiro crônica e ululante. E todo gênio se arroga o direito a um comportamento alienante, digo, que o aliena por pleno direito dos mais comuns entre os mortais, menos eu, claro, que sou um anjo de candura. Pobre Noga.

Pois chegando a Paris, a coisa mais marcante no topo dos degraus da Rue Galande era a cama de lua de mel, classe A, sem nada para reclamar: alta, fofa, forrada de lençóis de uma alvura profissional, bem passados e cheirosos como só em Paris se pode imaginar — é, gente, em Paris, desinfetante com cloro, água sanitária no resto do mundo civilizado, tem aquele odor perfeito que nos motiva a usá-lo até para perfumar, vocês me entendem —, como fofas eram as fronhas dos sedosos e fofos quatro travesseiros perfeitamente dispostos à cabeceira, uma perfeição de envergadura, de pular em cima com gosto.

A cama ocupava 80 % do espaço emocional do apartamento, os outros 20 sendo tomados pelo igualmente impressionante monitor de 60 e não sei quantas polegadas da Apple, tão branco, tão fofo e tão sedoso quanto sua principal competidora, conectado sutilmente ao mundo e, sem mais nenhum periférico portentoso, ao teclado elegante e silencioso — que se não fosse um awerty francês que me enlouquecia a cada vez que eu tentava teclar alguma coisa, seria um atrativo irresistível a mais para esta viciada em computadores. Fui fiel às férias. Mantive uma respeitosa distância.

Ah, Paris. Além da Notre-Dame de múltiplas cores em nossa janela a cada entardecer ou manhã — mais depois sobre isso —, foi a lua de mel que não tive depois do casamento em si (antes, sim, tivemos muitas outras, ou uma única, interminável). Aliás, Paris sem lua de mel não é um décimo da Paris que todos merecemos ao menos uma vez na vida, sabem como é, e a cama da Rue Galande se oferecia, convidava, nos obrigava a isso. Não lhe negamos fogo.

Pois de volta à Rua A com as memórias daquela delícia, uma nova cama se impunha. A nossa, nossa velha cama de Cohen que por toque e estoque já andava faz tempo pela bola oito — uma espécie de milagre de resistência e conservação, que dirá no balanço de um amor quase diário no início daquele estrado barato de pinho nacional —, e decidimos de comum acordo o presente de aniversário de Alan, já que o meu havia sido a viagem a Paris: uma cama nova dessas modernas, aconchegante e confortável, afinal de contas, chegar aos 60/68 em plena atividade amorosa exige certo conforto extra, condições ideais sem as quais a idade passa a ser o que mais conta.

Voltando à idiossincrasia dos gênios, tá na hora de confessar: meu marido Alan é um sujeito difícil, eu diria, um competidor de respeito pra qualquer ser humano temperamental masculino que se possa encontrar, uma espécie de Oscar de testosterona exemplar, se é que vocês me entendem: chato; arrogante; exigente; charmoso, fogoso e contundente. E como não poderia deixar de ser, acossado de dores prementes: dói-lhe a coluna, o joelho, e os pés estão sempre dormentes, embora o hemograma atual ateste um grau impecável de acordo com os índices laboratoriais mais recentes, nada de diabetes, nem de colesterol, uma pressão sanguínea de adolescente, nada que o condene tão cedo a uma provável redução de futuros aniversários, ufa, ainda bem.

Pois com tantas dores a atormentá-lo vinha o meu precioso marido com o hábito não muito amigável de adormecer por cima dos 3 ou 4 edredons normalmente usados para nos cobrir, uma espécie de síndrome da ervilha real pra ninguém botar defeito — para quem se lembra dos contos de Andersen da nossa infância. Nos últimos tempos, pra não discutir, eu vinha reservando um edredom bem velhinho só pra mim, que também tenho lá minhas manias encaloradas, confesso, uma delas sendo ajustar o ar-condicionado bem frio e tentar me aquecer por baixo das várias cobertas, coisa bem normal, até, pra quem um dia morou no Rio.

Negociei com Alan: compramos a cama e você nunca mais dormirá por cima das cobertas, ok? Trato feito, negócio fechado, a cama chegou pontualmente para o aniversário aprazado. Transferimos a velha para o andar de cima — que já foi meu escritório um dia, mas que por algum motivo que à mente racional me escapa, decidi abandonar, a cobertura não me era simpática, impliquei, sei lá, e me transferi para a sala de estar, escrevendo na maioria das vezes sentada à mesa de jantar, sobre uma cadeira de madeira que, ao cabo de algumas horas de pauleira, deixa os meus glúteos quase a ponto de estourar, e nessa hora me mudo para o sofá.

Gosto de sofrer, fazer o quê, mas voltando ao andar de cima: Alan transferiu para lá a cama, a mesa de trabalho com estante acoplada e mais duas ou três coisas da Tok Stok que ele em teoria sempre detestou… e, em seguida, antes que eu me inteirasse do que estava acontecendo… transferiu-se também.

No meio do nosso quarto de casal ficou isolada a nova cama oficial, alta — tão alta que foi preciso um novo criado-mudo —, fofa, com quatro travesseiros de plumas de avestruz igualmente fofos, que depois de uma ampla pesquisa e vários sleep-tests na loja de colchões… revelou-se pequena demais para as nossas necessidades especiais… as dele, principalmente, claro. Portanto, enquanto não a trocássemos por uma maior, ele dormiria… na nova suíte “de hóspedes” do andar superior. Na prática, tornou-se um hóspede em vez de um marido em 80% do meu cotidiano doído, se é que vocês me entendem: cotidiano doido, digo, pois ele não detestava a cama e tudo o mais que transferiu para o meu escritório antigo?

Pois é: passada a ressaca de Paris, me vi com uma cama dos sonhos de lua de mel, mas sem o marido dos sonhos nela, não se pode ter tudo, não é mesmo? Chorei, esperneei, me descabelei, mas de nada adiantou. A verdade é que subi na manhã do primeiro dia — da nova ordem estabelecida à minha revelia — e o vi calmamente sentado no terraço tomando sol, pacífico e relaxado, tudo parecendo tão justo e acertado que… titubeei. Vai com deus, amado. Faça o que tens que fazer para te sentires bem acomodado.

Agora estou mais calma, tranquila, medicada, é, até receita de calmante eu ganhei. Não dava mais para aguentar o tranco desta vida que insiste em me estressar além da conta, e o detalhe da cama a me incomodar é apenas, digamos assim, uns dois ou três oitavos de tudo que tenho pra resolver: ficam faltando as questões de mamãe e sua futura transferência para uma clínica — e, por falar em mamãe, o bloco carnavalesco de nossa justiça meio cínica —, mais os problemas normais de uma jornada de trabalho intensa e exigente, discussões em família que desafiam nossa impressão de sermos seres inteligentes e… pifei. Finalmente me entreguei.

E eu nem ia escrever sobre tudo isso agora, mas aí li a crônica de Martha Medeiros no Globo esta manhã, sobre as teóricas vantagens de um amor-casa-de-praia ou algo parecido, as benesses de quem só se encontra, esporadicamente, para as melhores coisas da relação entre nubentes, e me peguei duvidando se eu teria razão em protestar tão veementemente. Afinal de contas, eu talvez também relaxe tendo o meu espaço, a minha tevê, com todos os filmes que eu quiser ver e os cobertores para me aquecer… quem sabe seria essa a solução ideal para a nossa nova fase conjugal d.P.?

Cada um na sua e um encontro amoroso ou outro, ou, inesperadamente, até muito mais do que quando dormíamos um com o outro? Vai saber. Sim, porque aconteça o que acontecer, de uma coisa não poderemos escapar: nossa vida está permanentemente divida entre a.P. e d.P. — antes e depois de Paris — e na nossa idade, toda mudança, embora assuste pra valer, deve ser encarada com calma e sem medo de morrer: tudo vale para manter um amor maduro, e que insiste em crescer, contra tudo em contrário que o tente aborrecer.

Por enquanto, está decidido: trocaremos novamente de cama depois que o carnaval passar. Resta ainda a esperança de que, no final das contas, ainda possamos nos acomodar com nossos descontentamentos mutuamente crescentes, nossos corpos cada vez mais exigentes, sem que nossos abraços tenham que se perder. Felicidade não tem receita pra se obter, sempre tem um jeito de a gente se adaptar ao que se consegue com algum prazer. A vida anda, e é preciso viver, com mel ou sem, com lua ou sem, com Paris ou sem. E uns poucos degraus escada acima para o nosso ‘eterno amor’ ainda podem surpreender, é ou não é? Continuo pagando pra ver.

E um bom domingo procês.

 

 

3 comentários em “Amor de lua

Deixe você também o seu comentário