Amizade virtual

por Sandro Vidal

 

O mercado, a concorrência e a maneira de se fazer negócios estão em mutação. Muitas das regras consagradas de gestão e comunicação empresarial já não são tão eficazes no cenário competitivo deste novo século. Com a disseminação das novas tecnologias de informação e da internet, estamos passando da era da comunicação de massa, onde a abordagem era de “um para muitos”, e de certa maneira retrocedendo à comunicação individualizada, com a diferença de que agora ela é instantânea e se pode ter acesso praticamente a qualquer lugar do mundo.

Historicamente, os profissionais de comunicação detinham o controle do mercado, pois tinham acesso privilegiado à tecnologia de informação; e os consumidores apenas reagiam. Com o maior acesso à informação, ao conhecimento e à tecnologia, o poder está se deslocando (ou já se deslocou) para o consumidor, pois, com um simples clique no mouse, ele pode ter acesso a produtos, comparar preços, identificar fornecedores, avaliar a capacidade de entrega e, com base nisso tudo, fazer o seu pedido e receber o produto em casa. E se tratando de serviços, esse feedback é ainda mais rápido; principalmente se for negativo.

Da mesma maneira, nosso comportamento em sociedade mudou. Com o mesmo clique, acima citado, você faz amizades, namoros e até sexo virtual. De uma hora pra outra, você se vê como se fosse o melhor amigo de uma pessoa que nunca viu antes. E o que é mais estranho: vai saber se ela é bacana mesmo ou tem uma veia artística fantástica?

Tanto se fala em redes sociais sobre relacionamentos que se formam, outros que terminam, vantagens e desvantagens, que só no mês passado li umas cinco ou seis crônicas, todas interessantes, mas superficiais nesse aspecto. Esse assunto ainda vai gerar muita polêmica e discussões, afinal, é uma mudança comportamental radical em que estamos inseridos e que, de certa forma, independe da nossa vontade.

Recentemente, no meu Facebook, uma “amiga virtual” me mandou uma mensagem dizendo que eu estava sumido e que ela tinha ficado com saudades. Na mesma hora, retruquei: como ela poderia ter saudades de uma pessoa que nem conhece? Sem pestanejar, ela me respondeu: “E precisa? Se fosse assim, você não seria meu amigo aqui.” Outra me disse que nunca viu Deus, mas O sentia dentro do seu coração. Confesso que essas respostas me fizeram refletir ainda mais sobre todas essas mudanças de paradigma.

Aliás, fazendo um pequeno aparte, no Facebook, então, é fantástico como a hipocrisia reina. Por exemplo, e, por favor, sem nenhum machismo, a grande maioria das mulheres diz querer privacidade quando postam suas próprias fotos se expondo quase nuas: de biquíni, bunda de fora escancarada mesmo, roupas coladas, curtas e por aí vai. Se aparece um cara pra conversar (não estou me referindo nem à paquera) e ela não o conhece, já acha que é um tarado, sai escrevendo entre outras coisas que não aguenta mais esse tipo de abordagem, quando o mais fácil seria deletá-lo, sem alarde. Simples, rápido e tranquilo, não é mesmo? Por que será, então, que não fazem isso? Prefiro nem comentar, chega a ultrapassar a fronteira do ridículo e da autopromoção vulgar. Ah, e é lógico que também é importante dizer que muitos homens seguem a mesma filosofia idiota. Porém, o que mais tem me chamado atenção é, afinal, a questão crucial: o que é a amizade virtual?

Será que é preciso conhecer de verdade a pessoa pra ser amigo virtual? Aí deixaria de ser virtual, né? Lógico! E se não, por que as pessoas aceitam e depois não te consideram como tal? Meio paradoxal, afinal, depois que você aceita, de livre e espontânea vontade, por que não tratar, ao menos, como se fosse um amigo, mesmo que virtual? E isso vale pra ambos os sexos.

Há uns três anos, eu e uma amiga, também jornalista, fizemos uma matéria sobre paquera na internet. Entramos no MSN Paquera, Par Perfeito e mais alguns sites desse gênero (não me recordo os nomes agora) para vermos como funcionava toda essa engrenagem. Logicamente, sempre que conhecíamos alguém não falávamos que se tratava de uma matéria jornalística, muito menos que toda a conversa estava sendo gravada. Muito bem, ficamos um mês marcando e indo a esses encontros, sempre em locais públicos e de grande movimento, geralmente em praças de alimentação de shopping centers (por razões de segurança, é claro).

Engana-se quem pensa que só tem gente feia ou com pouca instrução e por aí vai. Tem sim, muitas pessoas malucas e isso é indiscutível. Mas, surpreendentemente, existem também aquelas bem interessantes assim como em qualquer lugar, virtual ou não. A carência é muito latente e uma pequena parte está ali querendo realmente conhecer alguém que, possivelmente, possa vir a ser o seu par quase perfeito.

O saldo dessa matéria foi que tanto os homens quanto as mulheres, em sua grande maioria, preferem os relacionamentos pontuais, ou seja, a fila anda, e rápido! O que dizem é o oposto disso, mas o fato é que, dessa turma, ninguém quer um romance de verdade. Os homens são mais incisivos quanto ao sexo logo no primeiro encontro;  as mulheres fazem tipo, mas também não ficam muito longe desse quesito. Nada contra, ao contrário, ao menos você percebe que a regra do jogo é essa e está ali quem quer, ponto final. Existem, inclusive, pessoas que se conheceram, se casaram e estão vivendo muito bem, obrigado. Eu mesmo entrevistei quatro pessoas assim e, posteriormente, para minha surpresa, vim a saber que tenho uma grande amiga de longa data (do tempo de escola) que conheceu um homem nesses sites, namoraram, casaram e estão felizes da vida. Por que não?

A questão aqui não é fazer julgamentos do que é certo ou errado, bom ou ruim. Até porque são conceitos muito relativos, ainda mais se tratando da vida pessoal de cada um. Mas a pergunta, novamente, não quer calar; talvez seja um problema de um jornalista sempre curioso, um cara que ainda prefere o bom e velho “olho no olho”: sempre pensei que amizade e confiança a gente não dá, conquista!

Enfim, o problema é, com tantos conceitos, pré-conceitos e interpretações, descobrir do que se trata, de verdade, essa tal de amizade virtual.

 

Baiano de nascimento e carioca de coração, Sandro Vidal foi criado desde os quatro anos de idade na Cidade Maravilhosa. Jornalista, empresário, professor e mestrando em Gestão Empresarial (FGV-RJ), Vidal atuou durante quase 10 anos na TV, fez e participou de vários programas no rádio, colaborou em jornais e criou congressos, feiras e eventos, sempre em prol da educação com saúde e entretenimento. Em 2007 se filiou ao Partido Verde e no ano seguinte disputou as eleições para vereador. Há 13 anos criou a Ideia Rara, empresa de comunicação e marketing que aos poucos vem conquistando seu espaço no cenário nacional. “Quem pintou my horse de green, seu primeiro livro, foi publicado em 2011 pela KBR.

 

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18 Resultados

  1. rita fontes disse:

    Olá Parceiro !!!!!! Eu adorei seu texto . O que mais percebo é que a maioria das pessoas ficam competindo , para ver quem tem o maior número de amigos virtuais , não importa quem seja , é o amigo do amigo , adicionam qualquer um , e não acho que seja esse o objetivo do face, a amizade está muito além do virtual , é algo sublime e concreto. Estou perdoada ?????? Te adoro e Feliz 2012 !!!!!!!!!

  2. Pri disse:

    Muito bom !sua sensibilidade com relação a esse tema foi espetacular espero que vc continue procurando e encontrando resposta!vlw bju grande!

  3. Márcia Bounassar disse:

    Olá Sandro, gostei muito, parabéns!!!! Bjs

  4. Chris Araripe disse:

    Oi Sandro! Desculpe pela demora. Estou na maior correria… Adorei sua crônica! Ficou muito legal! Parabéns pelo trabalho!
    Mil bjs

  5. Regina Duarte disse:

    Gostei muito! Algumas citações se contextualizam no tempo e no espaço, outras nem tanto, mas isto é devido a faixa etária, experiências pessoais e até mesmo o fator tempo. Espero ler outros artigos de sua autoria, parabéns!

  6. Nara Lima disse:

    Oi,Sandro. Acho que amizades e relacionamentos virtuais fazem parte desse mundo que estamos vivendo. É um tipo de relacionamento, dentro tantos outros. Acho difícil essa comparação que vc faz. Não podemos esquecer que até o séc. XIX muitas pessoas se conheciam e se relacionavam apenas trocando cartas. E demoravam semanas e até meses para receber uma nova mensagem. Muitos casais se conheceram e se apaixonaram pelas trocas de palavras escritas. Acho q tudo isso são produtos e realidades dos diferentes tempos. Não acho certo nem errado.

  7. Rachel Lima disse:

    Parabéns Sandro, ótima matéria!!! Bem realista e de comunicação fácil e clara.
    Bjs Rachel

  8. Eina Novis disse:

    A crônica esta muito boa, gostaria mesmo é de ler o livro.Como conseguir? A livraria ainda não respondeu meu e-mail. Bjos Eina.

  9. Iane Mazzo disse:

    Está bem interessante sua crônica! Você é meu amigo virtual, porque ja era meu “baioca” favorito… Na minha lista de amigos 96% são conhecidos e amigos no qual mantenho contato…Claro que anteriormente tive muitos amigos também virtuais, mas acabei ficando com os que realmente fizeram e fazem parte da minha vida… Esses como você ficam pra sempre… Beijos!

    • nena duppré disse:

      Querido, gostei muitodo texto, muito bem escrito.Só achei extenso por ser para internet.Talvez no papel não seja.torço muito .Essa coisa de amigo, prefiro pessoalmente, a internet me assusta um pouco…godto de ver as pessoas, falar com elas.Muito sucesso, apareça…Beijos

  10. Luciana Constantino disse:

    Oi Sandro!!! Boa tarde!!!
    Assim como você , também acredito que amizade é algo a ser conquistado e correspondido!! Melhor dizendo, compartilhado!! Amizade requer ENTREGA, CONFIANÇA , SINCERIDADE E PRESENÇA. Amigo, pelo que entendo, é aquele que tem intimidade de lhe dar um ” puxão de orelha”, de lhe convocar à dar um passo para traz, de lhe estampar seu exagero, quando ninguém mais poderia fazê -lo, que não , um amigo. É aquele alguém em quem você pode confiar, que divide com você seus maiores segredos, que suporta seu silêncio , sua ausência e sua distância, e mesmo assim, tem sempre um abraço bem gostoso para oferecer. É aquele com quem choramos de rir… E rimos depois de tanto chorar. Amigo, ESSE QUERIDO, que além de oferecer um ombro e paciente escuta nos momentos difíceis , SUPORTA e vibra com sua felicidade. Sabe porquê? Por que ele quer seu bem de verdade!!!
    Pego-me me perguntando… Tudo isso, será mesmo possível simplesmente com um clique?! Suponho que não … Sinceramente, encontro-me ainda assim… Reticente com essa tal amizade virtual. Podemos realmente chamar esse tipo e relação de amizade? Caso sim, que tipo de amizade é essa que desconhece o contato (físico) e que fica totalmente desconcertada frente a presença (real) do outro e ao saudável olho no olho? Ao meu ver, amizade é algo muito maior do que isso…
    BEIJÃO !!! Parabéns pela crônica. Nem seria necessário dizer que gostei, está escrito, mas mesmo assim digo de novo, adorei!!! Até a próxima…

  11. maria de lourdes gonçalves disse:

    Meu querido quase filho !!!
    como vc sabe,eu sou do tempo que ainda manda flores e espera abrir a porta do carro para entrar.Namoro ou amizade virtual,vc até recebe flores,mas não pode toca-las e nem sentir seu perfume…portanto meu querido eu prefiro olho no olho desde o primeiro encontro.
    bjos.parabens por sua matéria.

  12. Ticiana Lins Kirszberg disse:

    Oi Sandro! Eu curti o texto..vc levantou uma bola mega controversa e polêmica sobre a “amizade” virtual. Dava para escrever um livro….rss. bjo

  13. Muito legal, mas confesso que ainda dúvido de algumas amizades virtuais…Sou do tempo em que um toque significava muito, um olhar te dizia tudo, mas entendo que o tempo passa, a vida muda e as relações tb….
    Sucesso prá você!

  14. Patricia Cavalcanti disse:

    Sandro, não só gostei como concordo plenamente! Parabéns!

  15. Analuiza Da Rin disse:

    Beijos, meu querido, sou sua seguidora, não só no face, mas nas coisa que com amor e dedicação, você conquista.Tia Ana.

  16. Mariana Larqué disse:

    Parabéns Sandro!

    Sua alma de escritor fica muito bem apresentada em todos os seus textos e a grande pessoa que é sempre é transmitida neles também. Desta forma, não poderia ser diferente, seus textos são maravilhosos e eu adoro lê-los. Não pare nunca, continue sempre escrevendo! Meus parabéns e sucesso.
    Mariana Larqué

  17. Mariana Larqué Rangel disse:

    Parabéns Sandro!

    Sua alma de escritor fica muito bem apresentada em todos os seus textos e a grande pessoa que é, sempre é transmitida neles também. Desta forma, não poderia ser diferente, seus textos são maravilhosos e eu adoro lê-los. Não pare nunca, continue sempre escrevendo! Meus parabéns e sucesso.
    Mariana Larqué

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