Amigo

Existem dois tipos de amigos. O amigo e o simplesmente amigo.

Do amigo simplesmente amigo quase não se tem registros, pouco foi publicado. O que foi dito por esse tipo de amigo ao outro amigo ficou entre os dois. Amizade é coisa íntima, não se expõe como rabanete em banca de feira.

O exemplo clássico do amigo de fé, camarada, está na amizade entre Roberto & Erasmo. O Erasmo, fiel à letra da música, telefona no máximo três vezes ao ano para o Roberto Carlos: uma no aniversário do Rei, outra no natal e uma vez ou outra para desejar feliz ano novo.

O que atrapalha a amizade é a proximidade.

Para o amigo não existe tempo ruim. Seja sábado, domingo ou feriado. O amigo não respeita nem o dia de finados; intromete-se na vida do outro, passa a mão em sua bunda, cutuca-lhe as feridas mais profundas, abalando assim sua estrutura mental e psicológica.

O amigo está sempre conectado: ele te envia duzentas mensagens por dia, e no domingo de manhã, bem cedinho, te liga pra conferir se você leu todos aqueles anexos pesados: “Rapaz, você viu o vídeo da Luana?”

O amigo gosta muito de cerveja, e também de churrasco, principalmente se os comes & bebes lhe forem servidos na modalidade zero oitocentos. O amigo chega na casa do outro sem aviso prévio e vai entrando pela cozinha, abre a geladeira alheia e constata que só tem uma garrafa escura, geladíssima, belga, da marca Westvleteren Abt 12, uma das melhores cervejas do mundo, exemplar que você estava guardando para uma ocasião especial. Com a cerveja na mão esquerda e o abridor na direita, ele pergunta: “Ué, não tem Skol?!”

Infelizmente, o amigo não é muito exigente em matéria de cerveja.  Como não tem Skol, ele bebe qualquer uma, desde que seja gelada e de graça. “Cerveja quente”, diz o amigo estalando os beiços, só se for pra levar pra casa.

Como torcedor fanático, o amigo faz questão de acompanhar o campeonato de futebol na casa dos outros. O amigo é um folgado e não se faz de rogado. Seu lema: “Su casa, mi casa”. E tão logo você se retira pra ir buscar um tira-gosto na cozinha, o amigo grita lá da sala: “Traz mais cerveja!”

A sua ausência é a oportunidade para que ele se apodere da poltrona predileta do dono da casa, em cima da qual o amigo solta vapores fétidos, que apitariam feito traques de São João não fosse a maneira educada como ele os abafa, metendo duas almofadas debaixo do rabo. Quem sai aos ventos, perde o assento. De volta à sala de tevê, você que se acomode no chão.

O amigo faz a maior publicidade de tê-lo como amigo. No inverno ou no verão, no campo ou na praia, ele não perde a oportunidade de falar do outro, seu amigo. Bem ou mal. Ele não economiza palavras, tece longos comentários sobre a personalidade de sua vítima, utilizando a si mesmo como medida de homem perfeito. O amigo é obcecado por cultivar, cavoucar, estercar e irrigar suas amizades.

O amigo é Senhor da Razão Absoluta. Perto dele, Hegel, com sua vã filosofia idealista, não passaria de um charreteiro. O amigo está à frente do próprio tempo. Faça um teste: pense em algo. Qualquer coisa. Pensou? Daqui a uma semana, um mês ou quem sabe no próximo ano, confira a resposta que já foi pensada, esquematizada e sistematizada pelo amigo por meio de uma tese sem pé nem cabeça, que ele jogará na sua cara tão logo o tempo e as circunstâncias o favoreçam. Eu não disse?

Quando convidado para uma reunião, o amigo é sempre o último a chegar e o primeiro a sair. Mesmo assim, o amigo exige a palavra, senão ele tem um ataque apoplético, sua cara fica vermelha, ele começa a babar e é capaz de engolir a própria língua e morrer com a boca cheia de espuma, e você, na condição de melhor amigo, vai se sentir culpado pelo resto da vida. Com o microfone na mão (se não tiver microfone, o amigo berra), ele abre a garganta e solta uma bomba verborrágica, propõe uma solução polêmica e logo em seguida pede licença para deixar o recinto (com a desculpa de que precisa buscar os meninos na escola). Os demais participantes, os que ficarem até o final da exaustiva reunião, que descasquem o abacaxi que o amigo lhes deixou de presente.

Dizem que o bom companheiro não conta o dinheiro. O amigo é um excelente parceiro; nunca divide a conta do bar, de modos que ele não faz conta do suor alheio. Se a casa dele está suja, o amigo é capaz de lhe pedir a diarista emprestada (para que você pague, é claro). Se você lhe emprestar alguma grana, não ouse cobrá-lo. Isso não é atitude de amigo!

Em questão de amizade, o amigo é exigente. Fato grave, imperdoável, susceptível de penalidade máxima: se você não pensar exatamente como ele pensa, fique atento, tem algo de errado com sua cabeça. Mas não se entusiasme. Para atingir o nível de compreensão intelectual adquirida pelo amigo, a única coisa que você tem a fazer enquanto ele solta o verbo é ficar em silêncio, enquanto o amigo lhe explica nos mínimos detalhes o funcionamento do Universo.

Não vai chover, mas se você for se encontrar com o amigo, não se esqueça do guarda-chuva.

Cuidado ao conversar com o amigo. Ele tem mania de falar de pertinho. Primeiro, o amigo põe as duas mãos nos ombros de sua vítima, olho no olho, e vai te empurrando até a parede. Em seguida, ele começa a estalar a língua como uma metralhadora Gatling.

Tamanha proximidade permite ao falastrão bombardear sua presa com milhões de
mililitros de cuspe por segundo — material rico em fungos e bactérias, elementos
vitais para a colônia que o amigo está cultivando no rosto do ouvinte. Depois de alguns anos de frequência dialógica, você, vítima de amizade pegajosa, examine atentamente sua face diante do espelho: veja como a pele de seu rosto está salpicada de manchas esverdeadas, pequeninas, incuráveis. Logo, logo, seu nariz vai começar a inchar. A boa notícia é que o amigo, ao lhe transmitir terrível doença, permanecerá vivo em sua memória, mesmo  dez anos depois (se você viver até lá) de ele ter partido deste mundo para o raio que o parta.

São três horas da madrugada. Não faz duas horas que você chegou de uma viagem internacional, depois de trinta horas distribuídas entre o avião, longa espera em aeroportos e escalas e mais quatro horas de ônibus até chegar em casa. Você cai na cama e apaga. O telefone toca insistentemente, três, quatro, vinte vezes. Até que você acorda. Quem será? É o amigo. Só pode ser algo urgente, você pensa.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — você pergunta, assustado.

— Não. Eu só liguei pra saber: como vai você?

PS: sairei de cena por duas semanas; eu e mais dois amigos vamos excursionar pela Chapada Diamantina.

 

2 comentários em “Amigo

  • 16/09/2011 em 00:40
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    É vaya con Dios, animal.

    ailton vale (o próprio)

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  • 16/09/2011 em 00:21
    Permalink

    PQP
    (um bairro de Monlevade)

    Vaia con Dios

    ailton vale

    Resposta

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