Amar é… (enésima versão)

Via O Globo.
Via O Globo.

“Tudo seria diferente se André estivesse ali. Provavelmente, não teria se levantado para puxar as cortinas. Ele a impediria. Pelo menos a impediria de sair na escuridão”, leio em minha mesa de edição o trecho final do novo livro de contos de Rôsi Moura, a.k.a. Rosimêre Fonseca de Moura, Além das cortinas (KBR, março 2013), tudo a ver com a notícia mais marcante desta semana que finda, ui, não estraga, na qual uma boa fatia do mundo de fato se esboroou .

O caso é que nenhum personagem de ficção nos move o desejo e a admiração, a não ser que nos toque o coração, e a passagem da Rôsi me tocou na hora. Explico.

Poucos minutos antes de ler eu estava no alto de uma instável escada caseira de alumínio trocando uma lâmpada queimada, deixem-me esclarecer, meus queridos, que na vida real, na lida cotidiana em sua faceta mais racional, não dependo de ninguém. Vivo muito bem sozinha, e esta minha independência humilhante já provocou as mais indignadas reações, como a daquele sujeito que namorei em Brasília por conta de seu nome de poeta — Garcia Lorca, juro que é verdade, vindo da Espanha como o incensado herói cultural da modernidade, mas param por aí quaisquer relevantes comparações — e que quase me matou de ódio porque instalei sozinha e em sua ausência masculina a nova máquina de lavar, “Você não precisa de mim pra nada, me sinto um zero à esquerda”, ah, nada bom, vai ver porque em certo sentido devia ser mesmo, é ou não é? Ficou a insolência e foi-se o ardor.

Mas mudou a independência ou mudei eu? Tudo seria diferente se Alan estivesse aqui. Provavelmente, não teria me arriscado a trocar a lâmpada sozinha. Ele me impediria. Pelo menos me impediria de subir na escada sem que ele a segurasse embaixo.

Voltando à escada de alumínio, que me enrolo mas não perco o domínio: a escada oscilou como sempre oscila, mais um extra por estar apoiada sobre a franja dobrada sem ninguém em casa para garantir que eu não me estabacasse no tapete solto do quarto. E com uma mão na parede enquanto a outra desatarraxava o bulbo queimado e agarrado, pensei, imagine se caio aqui sozinha e não tem ninguém pra me socorrer, coisas da velhice, sei lá, deve ser, porque antigamente eu nem pensava que isso pudesse acontecer.

Ou coisas da paixão, do amor, pode ser, que segundo me lembro, foi bem definido por alguém como “ter alguém testemunhando a nossa vida” ou algo assim, bem, não o ato de amar exatamente, mas a passiva ventura de “ser amada”, sobre a qual sempre e em qualquer circunstância pairam todas as dúvidas imaginadas — pelo menos por mim, que sou neurótica e carente desde que me dou por gente —, até ver o que acontece quando caio da escada, ou fico doente, cai a obturação do dente ou imprevisto pior.

O que quero dizer, sem rodeio nenhum, melhor dizendo, sem eufemismo algum que me redima, é que embora às vezes eu acredite que o Alan na minha vida não conta nada, a não ser a chata obrigação de falar inglês em casa e me comportar de maneira adequada, mesmo quando me sinto incomodada, isso claramente nada tem a ver com a realidade observada.

O fato é que não é vício nem nada, quero crer, mas quando as dores da convivência resultam relevadas por ausência ou falta mais prolongadas, o quadro irritante todo se reverte. E a gente se sente afortunada só por ter aquele amor ali fazendo nada, talvez trocando pra gente a nova tampa da privada, principalmente quando por trás desse nada há um mundo inteiro de ações não expressadas, mas profundamente sentidas — a tal da energia compartilhada que pode soar às vezes como lorota  piegas, babaquice, ilusão — coisas que só a mente sente, não o coração que, cá entre nós, apenas bombeia a vida para que a mente prossiga em sua função, sabem como é (me contradigo que é assim que eu gosto).

A coisa se torna ainda mais agravada em duas circunstâncias inusitadas: uma, quando a internet do outro à qual estamos tão habituados dá sinal de estar sempre desconectada, contra a nossa expectativa e vontade, por um tempo mais longo do que a gente desejaria; a outra, quando ocorre uma ameaça real de que o reencontro não se realize por fatos alheios à nossa atividade, como um fim de mundo inesperado, por exemplo.

O que me leva à apavorante prova recente de que nossos medos mais frequentes talvez não sejam assim tão injustificados, haja vista a tragédia súbita do meteoro que atingiu esta semana uma cidade da Rússia — nada a ver com a tão propagada ameaça eco-ilógica constituída por nós, humanos vis, mas com uma espécie cósmica de Lei de Murphy segundo a qual, se tiver que dar merda, dará mesmo, não importa o que se faça para tentar impedir, vocês se deram conta do que estava por vir? Ui. Me arrepiei. Quem diria que num desses prosaicos dias teríamos um mini fim de mundo de verdade para testemunhar, dá-lhe, Jeová, um a zero pra você.

E pra vocês, meus amigos, desejo um excelente domingo. Para o Alan, na outra ponta do fio, que o nosso amor possa recrudescer antes de o próximo meteoro descer, cada um de um lado diverso daquilo que chama “lar”. Mais dez dias, e ele já deve voltar. Estou contando, sim. Agora mais que nunca dá pra entender.

 

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