Alma de mula

O novo tempo trouxe a distância zero para muitas pessoas, mas a vida ainda conserva a distância de muita gente. Por este mundaréu, existem vivendas muito afastadas, pontinhos do mapa. Foi num sertão desses que uma mulher ingênua acreditou no desconhecido. E provocou a verdade do velho roceiro que me contou esta história.

Sinhãna morava numa casinha no pé do Morro da Garça. Plantava. Não tinha filho. O marido já tinha ido. Uma doença lhe estufara a barriga. Depois de assar solidão, Sinhãna arrumou um companheiro, se amigou com o Carmin, da roça do compadre Domiro.

Manhã afora, Sinhãna reparou num homem estranho sentado debaixo da pitangueira. “Meu Deus do céu”, ele suspirou. A mulher só ouviu “céu”. Ressabiada, se preservou na janela e subiu a voz: “O senhor aceita uma água?”

O homem aceitou. Ela lhe esticou a bilha. O andarilho bebeu com a entrega de um capuchinho. Sinhãna viu bondade cansada nos olhos do moço. “O senhor aceita um prato de comida?” Angu com feijão.

A satisfação pesava dentro do homem quando Sinhãna ousou: “Eu ouvi o senhor falando quando chegou… O senhor é do outro lado, do outro mundo?”, disse, apontando para o céu. “Sou”, ele devolveu. A mulher coçou o queixo. “Então o senhor deve conhecer o Juliano, meu marido que morreu. Sabe? Um sardentinho…” O homem admitiu: “Conheço. Ele fica lá com a gente, as almas. Seu marido é gente boa”.

Sinhãna foi logo emendando: “Então o senhor podia me fazer um favor. Tem um tanto de coisa dele aqui ainda. Dá pro senhor levar e entregar pro Juliano? Eu sei que é muito abuso da minha parte.” O forasteiro respondeu: “Posso levar, sim. Tem nada não”.

Sinhãna bateu carreira dentro de casa e retornou com uma sacola gorda. O estranho jogou-a nas costas, agradeceu pelo prato e pegou a estradinha que dava para o mundo. Foi então que ele ouviu um chamado que o assustou: “Moço, peraí!” Virou-se devagar. “É que tem um dinheiro do Juliano aqui também. Espera só um cadinho que o senhor leva pra ele!” A mulher entregou um maço rocambolesco de notas. “Deus lhe pague o senhor”. Amém.

Enquanto o desconhecido ainda era visto pequeninho, lá perto da capoeira, chegou para o almoço o companheiro de Sinhãna. Ela veio com felicidade afoita e braço esticado: “Tá vendo aquele homem na ponta da estrada? Ele é do outro mundo! Almoçou aqui e eu entreguei as coisa daquele raio do Juliano tudo pra ele. Até o dinheiro foi junto!” Carmin ouviu e passou os calos na testa. Disse nada. Montou a mula e saiu crepitando.

O desconhecido ouviu o galope comendo a distância. Bandeou para o lado de uma grota cercada de mato alto e mocou-se atrás de um cupinzeiro. Carmin percebeu a ligeireza do homem, freou a mula na beira da estrada e desceu, um chucho na mão — pontiagudo espetante pra todo expediente. Carmin sabia que o homem havia se enchouriçado na grota, mas não sabia exatamente em qual mocó.  “Devolve tudo aqui agora, trairagem! Olha que cê vai relinchar que nem porco!”

Carmin chegava de um lado. O homem contornava pelo outro. Enquanto o companheiro de Sinhãna chuchava as moitas, o desconhecido montou a mula, sentou as botinas na bicha e moeu poeira, coriscamente.

Sinhãna viu seu companheiro, que voltava com o chapéu numa mão e o chucho na outra, Carmin e sua cara desinchavida. “Homem de Deus, que aconteceu? Cadê a mula?” Com a voz para dentro, respondeu Carmin: “Mandei pro Juliano”.

(Minha tosca homenagem a Guimarães Rosa e a todos os vaqueiros da Serra do Cabral, centro de Minas.)

 

 

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