Algumas palavras aquecem o coração

karieninaNo outro dia, uma amiga me enviou através do Facebook uma questão: dos livros de Charles Dickens, qual deles eu havia gostado mais?

Em seguida vinha uma lista de algumas de suas obras. Eu, morto de vergonha, lhe respondi que não lera nenhuma.

Acreditava que talvez a história de David Copperfield pudesse ter sido objeto de minhas leituras, mas a falta de lembrança de qualquer trecho do livro não me convenceu disso. Triste, percebi mais uma falha no meu currículo, e minha cobrança obsessiva se aproximou de mim. Em seguida, aceitei a minha própria critica com resignação.

Diminuí a cobrança sobre a minha cultura e anotei a necessidade de descobrir o célebre autor inglês. Na verdade, percebi humildemente a distância de tantos amigos que já leram todos os “clássicos”, ou, pelo menos, a maioria deles. Mas fiquei feliz ao perceber que ainda posso ir ao seu encontro.

Lembrei-me de alguns que já tivera o privilégio de ler: Cervantes, Zola, Machado de Assis, Clarice Lispector, Freud, Tolstói, Kafka e tantos outros. Homens e mulheres que me enriqueceram a vida, com suas palavras e pensamentos.

Recordo-me de que li muita história em quadrinhos (na verdade leio até hoje).

Agradeci, silenciosamente, a presença de Monteiro Lobato em minha infância, de José Lins do Rego na adolescência, de Jorge Amado na juventude, dos livros na minha vida.

Mas me confesso! Declaro-me apaixonado por uma mulher! Ela invade minha vida, quando chego do trabalho ou da faculdade à noite. Ela me toma, e me deixo levar por seu sorriso, pelo tom de sua pele, pela coragem de vivenciar o amor.

Assusta-me a força deste sentimento, que ela desvela, sem temor do julgamento da sociedade. Sei que seu amor não é, e nem será compreendido. Que na verdade ninguém a julgará, ela simplesmente será condenada.

Sim, ela é casada, e o amor que mostra não tem barreiras ou vergonha. É um sentimento bruto, enlouquecido que não mede as consequências mas me aquece a noite.

Sua voz me chega aos ouvidos límpidas e claras: “Eu te amo!”

Me entristeço, pois suas palavras não são dirigidas a mim. Nessa hora, fecho lentamente o livro de Liev Tolstói, na fantástica tradução de Rubens Figueiredo (direto do russo) .

Sim Anna, falo de ti: ”Madame Kariênina”!

Leio o maravilhoso relato da história dessa mulher e viajo no tempo. Estou na Rússia no final do sec. XIX, um país que muda rapidamente de um sistema puramente agrário, para um mundo moderno e cosmopolita. Onde o amor e os costumes eram rígidos e implacáveis, mas o desejo já existia e por vezes surgia, maldito ou fora de lugar, desencadeando dor e insegurança naquilo que antes era perfeito.

Uma história tão antiga pode ter ainda valor? Com certeza!

Ela permanece viva, pois a mão que a trouxe ao mundo nos enleva e nos mostra a fragilidade, a força, o sofrimento e a alegria. O homem se vê diante da vida e do inesperado. Diante da morte e do indecifrável. Liev Tolstói nos fala do humano, do desamparo e do amor.

Sei o quanto distante estou do mestre russo na arte do escrever, mas ao mesmo tempo me sinto próximo a ele. Sinto o calor de sua palavras, o frio das paisagens que descreve, e me deixo levar pelo desejo irresistível de escrever.

Algumas palavras chegaram até aqui, e se você as acompanhou, estou feliz por sua companhia.

 

 

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