Algo em comum

Ele caminhava lentamente. Trazia às mãos o cabresto com que puxava seu burro.

Fazia tempo que ele subia a encosta íngreme. Só ele, o animal e a mata rasteira do interior das Gerais. Sentia fome; o pouco que lhe restava no alforje não era o suficiente para uma jornada, e ele já racionava o escasso conteúdo há vários dias.

Apesar de ser homem experiente, a natureza não lhe dava guarida. Água também era riqueza: o último riacho que avistara estava seco, e o pouco do líquido precioso que conseguira foi à custa de muita escavação sob um sol escaldante, no leito de um ribeiro que secara há muito. Caminhava indolente ao lado do animal, que sofria do mesmo mal. O medo de não rever Rita e os meninos lhe apertou o coração. Lembrava-se ainda da partida, dos seus olhos tristes, mas serenos. No braço, carregava nosso menino menor.

— Vai com Deus!

E ele foi. Sozinho, levando as encomendas pedidas junto ao balcão no arraial de Santa Doroteia. Contrato feito, não tinha como recuar. O caminho para o interior da Bahia era longo, mas sua profissão era essa: tropeiro. Apertou o passo e não olhou para trás.

Lá tudo deu certo: chegou ao Recôncavo Baiano, deixou as mercadorias, vendeu a maioria dos animais e voltou com o ouro e a saudade. Só não contava com o calor, a seca e a insolação. Adoeceu em cima do lombo do burro. Não caiu da sela, pois seria sua perdição, mas o muar solto e em solidão caminhou para onde quis, sem reflexão. Já o montador só se lembrava do calor e de se segurar do jeito que podia, esperando a noite chegar para aliviar seu padecer.

Parou numa clareira (na verdade quem parou foi o burro, cansado de andar sem destinono sertão). Encostou no pequizeiro e ali ficou. Nem viu seu corpo cair, só sentiu a pancada no chão e depois nada mais. A sorte é que Jeremias, o burro, estava sem vontade de andar, e o cabresto amarrado na mão foi a única coisa que o homem se lembrou de amarrar. Quando acordou, já era noite, a cabeça doía. A sede era maior ainda. Do seu lado, o animal esperava contente, sem vontade de andar. Um medo destes que vem de repente apertou-lhe o peito.

— Me acode, minha Nossa Senhora!

O pedido veio junto com o pavor. Aquela região era de lobo, de cascavel e outros bichos peçonhentos. Se um deles o encontrasse naquele sofrimento, a chance de salvação era pequena. Levantou-se como podia, afastou os pensamentos ruins, engoliu o resto de saliva misturada ao pó e partiu. Melhor morrer andando que ficar por ali, esperando que a que não tem hora chegasse sem aviso.

Olhou em frente procurando algum sinal conhecido, abrindo seu caminho com o facão e a determinação de voltar para casa, de encontrar a Rita e os meninos. Esse desejo era maior que a dor, a sede, a fome e o desespero. O burro ia atrás, sentindo sofrimento parecido, só não tinha o peso da consciência.

Então ele viu a beirada de uma pedra grande; sabia agora que não estava longe de casa pois em menino aprendeu a se guiar pelas estrelas. E olhando no brilho delas marcou a direção do sul. Era verdade, a pedra conhecida estava ali. Viu a trilha que tinha percorrido há semanas, ouviu o barulho da cachoeira no fundo. Era água, era a vida, era o amor de Rita que o tinha levado até ali. Agradeceu a Deus e à padroeira.

Todo homem, pensou ele, é diferente, mas todos se assemelham na vontade de viver e de estar junto aos seus. Apertou o passo do animal em direção a salvação e depois de muito tempo
 sem saber o que era felicidade, se viu assim e sorriu.

 

5 comentários em “Algo em comum

  • 05/10/2011 em 17:16
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    Com esta riqueza de detalhes, nos permite visualizar a cena. Parabéns pela criatividade.

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  • 16/09/2011 em 18:32
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    Gostei muito dessa, Gu!! Parabéns!

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  • 15/09/2011 em 16:00
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    Amei essa frase… é mais pura verdade…

    “Todo homem, pensou ele, é diferente, mas todos se assemelham na vontade de viver e de estar junto aos seus”.

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    • 15/09/2011 em 17:19
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      Obrigado ,leitora e amiga!
      É bom ter amigos,melhor ainda é estar junto a eles.

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