Agruras de um(a) editor(a)

Para Fernando

 

Agora que me livrei finalmente, parece, da síndrome de Lula que me acometeu nos últimos quatro meses de labuta — pronto, antes de terminar a primeira frase já estou garroteada por um travessão, minha síndrome de Lula se desenvolveu paralela à luta de Lula contra o câncer na garganta, e minha garganta por solidariedade apolítica se fechou, só começou meio que a relaxar agora, ontem, e à custa de doses diárias de um benzodiazepínico qualquer desses aí que o cardiologista me receitou, me relevou, digo, me deu relevância, apiedou-se de mim. Ok. Desisti do travessão. A história é muito comprida.

Ando querendo começar uma aventura narrativa com o título sugestivo de “Diário de Paris”, mas, bem, vocês sabem, tem sempre alguma coisa me impedindo, e já que estou tocando no assunto, a própria síndrome com letra minúscula me impediu que eu curtisse Paris como Paris merecia, isso eu não tinha contado ainda, já que eu, obviamente, estava tendo tudo o que conseguia merecer: um garrote na garganta, não importa onde estivesse nem que beleza pudesse me envolver. Imaginem.

Tenho lá meus perrengues cotidianos a me aporrinhar, marido exigente, mãe doente, questões na justiça (nada a ver com crime de lesa-qualquer-coisa, por favor, não, mas com os recursos financeiros de mamãe que acabaram presos após a venda de seu apartamento para seu próprio tratamento, num enredo kafkiano de encastelar chinelo e que se arrasta há quase quatro anos, ufa, tô no meu limite, francamente), mas por volta de outubro do ano passado todos os nós se enredaram numa colcha retalhada de fazer gosto: um passo para a editora bem maior do que todas as pernas desta aranha que aqui vos escreve. E eu não hesitei.

Dei, digo, me preparei para dar, anunciei e garanti que a minha vidinha modesta iria mudar, e logo percebi que antes disso a barra poderia me atravessar; mas sou tinhosa, fui indo, insistindo, contra tudo que a musa antígena conta.

No começo era só sonho, um tipo assim de bilhete premiado mas que para que o prêmio fosse retirado, argh, eu teria que ralar, ralar, ralar. Oba. Ralar é comigo mesma. Já me via com delírios de grandeza — isso, sem reconsiderar que toda grandeza é mesmo delírio, é ou não é? — e recursos financeiros (ops, repeti: é meu emblema, se é que vocês me entendem) de outra ordem de grandeza. Bem.

A certa altura, os botões ajustados, configurou-se a necessidade de um contrato literário elaborado por advogado, que obviamente eu não tinha como pagar. Propus um acordo camarada, baseado em percentuais como é todo o negócio de livros baseado e fui em frente. O preço pedido pelo simpático associado era tão alto quanto sua disponibilidade de colaborar, uma única moeda legal a nos aliar: a paixão pela literatura, naquele caso específico, por certo admirado praticante de literatura que estava por trás do polpudo negócio que eu desejava administrar. Enquanto isso, a garganta continuava a apertar.

Já tinham se passado dois meses de conversa e a viagem a Paris começava a se configurar, com garganta agarrada ou sem. O negócio ameaçava ratear por exigências impossíveis de se contentar, e eu — que, com a licença da classe, detesto advogados (menos o meu, claro) — estava de repente envolvida ao mesmo tempo com três: esse do acordo, o que trata do dinheiro de mamãe e um outro aí internacional tratando de um assunto que não posso revelar. Era muita garganta tentando me garrotear. Sucumbi.

Bem. Vocês notaram.  Estamos diante de dois ou três casos simultâneos e complicados que eu quero contar mas não posso, não devo, pois é tudo enovelado por segredo de justiça na vara de órfãos e sucessões onde o meu próprio processo tramita.

O internacional meio que deu uma amornada, os breves litígios amainados e eu pronta, de minha parte, a assinar, assim que o advogado da outra parte se apresentar. Deixei pra lá, embora também houvesse uma razoável quantia em dinheiro a ser paga que, como vocês podem imaginar, não rolou liberada ainda.

O de mamãe pela mesma via está a ponto de finalmente murchar, pois não há litigância que resista quando o montante litigado se acabar, o que deve acontecer antes de o outono chegar: terei recebido a duras canetadas arbitradas de juiz cada contado e disputado tostão equivalente a meio apartamento no Leblon, e daí pra frente terei que me virar como puder.

Mas o último deles, ah, meus amigos, ao qual não posso dar nome nem código nem apelido sequer nesta selva de celebridades que é o comércio das vaidades, prolongou-se por Paris e ainda infestou da mesma forma o pós-Paris e aqui estamos hoje, quando tive que reconhecer para meu advogado que eu fora, digamos assim, meio enrolada, algo ocorria bem além da minha laçada que eu não conseguia entender, que dirá decifrar, não sei se mentira, se ilusão, se desejo frustrado. Só o que sei é que para meu embaraço desalentado meu pobre advogado havia trabalhado e não veria tão cedo o seu percentual acordado. Nem eu.

Ainda estava nos palpos da esperança tardia quando soube — eu, que desde que me mudei para o mato, vivo ao mesmo tempo antenada 24 horas por dia e alienada do mundo do dia-a-dia, numa esquizoidia de dar dó — que certo escândalo litigado havia extrapolado de seu restrito mundinho familiar por todos os meios e mídias, me deixando de fora graças a… bem… às benesses do acaso… e aos bons conselhos do meu advogado.

A gente se acostuma a agradecer ou reclamar por tudo que deseja e não chega a conseguir, mas benditas as arapucas nas quais algo além do controle de nossas cucas — seja uma implicância de marido, um atraso de advogado, uma situação de família que simplesmente nos obriga a desligar por uns dias do cotidiano ocupado — nos impede de cair.

Cá estou. Não tão sã, mas a salvo. Nada como um dia que há de vir depois de outros tantos suportados, com seus variados tormentos agoniados.

E um bom domingo procês.  Pra semana que vem, prometo Paris. Ou Farra. Ou ambos.

 

 

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