Advogados acima de qualquer suspeita

Logo que comecei a escrever sobre o gênero policial, mencionei que o primeiro detetive surgiu quando as grandes cidades começavam a se formar. O mundo, que passava por uma grande mudança, a revolução industrial, de lá para cá se tornou muito mais complexo. Não vou enumerar estas complexidades, pois uma crônica não seria suficiente.

No mundo moderno interagimos mais. No entanto, a natureza humana, sendo o que é, faz com que a interação gere disputas. Em gerações passadas, nossas diferenças eram geralmente dirimidas por instituições como igrejas, famílias, grupos comunitários. A maior parte da roupa suja era lavada em casa. Passado o sufoco após a Segunda Guerra, as pessoas passaram a apelar para os advogados. A resposta universal, aparentemente automática para qualquer erro ou prejuízo, é: “Vamos processar!”

As salas dos tribunais, nos últimos cinquenta anos, também se tornaram um caldeirão onde os valores nacionais são moldados. As cortes de justiça passaram a ser mobilizadas para arbitrar contendas de significação moral e até mesmo religiosa – direito de aborto, assédio sexual, discriminação baseada em preferência de raça, gênero sexual etc. As gerações que nos antecederam teriam certamente ponderado que estas questões eram inadequadas para o procedimento judicial; hoje, os tribunais têm a última palavra, e a roupa suja é lavada em público.

Na medida em que a influência de outras instituições sociais definhou, os tribunais preencheram a lacuna. Não é de admirar que as pessoas se mostrem curiosas sobre os mecanismos internos do judiciário. A partir desta modificação no sistema e na vida cotidiana das pessoas, nos Estados Unidos surgiram diversos livros em que o detetive é o advogado.

A fórmula “crime, investigação e solução” continua exatamente como nas histórias anteriores. A diferença é que a investigação em geral acontece nos tribunais. Quando o detetive aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida. Esta ordem estabelecida acontece no sentido legal, na medida em que os personagens se esforçam para compreender não apenas o que é certo e o que é errado, mas o sentido da justiça (um conceito mais difícil e ilusório) num mundo aparentemente mais injusto.

Foi neste mundo que surgiu Rusty Sabich, personagem de Scott Turow, no livro Acima de Qualquer Suspeita. Sabich, um promotor, descobre que sua colega Carolyn Polhemus foi assassinada de maneira brutal, e é obrigado por seu chefe Raymond a lidar com as investigações. Raymond quer se reeleger para o cargo que ocupa e concorre com Tommy Molto, que está de olho em Rusty e suas atividades.

É Tommy quem garante que Rusty estava no apartamento da morta no dia de seu assassinato e que deixou suas impressões digitais num copo. Rusty é preso e desprezado pelo chefe, que lhe nega apoio. Entra em cena um advogado que vai provar sua inocência com a ajuda do detetive Lipranzer, colega de trabalho de Rusty, e de Barbara, sua esposa.

Não posso afirmar que este tenha sido o primeiro detetive advogado. Mas foi o primeiro que eu li, e amei. E pasmem, a trama é a de Édipo! O personagem principal vai em busca de si mesmo… (Putz! contei o final da história!)

Édipo ouviu de Creonte que o antigo rei estava num comboio e tinha sido morto por salteadores; e anuncia que fará o possível e o impossível para capturar o assassino. Para ajudar na investigação, chama Tirésias, um velho cego que fica sabendo das coisas através do canto e do voo dos pássaros.

Este, porém, não quer falar sobre o acontecido, já que tal revelação poderia trazer mais infelicidade, principalmente para o rei. Após muitas ameaças deste, Tirésias diz que o assassino é o próprio rei. Édipo continua a investigação e acontece toda a tragédia para ninguém botar defeito!

“Acima de Qualquer Suspeita”, tornou-se filme em 1990, com direção de Alan J. Pakula, com ninguém menos que Harrison Ford no papel principal.

Além de Turow, John Grisham tem vários títulos nas nossas listas de mais vendidos, e teve todos os seus livros filmados. Seu primeiro livro foi Tempo de Matar, passado em um tribunal. O filme conta a história de Carl Lee, um pai que teve sua filha estuprada aos dez anos de idade por dois homens brancos, bêbados e racistas na cidade de Canton, no Mississippi.

Lee dispara tiros com uma metralhadora na entrada do julgamento (ainda não existiam detectores de metal), matando dessa forma os dois agressores. De quebra, deixa deficiente um policial que os acompanhava e se pusera na linha de tiro. Não vou contar o final!!

William Bernhardt criou o detetive Ben Kincaid. Seu primeiro livro, Justiça Cega, teve a mesma trajetória de sucesso.

Como vemos, a fórmula vai mudando, vai sendo adaptada ao momento histórico do planeta e consegue assim pegar o leitor. Até a próxima!

 

 

4 comentários em “Advogados acima de qualquer suspeita

  • 30/09/2011 em 11:05
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    Olá Magno,
    Sucesso desde a sua publicação, em 1960, O Sol é para Todos ( em Portugal se chama POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA), de Harper Lee, se mantém como um dos romances mais badalados em todo o mundo. Foi eleito pelo americano Librarian Journal o melhor romance do século XX. Além disso, uma recente pesquisa com bibliotecários ingleses colocou a obra no primeiro lugar da lista dos livros mais importantes de todos os tempos – na frente, inclusive, da Bíblia e da trilogia O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien.
    A versão filmada com Gregory Peck no papel principal é um clássico! Realmente não tem muito a ver com os detetives/advogados da atualidade!
    Falar sobre O Sol é Para Todos acho que daria mais do que uma crônica.
    Obrigada pelo comentário.
    beijo grande

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  • 30/09/2011 em 10:40
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    Bom Dia Heitor,
    Quando falo das histórias policiais em que o detetive é advogado, é para mostrar como os americanos aproveitaram a fórmula criada por Poe e imortalizada por Conam Doyle para escrever histórias que rendem muito dinheiro. Elas valem como ficção, nada a ver com a vida real. Como você falou, as histórias e filmes dos advogados milagreiros, se muito bem filmados e com atores de peso, ainda redem alguma coisa. Os livros já são repetitivos e cansativos. Obrigada pelo co,emtário. Até a próxima.
    beijo grande

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  • 29/09/2011 em 00:26
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    Vera,

    Quando penso em filmes desse estilo, baseados em grandes livros, sempre me recordo do ganhador do Pulitzer “To Kill a Mockingbird”, de Harper Lee. Existem duas versões filmadas, mas eu prefiro a versão clássica “O Sol é para Todos”, com Gregory Peck. Filme que lhe rendeu o Oscar.

    Abraços!

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  • 27/09/2011 em 22:42
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    Vera, antes de mais nada, desculpe-me pelo portugues sem a acentuacao obrigatoria. Nao me encontro no Brasil, e por isso estou escrevendo em computador desprovido de teclado proprio para a perfeita grafia em nosso idioma. Bem, mas esses tribunais de que fala voce sao o mais perfeito canto da sereia para quem, no Brasil, ambiciona brilhar como advogado criminalista. Tratam-se, esses filmes, de fantasiosas ilusoes em torno de um sistema penal imperfeito, anacronico, e – como vimos recentemente face ah execucao de Troy Davis no estado da Georgia, EUA – uma arma estatal a servico da discriminacao racial.. No Brasil a investigacao criminal comeca obrigatoriamente na esfera policial, com a reuniao de provas, oitiva de testeminhas, realizacao de pericia, e outros meios de prova. Nao eh um sistema perfeito, evidentemente, posto que vulneravel a manobras de advogados inescrupulosos, policiais corruptos, e tortura de presos, mas de qualquer forma eh o que vige no Brasil. Para os norte-americanos, esses filmes dos advogados milagreiros ainda rendem alguma coisa, mas como divertimento exportavel sao como estoria da carochinha.

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