A vida começa aos…?

Complicado esse negócio de definir o início da vida. Uns acham que é na hora do parto, outros já dizem que é no ato da concepção, há ainda os que vivem se pegando, pois são pró ou contra o aborto: então fica mais confuso ainda, já que para os pró um aglomerado de células, tá certo que com certo objetivo, não significa vida.

Há muito tempo atrás tive a felicidade de fazer um parto, pois era a única pessoa que estava lá no momento. O fato foi de uma grandiosidade tal que ficou como um marco em minha vida, pois me levou a escrever o livro Nuvem de Pó. Ver ali diante de si uma pessoa se desdobrar, surgir um ser humano novinho em folha com uma vida inteirinha para viver, é espetacular.

Estou me perdendo um pouco, mas calma, já vou chegar ao ponto. Tem um grupo que afirma que a vida começa aos quarenta, com certeza aqueles que até a meia idade ainda não conseguiram se encontrar e vivem na esperança de que uma data no calendário vai resolver seus problemas, ou vai trazer tudo aquilo com que sonharam e não tiveram a felicidade ou competência de conseguir.

Tive um tropeção aos trinta, no dia do níver: eu olhava para o espelho e me perguntava quem era aquela senhora que me olhava de volta. Pensei: pronto, fiquei velha, minha vida acabou. Tolinha, era uma criança insensata.

Por outro lado, tendo vivido exatamente como queria, dei um jeito de arranjar logo de cara um príncipe encantado, vivi feliz para sempre e tive muitos filhos, mas não sei quando tudo isso começou, talvez seja a continuação de um espírito antigo que ainda precisa crescer e vai ter que voltar algumas vezes até aprender.

Acho que a gente vive algumas vidas: a despreocupada das crianças, a intensa dos adolescentes, a responsável da vida adulta, mas devo dizer que estou adorando esta outra vida que é a de sexigenária. Explico: agora que não tenho grandes responsabilidades pendendo sobre minha cabeça, dei de inventar coisas para fazer. Estou aprendendo a falar francês, pois já me disseram que estudar uma nova língua afasta de vez aquele alemão que deixa a velharada louca: o Dr. Alzheimer. Bem, isso não é tão radical nem tão cansativo, mas as outras coisas a que me propus… Veja: com cinquenta e seis anos me matei de tanto treinar e fui vice-campeã paulista de segunda classe de tênis, passando para a primeira. Impliquei de correr uma meia maratona e o fiz pela primeira vez aos cinquenta e sete. Também quase me matei, pois tive que curtir uma mononucleose por um ano. Fiz que fiz, até escrever e publicar meu primeiro livro, o que foi extremamente prazeroso. Agora, aos sessenta, resolvi que ele tinha que ser e-book, pois quero ser moderninha. E consegui também. O POD eu nem sabia que existia, mas fui atrás, pois entre outras coisas é muito mais ecologicamente correto do que o livro de papel original. Isso também é moderno.

Agora, quero porque quero que o livro seja bem-sucedido. Me aguardem, estou trabalhando nisso.

O coroamento de tudo, e nisso eu não tive nenhuma participação, veio com a chegada de mais uma vida a este mundo, o meu netinho. Estou vendo em câmera lenta ele aprender tudinho, suas dificuldadezinhas nas coisas mais banais. Tenho todo o tempo do mundo. Nada para atrapalhar.

Sei que muitas coisas novas me aguardam. Não vejo a hora de chegar ao setenta.

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9 comentários em “A vida começa aos…?

  • 08/08/2011 em 18:40
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    Que maravilha, Priscila! Gostei demais, querida! E você é lindona!!! Beijos

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  • 06/08/2011 em 13:20
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    Pri,

    Gostei bastante do texto.

    Eu a conheço desde os 12 anos de idade, quando nos divertíamos no nosso voleibol, esquiando na represa (eu tentava), dançando quadrilha, sua paciência pra jogar tênis comigo…etc..
    Nunca tive dúvidas de sua determinação em buscar seus objetivos.

    Parabéns amiga!!

    bjs,

    Lucia

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  • 05/08/2011 em 11:50
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    Querida Priscila,

    Que texto lindo! Parabens pelas suas lutas e conquistas. Voce é um exemplo para mim. Tenho orgulho em ser sua amiga.

    Bj

    Berenice

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  • 05/08/2011 em 11:47
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    Pri..cada manhã é um começo! Voce tem razao nisso, pois tambem me sinto assim. Nunca olho para trás, nem lamento o que passou. Dizer “bons tempos aqueles”é coisa de derrotistas. Nao é fácil, pois os anos trazem essa sabedoria, mas tambem trazem limitaçoes impostas ! Nao de mente…mas de corpo. Quero fazer mais coisas do que meu joelho problemático aguenta! Quero correr mais do que meu condicionamento permite. Queria ter mais mobilidade física, pois a mental está INCANSÁVEL !
    Acho que porisso escrevemos…. nao requer força física e podemos concentrar tudo na
    força mental que, no fim, nos leva a discorrer tão bem sobre o que vivemos e pensamos. Um viva à criaçao!!! bk

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  • 05/08/2011 em 11:12
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    Priscila

    Gostei muito da crônica,mas mais ainda de sua determinação!
    Um abraço ,
    Gustavo.

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  • 05/08/2011 em 10:41
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    Caros.

    Sei que vários amigos vão se identificar com essa mensagem, pois aqueles com quem convivo são gente batalhadora e feliz.

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