A viagem marcada

O garoto chegou até a porta do quarto e se deixou ficar. No leito, a mãe era examinada pelo médico. O pai segurava as mãos da esposa, seus olhos pousavam sobre ela. O médico acabou de auscultá-la e levantou-se devagar. Disse algo à mulher e ela assentiu, com o leve sorriso que o garoto conhecia tão bem.

O médico e o pai, juntos, saíram do quarto devagar. Ao passar pelo filho, o homem mexeu com carinho em seus cabelos. O menino continuou no mesmo lugar. Olhava a mãe respirando com dificuldade; pensou em correr ao seu encontro, abraçá-la e beijá-la como sempre fazia ao chegar da escola. Mas agora algo o impedia; tinha medo. Medo de tudo: de se mexer, de respirar, como se tudo que fizesse pudesse, sem que ele desejasse, machucá-la.

A mulher, sem o perceber, tentou se mover para se erguer no leito. Apoiou-se nos cotovelos, e depois de um pequeno esforço, contraindo os lábios numa expressão de dor, desistiu do movimento. Uma lágrima escorreu dos olhos do garoto. Também ele tentou se mexer, e não conseguiu. Ficou ali, sentindo no próprio corpo a dor que ela mostrava.

Não entendia como tudo podia mudar de um dia para o outro: a felicidade, a sensação de proteção e amor que a mãe lhe transmitia, o modo como a presença dela o ajudava quando a matemática lhe trazia suas dificuldades. Do seu jeito calmo, mas decidido, ela lhe ensinava a importância de cumprir suas tarefas, de respeitar as pessoas, de ajudar os mais necessitados.

Tudo nela era compreensão e ensinamento. Aprendia mais com as atitudes maternas do que com as palavras de tantos outros. Ela era assim: a todos tratava com dignidade, em casa tudo era organização e limpeza. Não eram ricos, mas, na vida simples, não faltava educação e carinho.

E aí tudo mudou… Um dia ela começou a tossir, primeiro de forma leve, depois em acessos que lhe tiravam o ar. Usava, como de costume, mel e agrião para aplacar o sofrimento. Mas, um dia, não conseguiu mais se levantar da cama. Uma febre que não cedia a seus esforços a imobilizava. Teve que ceder ao apelo do marido e chamar o médico da vila. Os poucos recursos guardados não podiam ser mais preservados. A emergência tão temida chegara.

E assim foi feito. O médico, profissional bom e correto, recusou o pagamento oferecido. A mãe, mais de uma vez, o defendera no atendimento dos pacientes, que não aceitavam a palavra da ciência. Ela o acompanhava às casas dos vizinhos, dizia-lhes que o moço era novo, mas estudado, que sabia o que deveria ser feito e que ajuda oferecida não devia ser recusada, isso, num passado distante quando, recém-formado, o médico chegara à vila sob a desconfiança de tudo e de todos.

Ele a censurou quando a visitou pela primeira vez. Por que não o chamara antes? Ela lhe disse que acreditava ser coisa de menor importância, não queria importunar o amigo com coisa pequena. Ele a ouviu e sem mais demora a examinou. Seu olhar de preocupação era evidente. O menino vira a cena, estava no mesmo lugar que se encontrara agora.

Depois disso, o medico passava dia sim, dia não. No início, a mãe pareceu melhorar, mas então os ataques recomeçaram com mais intensidade e frequência. Os remédios traziam algum alivio, mas não solução.
O tempo se tornou inimigo e, aos poucos, aquela que ele tanto amava foi definhando. Ele tentava ficar próximo o máximo que podia, mas o médico avisou o pai do perigo do contágio. E assim, ele só podia se aproximar até certo ponto. Os lençóis e a roupa de cama eram lavados em separado, assim como talheres, pratos e copos. Os lenços, dos quais ela fazia uso frequente, não raro ficavam gravados com manchas de sangue. Estes, em especial, eram fervidos de formas mais contundente.

Uma noite o pai o chamou e lhe disse:

 Filho, sua mãe está muito doente!

Ele ouviu aquilo que já sabia. O pai tentou falar mais alguma coisa, mas só conseguiu abraçá-lo com uma força que ele desconhecia. Sentiu a pressão dos braços sobre seu corpo. Depois ele o largou e saiu. O que é que a mãe tinha que era tão grave, que não se podia descrever ou mencionar?

— Lucas!

Ele ouviu seu nome e com ele saiu de seu devaneio.

— Venha cá!

Era a mãe que o chamava, com os olhos carinhosos que ele conhecia tão bem. Aproximou-se, com cuidado. Ela, com mais cuidado ainda, segurou suas mãos. As mãos dela, antes tão macias e acolhedoras, se mostravam emagrecidas, pálidas; as veias cobriam o dorso e dominavam a paisagem. Eram como pequenos córregos roxos, indo em direção ao mar. Ele a olhou e as lágrimas retornaram. Não se importava mais com elas, o pranto já fazia parte do cotidiano, era o seu pão de cada dia. Uma dor lhe apertou o peito e ele teve medo.

— Meu filho! Mamãe não vai ficar aqui muito mais tempo.

— Para onde vai, mãe? Eu posso ir com você?

— Não, meu filho! Vou para um lugar onde você não poderá me ver. Mas não se preocupe, pois estarei sempre por perto, só não poderei me aproximar.

— Vai para um hospital da cidade?

Ela sorriu e explicou:

 Não, querido! Vou para um lugar onde não vou mais sofrer!

Dizendo isso, passou delicadamente os dedos pelo rosto do filho, como se assim fazendo o guardasse para sempre no coração.

— Vai, meu filho! Agora preciso descansar!

O garoto saiu do quarto, mas o aperto que já era grande se tornou imenso. Ele não entendeu o que a mãe dissera, mas sabia que algo que não podia ser mais evitado iria acontecer. Correu para seu quarto, abraçou o travesseiro e mergulhou seu desespero na escuridão. Sem perceber, adormeceu abraçado ao próprio sofrimento.

No dia seguinte, a mãe partiu.

 

 

4 comentários em “A viagem marcada

  • 30/07/2012 em 10:07
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    Muito triste ! Até pq me coloquei no lugar deste garotinho, sofrimento e perdas são difíceis de serem compreendidos ainda mais por crianças…

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    • 31/07/2012 em 09:49
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      Tristeza faz parte da vida.
      Por isso é tão importante aproveitar os momentos felizes e alegres.
      Abrs,
      Gustavo.

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  • 25/07/2012 em 20:17
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    Acho que o sofrimento ainda existe.Antes se vivenciava este sentimento.
    Hoje talvez estejamos mais distantes ,mas a dor da perda de um grande amor continua real.
    Abrs,
    Gustavo.

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  • 25/07/2012 em 19:35
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    Muito bom…
    Esta é uma questão que me faz pensar.
    Antigamente, na minha época, os tempos foram duros, se sofria…
    Nos educavam para ser ser fortes e seguir enfrente,… agora nestes tempos “modernos” parece que os jovens se tornaram mais frágeis, sofrem por bobagens: não poder comprar o DVD de X, assistir ao SHOW de Y…… Esta historia era frequente 30 0u 40 anos no passado…

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