A tarefa difícil

Evaristo Baschenis, Garoto com cesta de pães, circa 1655

O garoto andava descalço e ligeiro pelas ruas do vilarejo. Não tinha ainda 12 anos, tempo necessário para ganhar o primeiro par de sapatos. Na cabeça um chapéu pequeno o protegia do sol. Vestia uma camisa branca, e uma calça de brim que já fora bege compunha o resto de seu vestuário. A calça estava enrolada até próxima dos joelhos, facilitando, se necessário fosse, atravessar um riacho ou pular uma pinguela. Era bom para correr no campo atrás dos companheiros nas raras brincadeiras que a mãe permitia.

Ela era quem determinava sua vida. Depois da escola, era preciso ajudá-la a fazer os pães e biscoitos que sustentavam a família. Mas a pior tarefa era a que realizava vez por outra,como agora. Enquanto pensava na função, diminuía o passo.

De manhã, durante a semana, antes das aulas, saía com a cesta de paes na cabeça entregando-o junto com roscas ainda quentes, ciente da responsabilidade e do castigo se a tarefa não fosse realizada a contento. Nos sábados, seu destino era pior. Era dia de cobrança!

Diminuiu ainda mais o passo. Parou diante de uma casa humilde, que já conhecia. Bateu palmas como era de costume das pessoas:

— Ó de casa!

Aguardou…

— E aí, Pedro! — Sorrindo, o amigo surgiu à porta.

— Vamos pegar passarinho? — Animado e feliz, propôs o companheiro de brincadeiras.

Pedro, sem jeito, lhe disse a que veio:

— João! Hoje não posso, tô trabalhando! — E, triste, completou:

— Sua mãe está? Preciso falar com ela! — As últimas palavras saíram quase num sussurro.

O amigo perdeu a alegria da chegada, e se lembrou de quem o colega era filho. Sem nada dizer, compreendeu o motivo da visita, e, em silencio, foi chamar a mãe. A senhora se aproximou da porta e  abrindo-a lentamente, olhou a criança à sua frente, que cabisbaixa, segurando o chapéu nas mãos, olhava para o chão, num desconforto evidente.

— Bom-dia, Pedrinho! Vamos entrar!

Sua voz doce, triste e cansada dificultava ainda mais a tarefa do menino. Com esforço, sem olhar diretamente para mãe do amigo, agradeceu:

— Obrigado, Dona Angélica, mas não posso. O assunto ficou mais difícil de abordar, mas a lembrança da mãe e sua vara de marmelo lhe deu coragem:

— Minha mãe pediu para trazer para a senhora! — Disse isso tirando um papel do bolso e o entregando à devedora.

A mulher, algo resignada, tomou-o das mãos da criança. Apesar de vestida com simplicidade, tudo nela era dignidade. Ajeitou o chale nos ombros num gesto natural, olhou o valor no papel e disse ao menino:

— Espera um minuto, Pedro! — E afastou-se, deixando a porta entreaberta.

O interior da casa surgiu sem aviso. Uma máquina de costura, com um vestido sendo executado, ocupava o centro do ambiente; o berço da irmã do amigo ao lado do lugar de trabalho, uma mesa pequena já gasta com o uso e quatro cadeiras um pouco mais à frente compunham todo o resto do mobiliário da sala. No fundo se via ainda um quarto pequeno e duas camas, uma ao lado da outra. A falta de muito mais já denunciava a precisão de tudo, ou quase tudo. Viúva e sem recursos, a mãe lutava com dificuldade para manter a família.

A mulher retornou à porta, e entregando algum dinheiro ao garoto disse:

— Diga à sua mãe que pagarei o restante daqui a alguns dias.

Sem olhar quanto tinha à mão, Pedro a fechou com força, agradeceu e correu em direção ao caminho de volta.
Enquanto o fazia, ressoava em sua mente o aviso da mãe:

— Diga a ela que se não pagar o que deve, não entrego mais o pão a partir de amanhã! Já tem um mês que  não recebo nada…

Enquanto corria, a cabeça latejava. O suor lhe escorreu na face, tinha mais um tanto nas costas. O coração batia descompassado. Se aproximava do lar. Diminuiu o passo. O corpo todo tremia, um aperto no peito e uma falta de jeito tomavam conta dele. Sentou-se debaixo de uma árvore, apoiou o rosto nas mãos, sem saída, sem destino.

Depois de um tempo se levantou, e lentamente retomou o caminho. Chegou em casa, mas em vez de ir direto para a cozinha — onde a voz da mãe já ressoava com a ajudante — desviou-se e entrou no seu quarto. Abriu o armário, e do fundo, debaixo dos livros da escola, tirou uma pequena lata vermelha que já servira para guardar fermento. De dentro dela, retirou algumas notas guardadas há muito. Contou o valor certo e devolveu uma delas para seu lugar de origem, guardou tudo e saiu do quarto.

— Mãe!

— Fala menino! Não vê que estou ocupada?

Estendendo a mão em direção a ela, falou:

— Dona Angélica mandou para a senhora!

Uma nota mais nova se destacava das outras. A mãe a reconheceu, mas nada disse.

— Anda, vai brincar! Não vê que estou trabalhando?

O garoto saiu em disparada, sem esperar outra ordem. A mulher se voltou para o trabalho, mas olhou para o garoto e, pela primeira vez, viu que ele tinha crescido.

 

 

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