A sobrevivência do mais épico

“A partir daquele ponto, não restava qualquer outro procedimento a não ser torcer para que o potencial da eficácia científica se aliasse à metade positiva do imponderável e juntos fizessem com que o implante de medula pegasse”, leio no Globo a matéria de capa a respeito da verdadeira saga de Reynaldo Gianecchini, agora transformada em livro.

Certo, o cara foi à morte e voltou pra contar a história, agora, ainda bem, já  todo bonito de novo (quase me matou aquele outdoor na Avenida Brasil com Gianecchini inchado e careca), e ninguém neste mundo jamais poderia competir com isso, vamos combinar, mas faz tempo que desisti de “comparar dores”, algo que sempre me derrubou em qualquer movimento que eu pudesse fazer em direção ao topo e que também agora ameaça me derrubar — sob o disfarce desrumado (intervalo para o neologismo) da autossabotagem —, Alan vai logo me dando o seu sábio conselho no café da manhã: “Convoca a imprensa, sua família e quem mais for que nunca te deu apoio, seus poucos amigos e alguns detratores e se pendura numa corda no meio da sala com vista para a Maria Comprida”.

“Mas, darling”, respondo — agora pode ser darling de novo, já que está de volta pela enésima vez do mundo dos quase-mortos onde foi dar um passeio na semana passada enquanto eu feito uma louca trabalhava e de onde eu, brava Eurídice em busca de seu Orfeu eternamente idealizado, tive que ir resgatá-lo, mas isso já é outra história, e ainda por cima com os sexos invertidos, não estou aqui para blablablá sem nenhum sentido —, “se eu me matar pra chamar atenção não vou conseguir o que estou querendo, vou perder a melhor parte, que é usufruir da atenção obtida, pois estarei morta, não é mesmo?!”

Voltando ao que interessa, pois o resto é chato à beça: não há nenhuma morte ou dor física envolvida a não ser um dolorosíssimo torcicolo, ainda bem, mas também estou numa semana crucial que começa hoje, neste domingo, e espero que termine como todas as semanas normais no prazo exíguo dos próximos sete dias durante os quais “Deus” criou um mundo, mas o mundo da tecnologia, vocês sabem, é capaz de tão incrível magia que pode até mesmo estender o prazo classicamente aceito dos dias da semana criados por “Deus”, “agora é uma questão de dias, não de semanas”, reafirma por telefone o guru das amazonas, seja lá o que for que ele quer finalmente dizer com tudo isso, ou será que estaria faltando peito? Tudo que é demais enoja, sabem como é.

A questão é que isto para mim — “isto” sendo a entrada do Brasil no mundo, ops, no mapa do livro digital, finalmente programada para esta semana agora, nunca é pleonasmo demais enfatizar — é uma questão vital, depois de três anos de trabalho insano está tudo indo pelo ralo se o embalo não rolar muito rápido, casamento, sanidade, vitalidade, tudo, pois atingi o limite do idealismo exacerbado, quando tudo para o que trabalhamos corre o risco de não ser materializado, dramático, eu sei. É só trabalho, não tem ninguém sendo morto nem se divorciando por causa disso.

Vamos voltar àquele ponto da autossabotagem que seria em tese mais interessante: foi uma semana estressante e ainda por cima me enfiei por um dia perdido na perigosa zona norte do Rio de Janeiro, como um vírus autocontaminante, nos intestinos de um dinossauro editorial agonizante, eu ia descrever-me como um mico não pago, nem um obrigado (porque o fiz de graça, e por pura graça, só pra me colocar em definitivo estado de desgraça), por ousar tornar-me mais importante do aquela ossada de museu prestes a se desmontar, eu, como uma bactéria que não morre e faz de sua vida um destino a se autorrealizar, não importa quem queira dificultar.

Mas, cá pra nós, Alan achou a metáfora péssima, muito negativa, nem é que eu ligue para o Alan e seus ataques de lucidez impositiva, impositiva e agressiva, digo, sendo muito franca, o que houve é que enquanto eu planejava esta diatribe mal traçada a empresa em questão é que se tornou o maior mico do mercado editorial: foi a única editora do país a ficar para trás na revolução que vem por aí, não no ano que vem, nem no mês que vem, mas nesta semana que em si mesma mal se contém. E tenho do meu lado o não-dito, não vale me processar por isso, falou, doutor? Doutos doutores, digo.

Eu mesma já ando intolerante, não aguento o suspense, nem a espera, nem a primavera, nem mesmo o rumo desta prosa, doença crônica, se não houver bom humor pra me levantar não haverá esperança para uma morte irônica, numa praia qualquer onde o mar não chega, nunca há de chegar, bloqueado pelas mais altas montanhas e Maomé caindo de bêbado tentando se salvar, eu sei, não estou fazendo o menor sentido, mas trata-se aqui, deixem-me explicar, de um surto psicótico mal desenvolvido e por ele nem vale a pena eu me desculpar.

Não me sai da cabeça um filmeco que vi na TV algumas semanas atrás, e era mais ou menos assim, acho até que lá atrás já o descrevi, mas não me sai da cabeça como já disse: o sujeito tinha uma vida dramática de verdade, tinha brigado com a namorada no carro e esta por sua vez tinha se explodido no posto de gasolina acendendo um cigarro enquanto ele mijava no banheiro, desculpem os termos chulos mas episódio psicotido, ops, psitdótico, ops, p-s-i-c-ó-t-i-c-o, cacete, que se preze, não prima por formalismo ou elegância, é aquela coisa ali, pé no chão, terra no nariz, voltando ao filme, a vida do cara a partir daí se degringolou mais ainda por um longo tempo se é que isso seria possível, e só é porque se trata de um filme, não de uma vida, nariz pra cima, sacode a poeira dá a volta por cima, o cara se estrepou tanto que num determinado momento teve uma cisão de personalidade, deixou a entidade sofrida mijando no banheiro, saiu, sorriu, entrou no carro com sua nova amada e mandou a dor para sempre para a puta que a pariu, “e agora?”, perguntou a personalidade sofrida, “e agora, tchau”, mas até agora eu não estava conseguindo, tchau, bela, tchau e bênça.

E pra vocês um excelente domingo.

 

 

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3 Resultados

  1. manuelfunes disse:

    O seu Alan está certo! rs rs rs

  1. 02/12/2012

    […] O resto, aqui. […]

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