A secretaria secreta*

SECRETARIA SECRETACafé com lactopurga, papel higiênico borrifado com esporos de urtiga, balas de chupar que soltam gosma de cor violeta na boca do incauto, grampo telefônico, microcâmera no botão da camisa, relógio-gravador, aperto de mão elétrico, clips de papel pra abrir qualquer fechadura, batata chips, caneta capaz de filmar quatro horas seguidas, esponja molha-dedo embebida em veneno; mensagens interceptadas; enigmas, charadas, ordens de serviço impublicáveis, resoluções confidenciais, pareceres secretos, vigilância eletrônica: o mundo da espionagem é cheio de trapaças, intrigas e artimanhas.

Chovia na noite em que cheguei ao hotel, o mais fuleiro da cidade, pra economizar a diária. Eu era um agente secreto em missão especial, pilotando um veículo tão luminoso quanto uma boate móvel. Brasão com as armas do estado pendurado ao pescoço, bastou apresentar minha identidade funcional para que o sujeito da portaria me atendesse com todas as honras.

— Senhor Agente Secreto, seja bem-vindo à nossa cidade. O sr. pretende ficar quantos dias? Dois dias? Só? Desejamos que o sr. faça um bom trabalho. Ninguém aguenta tanta sonegação. A propósito, o sr. precisa de nota fiscal? Com nota fiscal nossos serviços sofrem um acréscimo de vinte por cento. Pretende pagar em dinheiro, cheque ou cartão? Nossas diárias vencem antecipadamente. Por favor, aguarde enquanto consultamos seus dados na página da Secretaria e no SERASA. E então, o sr. vai querer nota fiscal?

Tendo em vista a lei da transparência e o Código de Defesa do Cliente, eu não podia esconder da sociedade que trabalhava como agente secreto da Secretaria. Afinal, se os americanos não vivessem em uma República Democrática o criador do Wikileaks estaria até hoje se escondendo na Embaixada do Equador, com medo de ser extraditado para os EUA, a CIA estaria implantando escutas telefônicas sem autorização judicial, operando bases clandestinas mundo afora, prendendo, torturando e assassinando pessoas em qualquer parte do mundo. O preço da transparência é a eterna camuflagem. Por isso, não me incomodo quando meus colegas de copo e de sinuca me chamam de agente secreto maneiro…

Os espiões estão por toda parte. No dia seguinte, às 06h30 da manhã, ao chegarmos ao primeiro alvo da operação, fomos recebidos por um ex-assessor, aposentado da Secretaria havia 35 dias, por acaso contratado como advogado do cliente a ser investigado. Treinado para desconfiar de tudo e de todos, não me surpreendi, mas fiquei intrigado (como o colega ficou sabendo da Operação Gato de Botas antes da Imprensa?). Educadamente, repassei-lhe todas as informações constantes em nossos bancos de dados, nomes dos agentes, autorização de serviço e objetivo da operação. Se não estivéssemos de posse de Mandado Judicial, o alvo nos teria escapado. Invocando o § 3º do artigo 4º do Código de Defesa do Cliente, o cliente especial, um baixinho conhecido na região por Al Capone, escoltado por cinco seguranças, tentou bloquear nossa entrada em sua fábrica clandestina, recusando-se a exibir documentos e registros eletrônicos. Como éramos uma equipe bem treinada, a operação foi um sucesso. Três dias depois, o cliente protocolava denúncia premiada na repartição, pagando os tributos sonegados com 50% de desconto.

CONFAZ de Conta. Eu vivia no melhor Estado para se viver, iluminado pela melhor e mais cara tarifa de energia elétrica do mundo, gozando dos benefícios oferecidos por um Governo Transparente, que nunca desperdiçou milhões em propaganda e sempre aplicou, rigorosamente, tudo o que manda a Constituição em saúde e educação. Certo de que o Deus da Justiça Tributária sempre esteve do meu lado, como agente de contraespionagem instalado no Conselho de Política Tributária, eu tinha obrigação de descobrir os benefícios ilegais concedidos pelos estados inimigos, enquanto, sob o pálio da legítima defesa, executava a gloriosa missão de instruir nosso departamento de legislação a ocultar as benesses oferecidas pelo governo que me empregava.

Manicômio Tributário. Guerra é guerra. Entulhado de ações, o Supremo Tribunal Federal não dá conta de julgar tanto benefício inconstitucional. Para entender como o Confaz de Conta funciona, lembre que George Bush Júnior, com o papo de combater o terrorismo, enrolou a ONU, invadiu o Iraque e ceifou cerca de 1 milhão de vidas, entre civis e militares, com bala, fome, bomba e doença, sem qualquer declaração de guerra, lastreado em relatórios forjados pela CIA. E o mentecapto do Bush sequer foi julgado como criminoso de guerra.

Congresso Estadual dos Espiões – CONEES. Não se fie em discursos proferidos em palestras, congressos e seminários. Nas reuniões de planejamento, quando questionado, o Chefe limita-se a informar que uma mudança muito, muito-muito radical se aproxima, mas que no momento ele não possui informações detalhadas. A informação vital é inimiga dos holofotes, circula em bilhetinhos, sussurrada em salas blindadas, e principalmente nos gabinetes, após a hora do Angelus. De vez em quando, alguma inconfidência escapa no intervalo do cafezinho, no banheiro ou nos corredores. Cedo ou tarde, a informação crucial, devidamente classificada, explodirá como uma bomba.

A diferença entre um agente secreto e um agente esperto pode ser desvendada analisando-se as camadas de conhecimento que um tem do outro — é o que se chama de metaespionagem. No primeiro momento, o agente secreto (“A”) e o agente esperto (“E”) se apresentam para o jogo; no segundo momento, o agente “A” pensa que sabe o quanto o agente “E” sabe; no terceiro momento, o agente “A”, por pensar que conhece o quanto o agente “E” conhece, pensa também que sabe o quanto o agente “E” sabe a seu respeito (de “A”), e assim sucessivamente. O sucesso do golpe depende da técnica do despiste, da trapaça e da antecipação — em algum momento um dos dois cometerá um erro de avaliação, e o que um dos dois pensa que sabe a respeito do outro não baterá com a realidade. Como “só os tolos não julgam pela aparência”, já dizia Oscar Wilde, o segredo está em portar-se de forma a provocar na mente alheia o pensamento que se deseja que o outro tenha de você. Normalmente, tratando-se de segredos de gabinete, o perdedor é o agente que revela na internet a informação que lhe tentava esconder o oponente.

Dois agentes se encontram no corredor, próximos à máquina copiadora.

— Dizem que vocês vão ter aumento… — sussurra o agente “A”.

— E vocês, não vão ter aumento também?

— Não, o aumento será apenas para os Agentes “E”; pra nós, agentes “A”, o Governo diz que vai dar zero por cento! Você acredita?

— Aumento zero? É mesmo? E nós, os Agentes “E”, vamos ter aumento de quanto, você ficou sabendo?

(O agente “A” sabe que o índice de aumento de “E” será de X%, informação que é de conhecimento do segundo, mas o primeiro finge-se de besta).

— Não se sabe. É segredo.

Agente E: — Vem cá, o seu Sindicato foi chamado para se reunir com o Secretário. A reunião não era pra tratar do nosso aumento?

Agente A: — Fala baixo! Você quer que “Eles” fiquem sabendo que nós já estamos sabendo de quanto vai ser o seu aumento?

Agente E: — Mas vocês também vão ter aumento…

Agente A: __ Você já leu o comunicado do Secretário?

Agente E: — Li. De acordo com as regras, o aumento de zero por cento que vocês vão ter será maior do que o nosso!

Agente A: — Mas que regras loucas são essas?

Agente E: — Vocês terão vantagens extras, incorporação de letras, extinção de nível. Não foi isso que pediram ao Secretário?

Agente A: — Você está sabendo mais do que o Sindicato… Vem cá, e os chefes dos Agentes “E”, o que eles estão achando disso tudo?

Agente E: — Disso tudo, o quê?

Agente A: — Ora, desse aumento que vocês sabiam que não íamos ter! O que mais vocês vão ganhar?

O Agente “E”, impaciente, fazendo ares de especialista, desconversa:

— Você conhece a Doutrina da Segurança da Informação?

Agente A: — Não.

Agente E: — Você não fez o Curso de Segurança da Informação?

Agente A: — Fiz, e daí?

Agente E: — Uma das regras básicas da Segurança da Informação é que se você, para executar seu trabalho, não precisa ter acesso a determinada informação, melhor não ficar sabendo. Por exemplo, a sua mulher sabe quanto você ganha?

Agente A: — Por que minha mulher deveria saber de algo que colocaria em risco nossa Organização Familiar? Se eu mostrar meu contracheque pra minha esposa ela me pede o divórcio! Agora, com a Lei da Transparência…

Agente E: — Ah, deixa de brincadeira que a coisa é séria!

Agente A: — É claro que ela sabe! Você acha que eu conseguiria esconder um segredo desses de minha esposa?

Nesse momento, ouviu-se o bater de porta. Pintou sujeira; saindo da sala para o corredor, aproximava-se o Coordenador…

 

*Nota: “Fazenda” — campo de treinamento da CIA em Camp Peary, Virgínia, Estados Unidos da América.

 

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1 Resultado

  1. manuelfunes disse:

    Pasmem! td invenção americana! A sopa de letrinhas para esconder as safadezas :ONU, CIA, OTAN, PQP…ja ja ja e o mundo acha legal! Coisa fina!

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