A Refinaria de Capuava

por Maria Anna Machado

 

O garoto, cismarento, caminhava chutando paus, latas, pequenas pedras, com jeito pra não machucar o dedão; chutava, enfim, tudo que lhe parecesse um obstáculo. Resmungava baixinho, dizendo palavrões a cada chute, como se fossem pessoas e não objetos sem vida os que sofriam seus reflexos nervosos. Não levava nada nas mãos, que permaneciam firmemente cruzadas às suas costas, com se com aquele gesto quisesse mostrar a decisão firme, tomada há algumas horas, e que o transformara completamente.

Não era mais um garoto de cabelos de Bom-Bril, incríveis olhos cor de mel e um sorriso amargo e meigo a um tempo só. Rugas precoces vincavam sua testa, com uma profundidade estranha para um garoto de quinze anos. Os pensamentos se atropelavam, pesando e fazendo pender sua cabeça que se curvava sobre o peito.

Andava e resmungava:

— Danada de vida, vou me mandar por a[i, nem sei pra onde, só sei que pra casa não volto mais!

Iria completar dezesseis anos no próximo mês, analfabeto de pai e mãe; se tivesse carteira profissional, provavelmente já teria o registro de bons cinco a seis anos de trabalho. Trabalhava como servente do pai — pedreiro de pequenas casas toscas, dessas que brotam como por encanto e se multiplicam pelas milhares de vilas que surgem da noite para o dia formando canteiros desordenados e de tons barrocos, por todos os incontáveis morros de Mauá e Capuava —, que em todas as casas que construiu serviu-se do filho como ajudante: um servente cômodo, não remunerado, que era surrado se não trabalhava a contento e estava bem à mão, não tendo como livrar-se do serviço. Mais certo seria dizer “escravo”, pois como tal era tratado.

As mãos ásperas, enrugadas e descascadas pela cal virgem, pelos milhões de tijolos carregados, continuavam cruzadas nas costas, exprimindo no gesto a decisão firme, irrevogável, de partir. Dentro de sua cabeça as imagens de sua vida pesada e angustiantemente igual, dia após dia, vinham-lhe em fragmentos vivos e doloridos. As fugidas rápidas até o bar do seu Chico e sua TV formigavam agora em vídeos próprios, cenas truncadas de palhaços em cambalhotas, cavalos correndo em filmes de bangue-bangue, cantores desconhecidos, foguetes indo pra lua, cachorros falando, heróis encapuzados sempre salvando a todos (menos ele), música, palmas de pessoas invisíveis, comerciais de comidas gostosas (ai, que fome) colchões macios, comida… comida… roupas quentinhas…

Um arrepio de frio lembrou-lhe a velha blusa, tão grande (a mãe ganhara da patroa), onde conseguia enrolar-se todinho e que ainda naquela manhã esquecera no terreno baldio, onde, roubando alguns minutos da hora do almoço, ficara vendo o jogo de alguns garotos numa pelada tão gostosa que o fez esquecer-se do tempo… e da blusa, motivo da surra dupla: a espera do pai no trabalho e a blusa perdida, motivos da fuga  agora iniciada.

Seus pensamentos continuavam como vídeos doloridos. A figura do pai, onipresente, aparecia-lhe como um Deus todo-poderoso, dando sempre a palavra final em qualquer situação. Não havia meio, pelo menos em casa, de fugir-lhe ao controle; e ainda menos no trabalho. A mãe ele via tão pouco que já não saberia descrevê-la. Ela saía cedinho de casa para limpar casas alheias, e só voltava à noitinha.

Ele gostava mesmo era das guloseimas que ela trazia nas sacolas, sempre havia uma sacola com comida chegando pelas mãos da mãe sempre apressada, sem tempo para afagos; iam para o estomago e ali só havia tempo para a digestão, não para a gratidão.

Os irmãos, todos menores, só lhe davam trabalho: “Ajuda teu irmão co’o balde! Leva tua irmãzinha pra escola!” Ah! A escola… coisa de sonho…

Os únicos momentos só seus eram por volta das 7 da noite, quando voltava do bar do seu Chico aonde ia buscar o pão e o cigarro para seu pai e ficava um tempinho vendo a TV. Deixava o cigarro na soleira da porta, onde o pai se sentava para fumar, levava o pão para dentro e passava furtivo, indo ate o fundo do quintal, onde, numa pilha de tijolos, empilhados por ele de forma especial, tinha um lugar só seu — porque até sua cama ele repartia com a avó. Do seu improvisado mirante, ficava admirando os clarões que as labaredas da chaminé da longínqua Refinaria de Capuava, lançavam sobre o céu negro, sempre carregado de poluição, e que drapejavam em dobras tingidas de laranja e pareciam precipitar-se pelo barranco onde terminava o terreno.

Todos que moravam por ali trabalhavam na Refinaria, e ele sonhava poder um dia ir também, mas tudo parecia tão distante agora. Até sua zanga começava a arrefecer. O cansaço era grande, a Vila Zaira, onde ficava sua casa, era do outro lado de Mauá; até ali era uma façanha e tanto. Dessa vez a surra havia sido dura, tinha abalado sua natural docilidade. Uma ânsia incontida, algo que não saberia explicar, espicaçava sua vontade de ir andando.

Suas pernas continuavam a levá-lo cada vez mais longe, já devia estar perto da Refinaria — a qualquer morro escalado, toparia com ela. Já tentara fugir outras vezes, mas ao se deparar com os reflexos cada vez mais fortes, sentia-se temeroso e, virando as costas, acabava voltando apressado, pela trilha ainda clara.

Desta vez não iria voltar. Resolveu cortar caminho; com medo de encontrar algum conhecido, saiu da trilha que indicava o alvo rubro e bruscamente enveredou pelo capim áspero, recoberto de um pó que ao seu passo apressado se levantava e fazia cócegas em sua garganta. Estava cansado, a fome doendo no estômago vazio, os braços cruzados agora no peito, para evitar o frio e a umidade que já haviam chegado com a noite. Zonzo de sono, cambaleava aos tropeços. Estava perdido! Tinha certeza disso.

Parecia que andava às voltas, pois às vezes a luz da Refinaria ficava às suas costas, e de repente, ao levantar a cabeça, o clarão bruxuleante reverberava à sua frente; então, assustado, se virava e seguia para o lado em que pensava estar sua casa. Nesse vaivém o tempo era consumido, talvez pelo fogo rubro que clareava a noite assustadora: Vou subir só mais esse morro, se não encontrar o caminho pra casa, deito aqui mesmo e não levanto nunca mais.

O morro virou montanha, as pernas eram de pau, os olhos de chumbo. Somente o desejo de saber o que havia do outro lado o levava ladeira acima. Mais alguns passos e lá de cima quem sabe veria sua casa, aí ganharia forças e sairia correndo. A mãe e o pai, com o susto, não iriam lhe bater… hoje não! A vó, ah, ela lavaria seus pés doloridos, daria algo quente e gostoso para que ele se cobrisse, se deitaria ao seu lado e como em outras noites lhe contaria historias de dragões, de fadas, de saci, de castelos encantados, onde tudo era diferente daquilo que se conhece. E apesar da canseira, ele não dormiria; era bem melhor sonhar, ouvindo aquelas coisas que para ele soavam estranhas e sem sentido.

Chegou até o alto sem levantar os olhos. E se fosse outro morro vazio, áspero, igualzinho àqueles que tinha deixado pra trás? Sentiu as pernas fraquejarem. Não podia enxergar mais que alguns palmos adiante do nariz, o céu branco da madrugada sumindo dentro da cerração tingida de rosa que envolvia também seu corpo entorpecido, murchando-o com um balão de tocha apagada. Uma lágrima rolou, derradeiro breu que despencava da tocha extinta; escorregou sobre uma moita de capim, os olhos se fecharam, a boca entreabriu num suspiro agoniado e ele se esparramou no capim gelado.

Não dormiu muito. Um primeiro raio de sol penetrou nas grades ruças das enormes pestanas, brincou na pequena nesga do olho entreaberto e refletiu-se no cérebro, acordando-o. Rápido “ouvindo” o chamado áspero do pai, levantou-se a meio e estacou: não estava em sua cama. Seu corpo, dormente pelo frio, estava enformigado, exigindo esfregadelas rápidas e enérgicas que, instintivamente, começou a fazer.

O raciocínio também estava um tanto entorpecido, demorou a dar-lhe os dados necessários para a explicação do ambiente estranho. Aos poucos, a lembrança da fuga voltou, e com a fome apunhalando o estômago vazio, procurou em volta vestígios de algum caminho conhecido. Foi então que seus olhos se arregalaram de espanto e medo, com a visão alucinante à sua frente, no morro seguinte, onde terminava a trilha por onde viera.

Emergindo do nevoeiro que o sol friorento vagarosamente dissipava, despontavam aguçadas, refletindo os lampejos fracos, dezenas de torres esguias, altas, prateadas, as cúpulas reluzentes circundadas por escadas, canos, fios retorcidos que mais pareciam serpentes enormes, pretas e úmidas que terminavam em curvas infindáveis, numa mistura incrível de materiais para ele desconhecidos.

É meu castelo — pensou — aquele que a vó descreve e que um dia será meu!

As labaredas, saindo de uma altíssima chaminé fina e prateada, sugeriam-lhe que era a Refinaria; mas sua imaginação jamais concebera tal imagem, e agora sua fantasia ganhava de longe da realidade. Era bem melhor que fosse seu castelo, onde ele poderia abrigar-se. Esqueceu a fome, o frio passou ligeiro. Com passos largos e firmes, avançou rapidamente em direção ao “seu” castelo, logo encontrando o primeiro obstáculo. Foi se aproximando devagar da cerca enorme e prateada que protegia em toda a volta o castelo tão almejado: era impossível de escalar ou romper.

Começou a caminhar rente a ela. Devia haver um meio de atravessar aquela formidável muralha, que parecia não ter fim. Subiu morro, atravessou valetas, escalou rampas de terra vermelha e pegajosa, entrou em córregos de águas escuras e fedorentas, onde o lodo viscoso agarrou uma de suas havaianas, e por isso ele jogou a outra fora. Andar descalço era até melhor.

Não sentia o cansaço, o coração aos pulos; não saberia explicar essa sensação estranha de coragem e valentia que enchia seu peito em toda plenitude. Assim foi chegando perto de uma intrincada confusão de postes, fios, argolas, rodas brilhantes e torres altíssimas, onde um zumbido estranho e sinistro o avisava do perigo, além de uma caveira desenhada em uma tabuleta. Estão querendo me amedrontar, mas não adianta, vou seguir em frente.

Olhou à sua volta em busca de algo que lhe servisse de arma e proteção; encontrou um pedaço de madeira fina e comprida, larga o suficiente para caber em sua mão. Empunhou-a e começou, desajeitadamente, a imitar as lutas que por vezes entrevira na TV do seu Chico.

Transfigurou-se. Não era mais um garoto tímido e assustado. Seu peito se inflava com sua respiração forte e cadenciada. Ali estava seu inimigo, seu dragão desconhecido que lançava fogo e fumaça e zumbia, tentando afastá-lo — tudo aquilo que sempre representara para ele opressão, trabalho duro, indiferença, tudo de ruim, enfim, e que sempre impedira seu conhecimento e felicidade. Mas agora iria enfrentar o que desse e viesse e sairia vencedor, tinha certeza.

Começou lentamente a procurar um meio de saltar a cerca. Era impossível. Arrebentar, então, nem pensar: era de aço grosso. Andava de um lado para outro, olhando tudo, à procura de um meio para atravessar aquele obstáculo. Foi então que notou ao pé de um dos suportes da cerca, onde haviam feito um aterro, uma valeta formada pelas águas da chuva que deixava a descoberto o fim do arame da cerca. Introduziu sua “espada” na terra fofa e revolveu um pouco; a terra cedeu, e torrões rolaram valeta abaixo.

A alegria corou suas faces; com esforço, começou a cavar. O tempo passava, o sol queimava suas costas, as gotas de suor escorriam sem que ele fizesse um só movimento para enxugá-las. A noite chegou, e o monte de terra já estava bem alto. O cansaço, mais que a vontade de parar, o derrubou. Ainda antes de pegar no sono, limpou a espada-cavadeira com a camisa e enfiou-a no cinto — medo, fome, insegurança, todos os sentimentos estavam agora abafados, ou pelo menos pareciam soterrados debaixo daquele monturo de barro onde se deixou cair. Seu castelo estava a um passo de ser alcançado e todo o esforço teria valido a pena.

Sua mente, virgem de qualquer conhecimento e impregnada pelas histórias fabulosas da avó, que agora, num emaranhado louco, se confundiam com as imagens truncadas da TV, fazia pressão sobre ele, que já não conseguia distinguir o real da fantasia. Não se sentia mais um garoto pobre, espoliado de seus direitos naturais: era um homem! Ou seria um super-homem? Um saci? Não. Não podia ser. Talvez um trapalhão… pra quem tudo acaba dando certo… já sabia… Era Deus. Isso mesmo. Deus! Não sabia ao certo como era sua aparência, mas sabia com certeza que era forte, bom, intrépido, e que tudo podia. Um gesto seu e o castelo seria conquistado. Sonhou.

Acordou se sentindo realmente um deus. O estômago, amortecido, já não reclamava tanto, tinha forças ainda para matar qualquer dragão. A terra agora saía fácil e logo havia um buraco de tamanho razoável por onde poderia passar. Aí, o caminho estaria livre.

Arrastou-se por baixo das pontas de arame e viu-se do outro lado. Estirou bem alto seu corpo, que assim, todo vermelho daquele barro que se agarrava na roupa e grudava no cabelo, mais parecia uma verdadeira estátua grega. Um deus qualquer; o Deus bondoso da avó, o Deus cruel e onipresente do pai, o Deus indiferente da mãe, o Deus me livre, o Deus te pague, te guie, te console, enfim, o Deus nosso de cada dia.

E, como deus, sentiu-se destemido e pronto para tudo. Vagarosamente se desviou de alguns obstáculos e saiu na base de concreto que sustentava aquelas torres altíssimas, cheias de fios, argolas e tantas coisas desconhecidas e estranhas, sem nenhum significado para ele. Ali, o zumbido era realmente amedrontador. Arrepiava.

Ao longe, lá em cima da colina — agora de um gramado verdejante — estava seu castelo. Era só atravessar aquelas torres, aqueles fios que mais pareciam tentáculos querendo agarrá-lo, não ligar para o frio na espinha provocado pelo zumbido estranho e de mau agouro.

Apertou com força o cabo do pau-espada, que parecia tinto com o sangue de algum dragão malvado e pronto para o que desse e viesse. Começou, cautelosamente, a atravessar a usina geradora de força. A terra úmida em seu corpo parecia atrair de algum modo as ondas elétricas e um frêmito sacudia levemente toda a sua carne. Uma leve estática o assustou e ele rapidamente levantou sua “espada”, agitando-a à sua volta. Nesse girar incauto, esbarrou o pau úmido em algum fio.

A descarga elétrica iluminou por milésimos de segundo aquele rosto perplexo, onde se refletia a ilusão do deus recém-assumido. Eletrocutado.

 

 

Maria Anna Machado é pintora por nascimento e escritora por adoção. Suas pinturas são sua alma, seus escritos seu coração. Completou oitenta anos e se voltasse a nascer não mudaria um minuto sequer, pois todos foram vividos com intensidade, serenidade e amor. Atlants — atol das formigas é seu primeiro romance publicado.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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