A promessa e o jogo

No último fim de semana, havia prometido às crianças que as levaria ao circo. Minhas duas hérnias lombares de estimação, no entanto, ficaram com ciúmes. Resolveram entrar em ação. Resultado: fiquei de molho, praticamente, a primeira das minhas duas semanas de férias; a ida ao circo teve que ser adiada.

Fiquei duplamente triste com o adiamento dos nossos planos. Primeiro, por ter frustrado os meus pequeninos gêmeos; depois, porque circo ou outra atração cultural em Petrópolis, independente da qualidade artística, não entremos nesse mérito, é como o cometa Halley, demora bastante para aparecer novamente.

Na segunda e na terça tive que conviver com os constantes questionamentos dos pequenos quanto à nossa ida ao já tão badalado, pelo menos aqui em casa, circo. À noite, diante de uma melhora forçada, prometi a eles que no dia seguinte, finalmente, iríamos ao tão esperado evento.

Assim que amanheceu a quarta-feira, Vinícius, o meu primogênito (por três minutos), já disparou à queima-roupa o súbito bom-dia:

— A gente vai no circo hoje!!! Êh!!!

Sorri! Estava resolvido, iríamos ao circo. Mas era inevitável contar ao garoto que a crise ainda estava presente. No clima de euforia reinante, comecei a folhear o jornal e o Caderno de Esportes, como uma agenda impressa, lembrou o jogo logo mais pelo campeonato brasileiro: Santos x Flamengo.

Ora, todos que me conhecem sabem que futebol é uma das minhas grandes paixões. E, indubitavelmente, tratar-se-ia — fazer uso da mesóclise a esta altura do campeonato só poderia ser coisa de professor de português mesmo, desculpem-me! — de um grande jogo, já que em um campeonato tão escasso de talentos como tem sido o nosso Brasileirão, só o Peixe e o Urubu têm nomes que, do ponto de vista individual, podem desequilibrar a partida, como Ganso, Neymar (esqueçamos o fiasco da seleção), Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho.

Agora. Aqueles mesmos todos que me conhecem devem estar se perguntando: “Ué!!! Mas o Leandro não é vascaíno?” Sou, com muita honra e orgulho, mas meu time não entraria em campo na quarta-feira e, além do talento mencionado acima, garantia de um bom espetáculo, eu não poderia, como todo bom vascaíno, me furtar ao direito de torcer a favor do time que estivesse jogando contra o Flamengo, independente de qual fosse.

Então veio o dilema: cumpriria a promessa da ida ao circo ou assistiria ao jogo? Pensei em negociar com os miúdos o adiamento do programa, mas no dia seguinte tinha jogo do Vasco; além do mais, depois da empolgação daquele bom-dia achei que seria mais difícil flexibilizar os meninos do que obter a votação do Código Florestal no governo Dilma.

Como sou daqueles pais à moda antiga, do tipo que ainda cumpre o que promete, chegamos, pontualmente… quarenta e cinco minutos antes de a sessão começar, visto que não era mais possível controlar a ansiedade em casa. Preferi me adiantar a ter que continuar enfrentando a atitude deles. Estar na lona era como estar no estádio, de fato, pois momentos antes de os artistas entrarem em campo fizemos o reconhecimento do gramado: abastecemos os meninos de pipoca, algodão-doce e todas as demais iguarias que esse tipo de evento pede. Quando foi anunciado o início, me fascinei vendo os olhinhos brilhando diante de cada nova atração.

Após a primeira saída de cena do palhaço, personagem mais aguardada pelo nosso caçula, Rafael, minha esposa Claudia, ao perceber o choro sentimental do menino, teve que explicar-lhe ao pé do ouvido que em breve o seu artista preferido voltaria. Ele e o irmão aprenderam rapidamente a encenação dos aplausos e, diante de um mero estalar de palmas, as quatros mãos pequeninas das minhas verdadeiras obras de arte se encontravam automaticamente.

Claro que nem tudo correu tão bem no nosso passeio. Os pelos dos meus braços serviram de guardanapo para o mais novo limpar as mãos meladas de algodão-doce; e o meu mais velho, surpreendido pela música e pelo jogo de luz que criavam o suspense da possível queda do acrobata, se assustou tanto que foi acometido por uma incontinência urinária enquanto estava sentado em uma de minhas pernas. Senti a perna esquentar e o líquido escorrer por minha coxa, mas sussurrei-lhe no ouvido que não tinha problema, acidentes aconteciam a todos.

Antes de o show terminar, escutei ao longe os fogos de artifício, mas sorri intimamente, pois até aquele momento nem havia me lembrado da partida que rolava, pois a promessa cumprida havia vencido o jogo de goleada.

***

Ainda me foi possível assistir em casa ao segundo tempo. Conforme eu previra, o primeiro havia sido de arrasar: 3×3. A possibilidade de um segundo idêntico, ou próximo daquilo, fez com que eu adiasse o banho e assistisse aos quarenta e cinco minutos com uma das pernas batizada e o braço melado. No fim das contas, mesmo com toda a minha torcida contra, deu Flamengo merecidamente: 5×4. Quando ele quer, como joga aquele Dentuço!

Em seguida, tomei meu banho tranquilamente, pedindo a Deus que não escorressem na água as gratas memórias daquele dia.

Leandro Antônio Rodrigues é autor de Amor Perfeito, que sairá em breve pela KBR.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

19 comentários em “A promessa e o jogo

  • Pingback: A Promessa e o Jogo | Leandro Antônio Rodrigues

  • 22/10/2011 em 11:40
    Permalink

    Parabéns pela crônica professor!
    Tenho certeza que fará muito sucesso!

    Resposta
  • 22/10/2011 em 11:39
    Permalink

    Parabéns pela crôica professor!
    Tenho certeza que fará muito sucesso!

    Resposta
  • 21/10/2011 em 20:46
    Permalink

    Caro Mestre e Patrono
    Com grande alegria e não menos emocionado, compartilho com minha palmas este grande momento, não somente para o senhor, mas também para todos aquele que estão ao seu redor. Esta crônica me arrancou rizadas e admiração. A primeira é praxe e a segunda é mais que esperada tratando-se de Leandro Rodrigues. Saiba que seu talento, além de gerar louvores, nos impulsiona a crer que pela arte alcançamos não somente o ser humano propriamente dito, mas atingimos seus sentimentos e potências!
    Tenho orgulho de pertencer a turma Prof Me Leandro A. Rodrigues
    2009 SED- Petrópolis – RJ
    Felicidades!
    Seu eterno aluno, Cleiton Rocha.

    Resposta
  • 11/08/2011 em 09:16
    Permalink

    Caríssimo amigo e compadre

    A nossa vida é feita de escolhas e é inevitável que, vez ou outra, nos deparemos diante de situações como esta. Acredito que talvez você possa ter pensado, por um instante, em ser “dividido ao meio” naquele momento, assim poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Porém, também acredito que ter aberto mão do futebol para estar “inteiro” com a sua família tenha sido, realmente, a melhor opção. Em breve, outros jogos virão e com eles artilheiros e goleadas que nos fascinarão nos fazendo novamente torcedores satisfeitos por estarmos ali. Já a alegria de presenciar o sorriso dos nossos pequeninos e a felicidade de ter atendido aos seus anseios, é como se diz na propaganda de cartão de crédito: “Não tem preço” e também é única e irrecuperável. Deixo aqui minha profunda admiração por você e por sua trajetória e tenho a certeza que, sob as bençãos do Pai, você e sua família serão ainda muito agraciados por escolherem ser “FAMÍLIA”. Um caloroso abraço!

    Resposta
    • 11/08/2011 em 13:50
      Permalink

      Ulisses, meu amigo, ex-colega de colégio e compadre,

      Muitíssimo obrigado pelas palavras e pelo carinho de sempre!

      Resposta
  • 09/08/2011 em 16:55
    Permalink

    Parabéns pela crônica, é muito bom ver o resultado do seu trabalho professor. Fico realmente feliz com o lançamento do seu livro.
    Gostei muito da crônica, ainda mais por que foi de uma época que você lecionava para mim, tempo bom aquele.

    Um grande abraço e sucesso em sua empreitada.

    Nos encontramos em seu lançamento.

    Resposta
    • 10/08/2011 em 17:01
      Permalink

      Thiago,

      Obrigado pelo carinho de sempre!

      Resposta
  • 04/08/2011 em 19:56
    Permalink

    Parabéns pela crônica e por ter feito a escolha certa!
    Aguardo, ansiosa, o lançamento do seu livro.
    Fico feliz por você, pois admiro muito o seu trabalho.

    Um grande abraço!

    Patrícia

    Resposta
    • 05/08/2011 em 14:05
      Permalink

      Patrícia,

      Obrigado pelo carinho de sempre!

      Resposta
  • 03/08/2011 em 15:10
    Permalink

    Muito divertido profº. Leandro!

    Adorei ler o relato deste pequeno
    dilema, mas ainda bem que
    escolheste a melhor parte!!!

    Parabéns.

    Resposta
    • 03/08/2011 em 17:26
      Permalink

      Záira,

      Foi uma escolha para lá de acertada…
      Um grande abraço!

      Resposta
  • 31/07/2011 em 18:59
    Permalink

    Pois é, amigo Leandro,

    Talvez teria sido melhor você ter ido no dia seguinte. Nosso VASCO DA GAMA fez uma partida “estranha” contra o Bahia. Trinta e quatro finalizações para um único gol nos acréscimos da partida. Mas assim não teriamos essa excelente crônica. Aliás, o jogo do VASCO merece uma crônica tb.

    Estamos ansiosos pela publicação de “Amor Perfeito”.

    Parabéns!!!

    André Domingues

    Resposta
    • 03/08/2011 em 17:25
      Permalink

      André,

      Realmente! Fui uma incompetência total em relação à finalização.
      Quanto à crônica!
      É uma boa…

      Um grande abraço!

      Resposta
  • 29/07/2011 em 08:02
    Permalink

    Bela crônica querido amigo.

    É bom ler o que você escreve. Realmente foi um jogo impressionante. Como você sabe, também sou um amante do futebol e certamente elogiaria se não fosse o Flamengo. Quanto as crianças, fiquei imaginando o rostinho de cada um e sei que certamente você fez a escolha certa. No meu caso, a Jaque não estava se sentindo bem e queria ir ao hospital, mas optei em assistir o jogo. Não é que a minha escolha também foi a melhor, pois qualquer dor se torna suportável diante de um jogo como aquele…rsrsrs no dia seguinte ela foi no médico e já está bem melhor……..Graças a Deus!

    Não vejo a hora de ler o seu romance!
    Parabéns!
    Fábio
    Seu grande amigo!

    Resposta
  • 29/07/2011 em 07:52
    Permalink

    Exercício nº 1

    No texto acima, existe alguns erros. Abaixo, nos espaços pontilhados escreva a forma correta.

    Obs.: Resposta correta no final do texto.

    Bela crônica amigo Leandro.
    De fato, melhor é atender a um pedido dos rebentos do que desperdiçar nossa valiosa torcida para um time que, embora tenha feito um jogo bom
    1 – (…………………………………………………………………………………………..), ………………………….., apesar das estrelas que ali desfilam, 2 – …………………………………………………(libertadores 2010 realmente será complicado rsrsrs (desculpe, mas meu coração 3 – …………………… nessas horas fala mais alto e não consigo perder a oportunidade de enaltecer nossa valiosa conquista).
    Ansioso pelo lançamento do seu livro, me despeço parabenizando-o mais uma vez pela crônica.

    Resposta 1 – pois certamente supera em dobro a finalíssima da Copa Mercosul de 2011

    Resposta 2 – certamente consiguirá uma vaga para a libertadores 2012 sendo campeão do brasileirão.

    Resposta 3 – flamenguista

    rsrsrsrsrsrsrsrs…….vou enviar outra resposta……..

    Resposta
  • 28/07/2011 em 19:02
    Permalink

    Bela crônica amigo Leandro.
    De fato, melhor é atender a um pedido empolgado dos rebentos do que desperdiçar nossa valiosa torcida para um time que, embora tenha feito um jogo bom (pois certamente não supera nem pela metade à finalíssima da Copa Mercosul de 2000), não conseguirá, apesar das estrelas que ali desfilam, sequer uma vaga para a libertadores de 2010 (desculpe, mas meu coração vascaíno nessas horas fala mais alto e não consigo perder a oportunidade de enaltecer nossa valiosa conquista).
    Ansioso pelo lançamento de seu livro, me despeço parabenizando-o mais uma vez pela crônica.

    Resposta

Deixe você também o seu comentário