A primeira tarde de um homem

Justin Bieber and Selena Gomez enjoy an afternoon stroll along the Santa Monica Pier.Eu saía de casa sempre no mesmo horário. Após o café, pegava a pasta com os livros e cadernos e ia para a escola. Demorava em torno de trinta minutos para chegar ao meu destino, e sabia que o porteiro do colégio era rigoroso: às 07h30 o portão fechava. E não adiantavam súplicas ou lamentos. Osório, este era o nome do fiel servidor, tinha orgulho de sua função e de seu rigor com o horário. Todos os dias se postava ao lado do portão e recebia os alunos, que lhe mostravam as cadernetas escolares para confirmar o direito de atravessar o portal da cultura.

Nos meus pesadelos juvenis, eu sonhava que chegava às portas do céu, e apesar de ser um homem correto, me atrasara nas minhas obrigações de fazer o bem. Assim, quando chegava a minha vez de adentrar o mundo celestial, o portão divino se fechava. Acordava suado, assustado, e agradecia por estar em casa, no meu quarto, deitado em minha cama, tendo tempo para crescer e ajudar nas obras de caridade da igreja.

O certo é que, por medo ou disciplina, eu nunca me atrasava, e aquele dia não seria diferente. Assim pensava com meus botões,até vê-la do outro lado da rua. A garota era da minha idade ou um pouco mais nova, tinha os cabelos loiros e compridos, e a vi se despedindo da mãe. Seus olhos verdes, por um momento, se encontraram com os meus, e logo se desviaram. Senti como se o raio de um alienígena invasor houvesse paralisado meu corpo.

Ela começou a andar do outro lado da rua, se distanciando à minha frente.

— Pedro! Gritou minha mãe da porta de casa.

— Vai perder a aula, menino!

— Tô indo, mãe! — abaixei-me e fingi estar amarrando os cadarços de meu sapato Vulcabrás.

Ela se voltou por um instante, com o chamado de minha mãe. Olhou diretamente para mim, sorriu da minha falsa estratégia, virou o rosto e voltou a andar. Eu me levantei e a segui, alguns passos atrás. Não sabia seu nome, mas a vira no colégio e pelos comentários dos colegas soube que viera do sul de Minas. O pai era bancário, fora transferido para a capital e trouxera a família. Só não sabia ainda que aquela coisa mais linda era minha vizinha.

Eu a vira de longe na cantina, percebera sua pela branca e sua timidez, que a meus olhos só realçava sua beleza. Enquanto percorria um caminho que eu já conhecia de cor, me sentia em outro planeta. Não sentia a gravidade da Terra, não sentia os pés no chão. Não via as ruas, os carros, nada. Tudo parecia deserto, só havíamos nós, eu e ela no planeta. Ela ainda não sabia, eu também não, mas estava apaixonado.

Enquanto meu pensamento vagava, percebi lentamente a realidade que me envolvia retornar. Os muros do colégio surgiram de repente  à minha frente. Despertei de meu sonho, olhei o relógio e vi as horas: 07h29.

Corri em direção ao portão, bem a tempo de vê-la passar e o velho Osório devolver sua carteira de admissão. Quando fiz um movimento na mesma direção, ouvi a voz e a fala tão temida:

— Está atrasado, menino, não pode entrar! Agora só no segundo horário!

— Mas seu Osório! O portão ainda está aberto!

—  Estava! — disse isso e foi fechando sem cerimônia a entrada do colégio.

— Seu Osório!
— Deixa entrar! — uma voz doce de menina intercedia por mim.

Era ela!

— Não, Sandra! Você é nova no colégio, mas o Pedro já estuda aqui há muitos anos e sabe que nosso horário tem que ser respeitado.

Lentamente, vi sua imagem desaparecer enquanto o portão marrom ocupava seu espaço. Antes disso nossos olhares se encontraram novamente, ela sorriu e ergueu as mãos mostrando sua impotência diante da disciplina escolar. Eu sorri de volta e encolhi os ombros, mostrando que podia suportar o fato.

Naquele dia entrei no colégio no segundo horário. Minha mãe me colocou de castigo, sem televisão por um dia. Tive uma anotação, em carimbo vermelho, na caderneta escolar: ATRASADO.

Quando a aula terminou, esperei Sandra na saída do colégio e lhe perguntei:

— Posso voltar com você?

Ela disse que sim. No meio do caminho, encostei minha mão na dela, ela não a afastou. Eu a segurei, senti seu calor. E me senti feliz.

 

 

6 comentários em “A primeira tarde de um homem

  • 08/03/2013 em 17:20
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    Fico feliz ,com o “gosto” que voce teve com ela!

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  • 07/03/2013 em 15:50
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    acabei de comer queijo com goiabada…tudo da Goia, nao tem o mesmo sabor da Cica…ou e’ meu paladar, com certeza….mas sua poesia em forma de cronica foi maravilhosa….ajudou a amaciar o sabor….

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  • 06/03/2013 em 19:07
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    Bons tempos, que acreditava que a Lua é feita de Queijo e com sorte com um pouquinho de goiabada!

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    • 08/03/2013 em 17:19
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      Verdade,é difícil acreditar que não seja verdade!

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