A mulata do Cine Vitória

por Antonio Ernesto

 

Sempre que ia para a casa de sua Tia Alice, pegava o ônibus da linha 184, Central-Laranjeiras, e ao passar pela Cinelândia percebia as meninas de vida fácil flanando, sem vergonhas da vida. Sabia que ofereciam seus corpos a quem tivesse dinheiro para pagar. Várias vezes pegou o ônibus decidido a descer no primeiro ponto após a Rua Evaristo da Veiga e contratar os serviços de uma daquelas profissionais. Uma vez chegou até a desembarcar, encorajado por sua libido que chacoalhava irrequieta no liquidificador dos hormônios púberes. Mas a timidez virgem, mal disfarçada por trás do rosto castigado pela acne, o colocou no coletivo que vinha logo atrás, sem que conseguisse qualquer contato com a prostituta.

Uma em especial lhe chamava a atenção. Ficava sempre em frente ao extinto Cine Vitória, no número 45 da Rua Senador Dantas, ao lado de uma floricultura. Era uma mulata de quadris descomunais, e se destacava das outras meretrizes por estar em uma faixa etária um pouco mais próxima à dele. Devia contar uns 30 anos, enquanto as outras pareciam bem mais velhas e gastas. Afinal, 30 era apenas um pouco mais do que o dobro da idade dele.

Depois de várias tentativas e outras tantas desistências, em uma tarde morna de verão encheu-se novamente de coragem, desceu do ônibus e foi em direção àquela mulata que bem poderia ser uma personagem do Lan.

Quando chegou perto da mulher, ela atravessou sua alma com um olhar tão assustador que petrificou seu maxilar e todo o resto do corpo. Só conseguiu grunhir entre os dentes um cumprimento, , na verdade, já queria ser uma despedida. A mulata retribuiu.

Oi, bebê. E aí? Vamos?

Ele não sabia o que era pior: ter sido chamado de “bebê” ou a falta de rodeios com que a mulher havia entrado no assunto. Automaticamente, fez com a cabeça que sim. Assim, mais de perto, pôde ver que a mulata era realmente uma mulher bonita. Devia ter uma grande clientela, pensou. Ela o convidou a segui-la e saiu andando na direção do Passeio Público, onde ficava a loja de departamentos Mesbla. No caminho, informou o preço dos seus serviços.

Após um cálculo rápido do que tinha nos bolsos, ele concordou mecanicamente. Tentou travar algum diálogo durante a caminhada, que começava a durar uma eternidade, mas o assunto havia desaparecido em um passe de mágica deixando em seu lugar apenas uma dose cavalar de ansiedade, um pavor de ser visto por alguém conhecido.

Um pouco antes do Teatro Serrador, ao lado de uma sapataria, aquela bunda imensa entrou em um corredor estreito que levava os sorrateiros a um prédio com várias salas comerciais. Na entrada, a mulata foi cumprimentada pelo porteiro com um sorriso maroto que, por pouco, não fez o cliente estreante disparar numa correria envergonhada, que só pararia na Praça Tiradentes, onde poderia pegar a condução para casa. Pensou consigo mesmo: É agora ou nunca. Não tem mais volta. Chegou a ofender-se mentalmente: Deixa de ser covarde, seu mariquinha, filhinho de mamãe.

Subiram dois lances de escada. Tentava acalmar a respiração. A mulher parou em frente a uma das várias portas do extenso corredor e tocou a campainha.

Pensou: É melhor voltar outro dia. Mas antes que pudesse externar sua hesitação e inventar alguma desculpa para descer os degraus por onde subira, a porta se abriu e revelou um velho de cabelos grisalhos, barba por fazer e dentes amarelados de nicotina. Sem disfarçar o mau humor, que parecia saltar de seu semblante, o velho se afastou para que o casal entrasse e fechou a porta nas suas costas.

Agora já era, pensou, enquanto vasculhava o lugar com seu olhar tímido, procurando uma alternativa de fuga que não fosse a porta fechada pelo homem de aparência suja. A mulata o pegou pela mão e o levou a um corredor iluminado por uma luz fraca e vermelha, onde havia vários biombos separados por folhas finas de compensado que escondiam suas intimidades através de cortinas, também finas, de um estampado de gosto duvidoso. De um deles vinham gemidos de alguma trabalhadora da empresa. Parecia estar se esforçando em cumprir bem o seu dever, aumentar a produtividade, atingir as metas.

Achou que seu coração havia parado, ou batia tão forte que não dava pra sentir o seu bater. Sua acompanhante afastou com a mão uma das cortinas, revelando um pequeno quadrilátero com uma maca de hospital, forrada com um lençol puído que um dia devia ter sido branco. Não havia janela. Nem pular por uma era possível.

Vai tirando a roupa, bebê, que eu já venho.

A mulher saiu e o frio que estava na sua barriga fugiu para a espinha dorsal, voltou para a barriga e se alojou nos pés quando ele tirou os sapatos. Só de cuecas, sentou-se na maca, que era alta e deixou suas pernas suspensas no ar. Lembrou-se das vezes em que tinha estado num hospital e do pavor que tinha de injeção.

Não. Não podia pensar nisso agora. Tentou mentalizar os “catecismos” em quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro, que algumas vezes haviam caído de uma de suas mãos enquanto a outra ficava ocupada. Nada dava certo. Não conseguia se acalmar. Pensou em pedir ajuda a Deus, mas lembrou que aquilo não era assunto para ser levado às esferas divinas. Com certeza o Criador iria se aborrecer, e aí é que nada daria certo mesmo.

É bom lembrar que eram tempos em que não havia AIDS. Já ouvira falar em Camisa de Vênus, sabia como era usada e que servia para evitar a gonorreia e a gravidez, mas nunca tinha visto uma de perto.  Palavra feia essa tal de gonorreia, pensou. Talvez devesse ter trazido uma camisinha. É isso, boa desculpa: falo pra ela que vou comprar uma camisinha e não volto mais.

Ainda nem tinha arquitetado totalmente o plano de fuga quando a mulata entrou no cubículo. Não estava sem roupa. Trazia apenas uma toalha, uma pequena bacia e uma garrafa de álcool nas mãos.

— Pode deitar, bebê.

Se esticou na maca como se fosse um defunto no necrotério.

— Você tá nervoso? — a mulata fez essa pergunta de resposta óbvia enquanto levava as cuecas do garoto até os joelhos, revelando suas partes intimas e todo o seu desconforto com aquele momento.

— Vamos dar uma limpezinha nele?

Não dava pra responder nada. “Ele”, a essa altura do campeonato, já havia sumido em meio à vegetação de seu púbis imaculado. Havia abandonado o campo de batalha como um desertor covarde deixando-o desarmado diante da fera sanguinária. Foi quando as primeiras gotas do álcool o banharam, gelando tudo o que, por milagre, pudesse ainda não estar gelado. Deu um pulo da maca como um moribundo reanimado por um desfibrilador.

Enquanto se recompunha e vestia suas calças, recorreu ao seu dom de bom contador de histórias. Disse que uma antiga namorada havia feito macumba pra ele.  A mulata se mostrou compreensiva e até recomendou um pai-de-santo seu conhecido, que poderia desfazer o trabalho. A compreensão não foi suficiente para não cobrar o cachê acertado previamente.

Ele entregou as cédulas e desceu as escadas, arrasado e aliviado ao mesmo tempo. Encontrou novamente na saída o sorriso malicioso do porteiro, mas dessa vez retribuiu na mesma moeda, como quem, triunfante, havia desfrutado plenamente de tudo o que aquele corpo de aluguel podia oferecer. Aquela satisfação mentirosa, jogada na cara do porteiro, foi um gol de honra, marcado aos 45 do segundo tempo. Mas não evitou a sua derrota por goleada.

Alguns meses depois, a mulata desapareceu para sempre do seu ponto tradicional. Nunca mais a viu por lá. Sempre a procurava através do vidro da janela do 184, Central-Laranjeiras. Mas ela tinha sumido, sem chance de revanche. Talvez tivesse mudado de empresa ou se casado com um cliente rico e apaixonado.

Caminhando para a casa de sua Tia Alice, deixou escapar pelo canto dos lábios um pedaço daquele mesmo sorriso que trocara com o porteiro. Imaginou sua vergonha se essa história vazasse para alguns de seus amigos. Finalmente, depois de muito sofrimento, conseguiu fazer o fiasco parecer engraçado, amenizado pela ação do tempo e protegido pelo segredo de sua memória.

 

 

Antonio Ernesto é escritor, roteirista e diretor de cinema e TV. Aos 16 anos escreveu sua primeira peça teatral, “A Causa dos Rebeldes”. À frente da Cinemix Produções roteirizou e dirigiu programas de TV, vídeos publicitários, filmes institucionais e documentários como “Orquestra Tabajara”, “Sacolão – Loucos por Futebol” e “ Não Quero Falar da Chacina”, todos exibidos pelo Canal Brasil – Globosat. Seu primeiro romance, Sacudindo o pó da estrada, será lançado em 2013 pela KBR.

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “A mulata do Cine Vitória

  • 26/06/2012 em 22:08
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    Obrigado Priscia pelo carinho…
    Grande Bukowski…é exatamente isso Manuel
    Grande abraço
    Fiquem na Paz

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  • 25/06/2012 em 14:37
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    Adorei sua crônica.Leve, interessante. Um caso muito bem contado.
    Parabéns

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  • 23/06/2012 em 20:28
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    Bons tempos aqueles…. Juventude que não voltara…. Umas se perdem outras se ganham!
    Me lembra….

    – Querida, vamos trepar?
    – Não quero.
    – De certa forma, eu também não queria. Aliás, foi por isso que perguntei.
    Charles Bukowski

    JA JA JA JA

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