A morte veste azul

diamante hope tamaño naturalAs brumas da morte alastravam-se pelas estepes da Rússia. Era final de tarde, no horizonte o sol baixo irradiava seus últimos raios iridescentes sobre a neve. Os animais refugiados em suas tocas aguardavam a noite chegar.

Jean-Baptiste Tavernier, intruso nessas paragens, não sentia mais suas pernas; o frio tinha tomado conta de seu corpo, sabia que a morte estava próxima. O delírio, consolo dos deuses, iluminava seus olhos, entre sons de melodias distantes de palacianos lugares; gemas preciosas de tons maravilhosos ofuscaram seu sofrimento. Sorriso… Talvez tenha valido a pena, estive alguns anos no topo do mundo, reis e rainhas  renderam-se à magia das gemas únicas que levei aos reinos da Europa. Agora, somente alguns predadores esperavam à distância, esperando que seu corpo deixasse de respirar para devorá-lo.

O maior de seus tesouros tinha sido arrancado por saqueadores da cabeça de um ídolo em honra da deusa hindu Sitã; em sua avidez de riqueza e glória, tinha comprado a joia divina e perpetrado um sacrilégio. Algumas semanas depois, o grupo de ladrões foi queimado vivo pelos seguidores do culto.

O hálito de um animal na sua cabeça, enviado pelas hostes carnívoras para verificar se ainda respirava, o acordou subitamente de seus sonhos de morte. Seu grito, ou talvez último estertor, afugentou seus algozes por mais alguns minutos ou horas .

Lembrou-se de como havia pegado com suas duas mãos aquela pedra de formato triangular e 115 quilates, única no mundo, sagrada e perfeita. Em seu retorno à Europa, o medo de ser assaltado ou perdê-la lhe tirou o sono e a paz espiritual, que nunca mais conheceria. Ao chegar à França teve um encontro com seu primeiro comprador: Luís XIV, no ano de nosso senhor de 1668. O artesão real da corte, Sieur Pitau, o cortou, gerando uma joia real de 67 quilates: o “Diamante Azul da Coroa”.

A sorte abandona os ladrões em seu último suspiro, e os animais do gelo, famintos, iniciaram seu banquete nauseabundo antes mesmo de ele exalar seu último suspiro: suas carnes foram mordidas, dilaceradas e engolidas, dando início a uma das maldições mais trágicas e sangrentas da história: “a maldição do Diamante Hope”. Uma série de acontecimentos horrendos se seguiram: roubos, enforcamentos, traições… Uma saga com provas que desafia a ciência e aqueles pobres mortais que, em sua ignorância, não acreditam em deuses e deusas vingativos! Confiram por vocês mesmos na cronologia da gema azul, abaixo, em vermelho :

Lista de adquirentes
1. Jean-Baptiste Tavernier (1689): morto de frio e devorado por animais;
2. Nicolás Fouquet (1680): morre na prisão;
3. Luis XIV (1715); gangrena;
4. Princesa de Lamballe (1792): linchada;
5. Luis XVI y María Antonieta (1793); decapitados;
6. Catalina la Grande (1796): apoplexia/infarto;
7. Wilhelm Fals; assassinado por seu filho Hendrik;
8. Hendrik Fals (1830): suicídio;
9. Jorge IV (1830): loucura;
10. Francis Beaulieu: morto de fome;
11. Henry Philip Hope (1839);
12. Henry Thomas Hope (1862);
13. Jacques Colot (1904): suicídio por problemas mentais;
14. Lorens Ladue: assassinada por seu amante Iván Kanitowski;
15. Príncipe Iván Kanitowski: assassinado por revolucionários;
16. Subaya Hamid (1908): assassinada por seu esposo;
17. Abdul Hamid II: deposto em 1909 pela sublevação militar dos jovens turcos;
18. Simón Montarides e família: sua carruagem despenca por um precipício;
19. Vincent McLean (1938): morreu atropelado;
20. Ned McLean (1941): loucura;
21. Elizabeth McLean (1946): overdose;
22. Evalyn Walsh McLean (1947): overdose de morfina;
23. Harry Winston (1958): ataque do coração, medo.

Seu último dono, Harry Winston, que adquirira a joia em 1958 e a enviara pelo correio ao Smithsonian Institut  (USA), sofria de uma fobia que começou após a aquisição do tesouro maldito.

Ao terminar de escrever, fiquei gelado quando um livro de H.P. Lovecraft, O Jardim, despencou da estante e se abriu justamente na página que transcrevo a seguir :

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho / sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho; / onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram; / e as paredes e as colunas são ideias que passaram. / Crescem heras por entre as fendas, e o matagal desgrenhado / sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado. / Pelas aleias silenciosas vê-se a erva esparsa brotar, / e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar. / Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor, / e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor. / E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade / de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade. / A visão de dias idos em mim ressurge e demora, / quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora. / E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são / minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração. H.P.L

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