A montanha quase mágica

O anoitecer chegou tranquilo, o sol desceu atrás da Serra da canastra, sem pressa, mas com determinação. O céu se tornou vermelho, laranja e amarelo sem nenhum pudor, parecia se divertir trocando de matiz e colorindo o infinito, aleatoriamente. Os pássaros cantaram com gosto, deixando no ar seu último trinado antes do adormecer.

A casa branca e pequena se destacava na paisagem lunar que a envolvia. O manto da noite desceu lentamente sobre a paisagem mineira. As montanhas de Minas nessa região tomam a dimensão do irreal, tudo é espaço e beleza.

Na casa, o jovem casal, Pedro e Cláudia, ajudava-se mutuamente no preparo do jantar. No chão da sala, que juntamente com os dois quartos, a cozinha e o banheiro abrigava aquela jovem família, a filha do casal se divertia em jogar uma bolinha para Gaia pegar. A cachorra se divertia mais do que a menina com a brincadeira. Corria atrás da bolinha vermelha em disparada, e a trazia na boca até os pés de Thais, que, na alegria de seus 3 anos, se divertia na função.

Pedro, o pai, era biólogo. Cláudia, a mãe da criança, fisioterapeuta. Morar nas montanhas sempre fora o sonho dos dois, e há mais ou menos um ano haviam realizado aquilo que muitos imaginavam se tratar de apenas um desejo. Juntaram as economias e construíram uma casa no terreno que era da família de Pedro há vários anos. Enquanto Thais crescia e brincava sem pressa ,o casal formatava e construía uma pousada ecológica. O terreno ao lado da casa já havia sido limpo e o local dos cinco chalés já estava demarcado.

Olhando a filha se divertindo e vendo a mesma alegria no olhar da esposa, Pedro se sentia feliz por ter feito o movimento que muitos acharam uma loucura. Mas o tempo e o esforço mostravam o resultado daquilo que para muitos era uma aventura. Pensando assim, se virou para ajudar a mulher.

Gaia, no intervalo entre uma corrida e outra, sentiu a presença de um convidado. Em frente à casa, enquanto Giselda,Marli e Efigênia ciscavam o chão, um lobo guará se aproximava, silenciosamente, mas com determinação, em direção ao alimento.
Gaia sentiu seu cheiro antes que o pudesse ver, e correu para a porta em direção ao pátio. O que ela viu não lhe causou apreensão; o cachorro grande, magro e esbelto, era bonito, e ela, alegremente abanando o rabo, correu em sua direção para lhe dar as boas-vindas.

A criança, vendo a cadela esquecer a brincadeira, avisou a mãe, chorando:

— Mamãe! Gaia não quer mais brincar !

A mãe, entretida com a função, respondeu sem olhar para trás:

— Não se preocupe, querida! Ela só foi ver as galinhas e já volta!

Na verdade, Gaia adorava as aves, mas não fora o que a atraíra para fora. O lobo não tinha olhos para nada; sentiu o cheiro das galinhas e seus instintos fizeram o resto. Sem perceber a chegada da cachorra, acelerou o passo em direção ao seu jantar. Seu pelo vermelho-alaranjado se destacava contra o verde da vegetação, e a lua cheia, que brilhava no alto, destacava sua figura, delgada, mas musculosa, que acelerava o passo decidida.

Animal considerado um dos maiores predadores da região, não tinha muito contato com os homens; assim, não havia aprendido a temê-lo, sabia apenas que diante de si havia alimento e estava determinado a alcançá-lo. Gaia, por sua vez, estava feliz! Naturalmente social, correu em direção ao novo amigo. Nesse momento, Pedro se virou, viu a cena e gritou:

— Gaia!

A cachorra parou com o som do seu nome; o lobo percebeu a presença da cadela e as galinhas perceberam a presença do lobo. Como num balé estilizado, tudo ocorreu ao mesmo tempo, e a correria se estabeleceu de forma confusa e desnorteada.

A mãe segurou a criança e viu o marido correr em direção ao pátio; ao mesmo tempo, as galinhas correram na direção oposta, atrás delas o lobo, que não queria perder o jantar, e em direção a ele a cachorra forçando amizade. De repente, o lobo parou um instante, tentando compreender a situação. Pedro avistou o animal e viu a cadela, parada por sua vez, abanando o rabo, esperando a chegada do novo amigo. Sem saber o que fazer, pôs as duas mãos em frente à boca e latiu:

— Auf! Auf! Auf!

Sem nunca ter tido uma arma em suas mãos, e sem jamais querer ter uma, uma vez que era contra seus princípios ecológicos, Pedro era uma pessoa de paz. O homem acreditava que a natureza, e aqueles que nela se encontram ,se respeitam e não se agridem sem motivo. Diante do inusitado, agiu sem pensar e latiu, ou tentou fazê-lo. Um som grosso e distorcido encheu a noite. O lobo parou, levantou as orelhas e viu aquele estranho animal vir correndo em sua direção. Sem saber o que fazer, deu meia volta e retornou na direção oposta àquele, que, emitindo o estranho som, corria em seu encalço.

Gaia corria à sua frente atrás do novo amigo, gostando da brincadeira. Pedro, agora com algumas pedras que apanhara na corrida, gritava na direção do predador e da louca cadela:

— Gaia, sua cachorra maluca! Volta! Não é um cão! É um lobo!

Os dois corriam na noite atrás do lobo, e o lobo corria para longe dos dois, atrás da tranquilidade da qual já sentia saudade.
Cláudia, parada na porta, acompanhava os últimos acontecimentos. Juntando as galinhas aterrorizadas no galinheiro, se lembrou da cena. Vira o lobo alaranjado fugir, com a cachorra e o marido em seu encalço. O vento frio desmanchou seu cabelo, e enquanto tirava a mecha que caíra sobre seus olhos, buscava na noite seus protetores. Passaram-se alguns minutos, até que, aliviada, viu o marido retornar trazendo a cachorra presa nos braços.
O suor pingava do rosto do amado, rosto que Gaia, feliz com a brincadeira, insistia em lamber.

— Era um Guará! — decretou o homem. — Dos grandes, media mais de 1,30 de altura e deve pesar uns trinta quilos.

A notícia não tranquilizou a esposa, que sentiu um arrepio que não era de frio. Abraçou a filha contra o peito e perguntou:

— Meu Deus! Você está bem?

— Estou! Gaia é que ficou triste por ter perdido um novo amigo! — respondeu o marido, rindo para tranquilizar a esposa.

— E que história é aquela de sair latindo feito um louco! Você nem cachorro é! — respondeu de volta a companheira, já refeita do susto inicial e brincando de volta com o acontecido.

Pedro, ainda rindo, retrucou:

— Quem não tem Gaia, late com Pedro!

Riram juntos da situação, e o jovem casal se abraçou. O pai beijou a filha, a filha pediu para descer e correu pelo chão, a cadela satisfeita se desvencilhou do dono e correu em sua direção. Lá ao longe, se ouviu um som. Um uivo de um lobo rasgou a escuridão, um uivo triste. Na noite, nos trouxe sua solidão.

 

 

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