A Montanha Mágica

— João, acorde! — Parecia um sonho, mas devia ser realidade.

Com dificuldade, o garoto abriu os olhos. Viu outros, carinhosos, pertos dos seus. Eram os de sua mãe. Ela passou a mão delicadamente nos cabelos dele e lhe deu um beijo na testa. Apesar da manhã fria, o menino se sentiu aquecido. Levantou o corpo apoiado nos cotovelos, viu a mãe sair do quarto, ajeitou o corpo, assentou-se, virou-se para o lado. As pernas penderam livremente, sem ainda encontrar o chão. Sentiu algo frio encostando em seu pé; assustou-se por um momento, mas reconheceu o nariz:

— Ralf!

O cão saiu de baixo de sua cama já com o rabo abanando. Encostou a cabeça no colo do menino e esperou o afago. O garoto riu do companheiro e lhe coçou as orelhas. Saltou do leito, agora mais disposto. Trocou de roupa e foi para a sala, seguido pelo amigo.

Sobre a mesa, o bule de café, os biscoitos de forno e o pão recém-assado acabaram de despertá-lo. Sentou-se no lugar de costume e sentiu algo tocar sua perna. Ralf trouxera sua vasilha e a segurava com os dentes. João riu, como fazia todas as manhãs. Tomou o recipiente do cachorro, lançou nele dois biscoitos dos grandes e um pedaço de pão, molhou com leite de ovelha o conteúdo e abaixou-se para pôr o pratinho no chão. O animal acompanhava com os olhos os preparativos que, com cuidado, o menino levava a cabo. Assim que a vasilha tocou o chão, começou com tranquilidade a comer.

— João, você estraga este bicho!

A voz da mãe soava como recriminação, mas, acompanhada de um sorriso, dava ao menino a certeza da cumplicidade familiar. A casa, feita de madeira, era consistente, e o velho aquecedor de ferro aquecia o ambiente. Apesar de pequena, mostrava o apreço com que fora construída. Tinha apenas dois quartos, um único banheiro e uma cozinha que fazia a função de sala de jantar e de visitas — era a parte mais ampla da casa, e na limpeza dos cômodos se mostrava o cuidado e zelo da dona.

O sol bateu no costado daquele lar, devagar, invadindo o ambiente através da janela e dos vidros, ainda embaçados pelo frio da Serra Gaúcha. Enquanto João terminava o café, sua mãe preparava o pequeno lanche para o pai. Era tarefa do menino levar o almoço àquele a quem tanto admirava.

O pai já acordara duas horas antes e partira com as ovelhas em direção à pastagem ao sul de sua morada. João iria encontrá-lo e ficaria em seu lugar, até o pai trazer os cordeiros de volta ao curral que ficava ao lado da casa. Os pequenos eram de difícil manejo, e só com a experiência do pai e a ajuda de Lady, sua cadela, era possível realizar a tarefa de colocá-los no cercado. No total, o rebanho se compunha de 100 animais, entre ovelhas, cordeiros e um carneiro, todos da raça Merino Australiano, animais puros, próprios para a produção de lã.

Lady era mãe de Ralf, e ajudava o pai de João há mais de dez anos. Enquanto pensava na vivacidade da cadela, João caminhava com o amigo em direção ao sul. O cão, uma mistura de Bernese Montagne e pastor alemão, o acompanhava alegre. Apesar do tamanho (pesava em torno de 50 quilos), era delicado com o garoto. A mãe, de quem o filhote herdara o pelo tricolor, a robustez e músculos, era Bernese; do pai, Ralf recebera a inteligência e o senso de guarda e responsabilidade: fora selecionado pelo criador de ovelhas na hora de vender os outros filhotes, e se mostrara uma excelente escolha. Enquanto o menino desaparecia no horizonte com seu animal, a mãe, na varanda, permanecia tranquila. João tinha apenas 9 anos, mas o cão tinha por ele verdadeira adoração e o protegeria com a própria vida.

O garoto caminhava com determinação; levava embrulhado em um pano o almoço prometido. Depois de mais ou menos uma hora de jornada, avistou, no alto de uma colina, a nuvem branca do rebanho envolvendo seu cume. Deu um assovio, colocando os dois dedos na boca. Um latido se seguiu: do outro lado a resposta veio, imediata.

— Vai, Ralf!

O cão não esperou outra ordem e disparou como uma flecha em direção à mãe, que desceu em direção contrária, ao seu encontro. O pai do menino surgiu, devagar, atrás da cadela. Os dois cães se encontraram no meio do caminho e pularam um no outro como se fossem dois filhotes pequenos. O garoto se aproximou do pai e o abraçou:

— A mãe mandou para o senhor!

— Obrigado, filho! — Passou o braço nos ombros do menino e ambos se voltaram para onde estava o rebanho.

— Lady, Ralf! Chega! — A voz forte do pai se dirigiu aos cães. Como se uma mão invisível os contivesse, os animais diminuíram a euforia e seguiram atrás do homem e do menino.

O pastor sentou-se em uma pedra, já gasta pelo uso, com o garoto a seus pés. Enquanto o pai almoçava, Lady se dirigiu ao seu posto de vigília, no lugar mais alto do terreno, com o filho ao lado. Após o repasto, o pai se levantou. Sem dizer nada e por meio de assovios comandou os cães na tarefa planejada. Em pouco tempo os cordeiros foram separados das mães para que essas pudessem descansar e se refazer da função materna.

— João! Agora é com você! — Disse isso e desceu devagar com os cordeiros em direção contrária à que o garoto viera.

O menino assumiu o posto, sentou-se na pedra antes ocupada pelo pai e vigiou o rebanho. A essas alturas, Ralf já executava sua função, juntando uma ovelha desgarrada que se achara dona do próprio destino. Em pouco tempo, o barulho dos balidos de mães e filhos foi diminuindo, conforme aumentava a distância entre eles. O silêncio chegou sem pressa e se deixou ficar. Algumas reses se deitaram, outras começaram a pastar tranquilamente. O garoto contemplava os animais e sonhava; olhou para o céu, sentiu a brisa no rosto e fechou os olhos.

— Acorda, meu filho! Já está na hora da aula!

O pequeno abriu os olhos devagar: estava no seu quarto e a mãe o olhava com um sorriso curioso.

— Vamos, menino, já são 7 horas!

Levantou-se devagar. O barulho da cidade grande despertando o trouxe de volta à realidade, que entrava sem cerimônia pela janela do apartamento. Caído ao chão, o livro mostrava na capa um garoto e um cão. O menino suspirou fundo, pegou o pequeno tesouro, marcou a página e se levantou para começar mais um dia.

 

 

5 comentários em “A Montanha Mágica

  • 18/05/2012 em 11:43
    Permalink

    Ah que pena que era um sonho ! Mas linda história…

    Abs,

    Cris

    Resposta
  • 18/05/2012 em 11:41
    Permalink

    Ah que pena que era um sonho ! Mais linda história…

    Abs,

    Cris

    Resposta
  • 17/05/2012 em 21:44
    Permalink

    Achei o tempo todo que era a vida dele de verdade…
    De qualquer jeito foi um bom sonho.
    Paz!

    Resposta

Deixe você também o seu comentário