À moda da casa

Naquela quarta-feira que parecia ter apenas dezesseis horas ela corria pra lá e pra cá para dar conta dos papéis que lhe cabiam. Entre eles, o de dona de casa, função que realmente execrava por causa do trabalho duro que exigia, das longas horas que rendia e da sua pouca paciência em lidar com o exercício repetido dia após dia.

Quando era criança ela nunca brincava de casinha. Preferia imaginar sua boneca Suzy como uma mulher independente e que vivia “fora”, trabalhando muito. Interessante que ao crescer acabou manifestando na própria realidade a da boneca preferida. Algo que certamente despertaria boas indagações no divã de um analista, mas que passou batido nas sessões de terapia que ela buscou, na esperança de entender seus porquês e ser mais feliz. E assim ela viveu por longos anos: como uma profissional bem-sucedida, até o dia em que abandonou tudo pela busca do amor.

Limpar, lavar, passar… Naquela rotina de malabarista ela tinha que se manter em equilíbrio para não perder a paciência. Mas quanto mais olhava em volta, procurando dar jeito na casa, mais comprovava que para coçar e encontrar o que limpar, basta apenas começar.
A certa altura, sentindo-se não apenas cansada, mas emburrada, entediada, usurpada do tempo em que poderia estar escrevendo, ela começou a pensar se não havia um jeito melhor de lidar com sua situação. E foi ali, na pia da cozinha, lavando os pratos que a aguardavam desde o café da manhã, que teve o vislumbre de que poderia se divertir com tudo se simplesmente brincasse de ser robô.

Que alívio, que delícia, que idéia espetacular! Robô não pensa, não faz julgamentos e nem olha para as horas com urgência ou sofrimento. Robô não se “vitimiza” ou lamenta por não poder pagar o trabalho de uma faxineira profissional.

De pessoa que sempre fora servida, ela agora experimentava o que era servir. Compreendia que era o modo divino de fazê-la aprender a praticar o amor, a humildade e a doação. Então logo imaginou que o marido chegaria do trabalho faminto e querendo atenção, tratando de encerrar sua diária colocando no fogo uma panela com arroz. Feito isso, foi correndo brincar no computador, onde finalmente poderia se deliciar com o texto que a esperava para ser escrito.

Quando o marido chegou bem mais tarde da noite, desanimado e sem forças até para contar sobre o próprio dia repleto de aporrinhações, o cheiro de arroz queimado ainda empesteava a casa. Querendo saber o que tinha acontecido, ele quase passou mal ao ouvi-la contar, tim tim por tim tim, sobre como havia se transformado em um robô, afirmando que o início de incêndio tinha sido obra do distraído.

— Bendito arroz queimado, bendito seja! — dizia ele, abraçando-a com força. Entre lágrimas que escorriam no rosto e gargalhadas que faziam lhe doer a barriga, o homem agradecia aos céus pelo hilário daquela ceia de amor, servida bem à moda da casa.

 

Um comentário em “À moda da casa

  • 17/09/2011 em 11:27
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    Criamos tantas modernidades e para operar todas elas temos de nos transformar em robôts! Parabéns Ethel. Sua crônica nos leva a profundas digações sobre o que vale ou não a pena fazer. beijo grande

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