A moça na janela

A tarde caía devagar sobre o dia, como uma folha de outono que se desprende, sem pressa de chegar ao solo. O último sabiá, antes de partir para Pasárgada, cantou no alto da palmeira que se avistava da janela da fazenda onde, recostada, de costas para o mundo, uma jovem lia uma carta.

Com o entardecer, um vento frio se insinuou por uma fresta, adentrando o ambiente. Apesar do xale negro que lhe protegia as costas, ela levou aos lábios parte do tecido, escondendo a boca.
Com os olhos fixos na missiva em suas mãos, não sentia o frio, mas a tristeza do entardecer envolvê-la lentamente, trazida quem sabe pela noite que já se avizinhava.

Seus cabelos negros emolduravam-lhe o rosto delicado. Como ornamento, somente um brinco, no qual se sobressaía um pingente com uma pedra preciosa. Sua tez clara, ressaltada pela palidez que a acometia, só a fazia mais bela e delicada. Ausente das coisas da terra, não percebeu a mãe se aproximar:

— Cristina! O que te aflige, minha filha?

A moça se viu assustada com a pergunta a ela dirigida. Com sutileza, num gesto quase natural, passou a mão direita sobre a lágrima que fugia ao seu controle.

— Nada, mamãe! São só notícias! — respondeu, como se o que havia lido não a atingisse.

Dona Leopoldina se acercou da filha cuidadosamente.

— Minha filha! Sabes que tens minha atenção e meu carinho sempre prontos para te ouvir! Vamos! Diz! O que te aflige a alma?

A jovem abraçou a mãe e, deixando as lágrimas seguirem soltas sobre seu lindo rosto, respondeu:

— Ah, mãezinha! Não sei como te dizer!

A mãe a envolveu nos braços e, com delicadeza, fê-la sentar-se a seu lado, no vistoso banco de jacarandá que se encontrava junto à parede. A fazenda Santa Maria era famosa na região. Sua estrutura colonial, sólida e imponente, se destacava na paisagem rural. As paredes brancas e as janelas e portas azuis realçavam sua estrutura.

O senhor Antônio, dono e senhor daquelas terras, fazia justiça ao título de nobreza recebido há pouco do Imperador D. Pedro II. Pai de Cristina, e casado com dona Leopoldina há mais de 20 anos, era considerado o homem mais rico da região.

Na vida só tinha duas paixões: a família e o café, nessa ordem. Mandara fazer todos os móveis da fazenda em jacarandá trazido da Bahia. Sentava-se com gosto na varanda que dava para o vale à sua frente, onde havia plantações a perder de vista. Cristina era sua única filha. Viera quando ele e dona Leopoldina já não tinham mais esperanças de que um fruto de seu amor brotasse. Nascera a menina quando a mãe já contava trinta primaveras, na idade em que as mulheres eram consideradas balzaquianas, incapazes de conceber. Mas Deus lhes enviara um anjo. A criança nasceu com saúde e beleza.

— Diz, minha filha. Sabes que podes contar comigo.

A garota se encheu de coragem e lhe disse:

— Mãe, a carta é de Leopoldo! A senhora o conheceu no meu baile de 15 anos.

A mãe fez um esforço para se recordar do nome, associando-o em seguida a um rapaz de garboso porte e educação correta.

— Sim, me lembro dele. Um jovem oficial do exército, filho de um amigo de teu pai.

— Esse mesmo! Naquele dia, nos conhecemos quando eu recebia os convidados ao lado do meu pai e da senhora. Foi quando o vi pela primeira vez. Meu coração disparou quando ele segurou minha mão e os lábios dele a tocaram com respeito e delicadeza. Algo queimou dentro de mim. Não sei explicar, só sei o que senti.

— Entendo, querida! — sorriu, condescendente, a senhora, aguardando o final da história.

— Naquela mesma noite, dançamos mais de uma música. A festa tinha muitos convidados, mas parecia que só nós dois estávamos ali. Mais tarde, sem que ninguém percebesse, nos dirigimos à varanda, caminhamos em direção ao guarda-corpo e paramos no canto do passadiço, em frente à janela que dá para o meu quarto. Ele me pediu licença pela audácia e disse: “Senhora Cristina, desculpe se atrevo-me a ir além do que o bom senso sugere. Mas fui tocado por um sentimento que tomou conta de mim. Sei que posso pagar pela ousadia, mas me arrisco a dizer que meu coração se tornou um prisioneiro em suas mãos. Se, porventura, tivesse pelo menos a esperança de compartilhar um dia deste sentimento consigo, seria o homem mais feliz do mundo”. Estávamos de frente um para o outro; a senhora sabe, ele é bem mais alto do que eu, mas, tomada por uma coragem que não sei de onde tirei, olhei bem para aqueles olhos azuis que me fitavam intensamente e respondi: “Senhor Leopoldo, meu coração é invadido pelo mesmo sentimento”. Ele se aproximou de mim, abaixou-se e me beijou com delicadeza os lábios.

A moça terminou a frase, ruborizando-se, como se vivenciasse a cena novamente. A senhora da casa levantou com mansidão o rosto da filha.

— Minha filha, isso não é motivo para lágrimas ou tristeza. Apesar da ousadia do moço, entendo que o amor, quando surge, nos impulsiona e nos faz agir como se estivéssemos tomados por uma loucura, que desconhecíamos até então e que nos arrebata.

— Sim, mãezinha! — disse a filha, concordando, ainda sobressaltada. — Mas agora ele me escreve pedindo autorização para conversar com meu pai. Quer ter o direito de me fazer a corte e deseja autorização formal para assumir um compromisso de relacionamento sério entre nós.

A mãe escutou a filha, sorriu e retrucou com tranquilidade:

— Minha menina, falarei com teu pai após o jantar. Leopoldo me parece um rapaz sério e de boas intenções. Teu pai é um homem justo e bom. Acredito que ouvirá com cuidado e atenção o pedido de teu pretendente. E decidirá o melhor para você. Confia e acalma-te. Então, aguardaremos sua opinião. Enquanto isso, escreve a Leopoldo e recomenda-lhe aguardar os acontecimentos. Quando teu pai tiver tomado uma decisão, acredito que fará questão de comunicar, a ti pessoalmente e diante de teu pretendente, a resposta ao pedido que lhe é feito.

A moça olhou para mãe, como se houvesse visto um milagre. Abraçou-a e a beijou na face. E, se mostrando ainda criança, saiu correndo em direção ao próprio quarto, como se tivesse recebido uma graça num dia de oração.

A noite caía, agora, cobrindo com seu manto negro a tristeza de uma jovem que descobria o amor. A lua surgiu devagar, emprestando seu brilho ao olhar da moça, que, em silêncio, contemplava a escuridão e as estrelas que se faziam presentes. Através da janela do quarto, a menina percorreu com o olhar a varanda e se deteve um instante no local onde encontrara seu par.

Lentamente, se virou em direção ao luar. Ela viu além; via o futuro. Um sorriso maravilhoso surgiu em seus lábios; suspirou fundo e sentiu em seguida o perfume da dama da noite que enfeitava o lugar. Devagar, fechou a janela, se dirigiu a seu leito, apagou a vela que lhe fazia companhia. Fechou os olhos e continuou sonhando acordada.

 

 

5 comentários em “A moça na janela

  • 09/02/2012 em 11:27
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    Que Lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Me identifiquei neste texto. Acho que sou eu na encarnação passada, tanto que a foto é de uma garotinha Ruiva.rs

    Palavras rebuscadas, intensas, com ar de frescor. Estou suspirando até agora!
    Você foi excepcional…

    Parabéns!!!!!

    Bjs,
    Fabi

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    • 09/02/2012 em 13:51
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      Fabi
      O que acontecerá?
      Cenas quem sabe de um novo Capítulo?
      Bjo,
      Gustavo.

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      • 10/02/2012 em 09:59
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        Gostaria muito de ler a continuação dessa linda história. Então que venha o novo capítulo.rs
        Bjs,
        Fabi

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    • 08/02/2012 em 17:06
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      Oi Vera!
      Saudade de você!
      Senti falta de sua delicadeza !
      Beijo
      Gustavo

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