A maravilha que nos cerca

No domingo, seu Januário ia pela rua, no seu caminhar calmo, pensando na “morte da bezerra”, e de mão dada com o filho Júnior. O braço deu um puxão e seu Januário despertou do torpor mental.

— Que foi, Júnior? Por que me puxou, meu filho?

O menino, todo entusiasmado, apontava a copa da árvore e dizia:

— Que lindo, papai!

O pai olhava e não via o motivo da excitação. Resolveu tirar na fala o real motivo.

— Filho! Conta pro papai o que você está vendo!

— A árvore, papai! — respondeu pulando o pequeno, sorrindo de pura alegria.

Seu Januário olhou por mais um tempo, provavelmente um minuto, que lhe pereceu muitíssimo longo, e desviando o olhar já ia recomeçar a caminhada quando notou que o filho ficara para trás.

— Venha, Júnior!

O menino não saía de perto da árvore, e seus olhos brilhavam. Mesmo assim, seu Januário o pegou pela mãozinha e o forçou a caminhar. Júnior recomeçou a andar.

Ao chegarem à banca, o pai comprou o jornal e o jornaleiro perguntou a Júnior se ele queria um gibizinho, ao que o menino respondeu:

— Hoje não, seu Antônio! Vi a coisa mais linda do mundo!

— Nossa! E que coisa linda é essa? — perguntou Antônio, curioso.

— Está na árvore perto da igreja — e o menino falou com tal espontaneidade e felicidade no rosto que o jornaleiro resolveu ir conferir.

Pai e filho seguiram para casa e o assunto ficou esquecido, no enrolar cotidiano que a tudo engole.

No domingo seguinte, o jornaleiro disse para Júnior:

— Júnior! Acho que perdi a maravilha que você viu! Você num poderia me contar o que era?

— Claro, seu Antônio! Vi a árvore velhinha do lado da igreja, e ela estava com roupinha de musgo. O sol irradiava de dentro das nuvens, com os raios da manhã somente sobre ela, as gotas de seiva que dela mesmo saem brilhavam como joias — o menino suspirou e deu seguimento ao relato. — A árvore estava rezando, seu Antônio. O vento tocava ela de leve e ela parecia se inclinar para a igreja. O barulho do vento nos galhos era suave, parecia uma ladainha cantada com fervor. Nunca vou esquecer o presente da natureza, a maravilhosa reza da árvore e o banho de raios do sol que mais pareceram resposta do céu à atenção que ela dava.

Seu Antônio pensou por um momento, e colocando a mão sobre o ombro de Júnior, disse:

— Obrigado, meu filho! Você me fez lembrar como o cotidiano nos faz apagar a visão das maravilhas que nos cercam!

 

 

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2 Resultados

  1. Elenice Gomes Moreira disse:

    Maravilhoso…

  2. Marcelo disse:

    Muito bom, Ed! Muito bom.

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