A magia como ela é

Quando eu era criança, de vez em quando olhava para dentro da cozinha: ali não era local de crianças ficarem zanzando. Via entrar uma porção de comestíveis crus: frutas, verdura, carne, feijão, batatas, arroz, e continuava brincando. Mais tarde, mamãe dizia: está na mesa! E todo mundo (eu e meus irmãos) corria para pegar as melhores partes da comida pronta, fumegante, colorida, cheirosa. Hummm… eu pensava, e depois ainda tem a sobremesa!

Cresci achando que cozinhar era um ato mágico. Como se podia transformar aquelas coisas incomíveis em pratos deliciosos? De vez em quando, mamãe nos deixava fritar pastéis, que honra. Mesmo assim, cozinhar continuava um mistério para mim, assim como costurar e trabalhar — que era o que papai saía para fazer todos os dias —, coisa misteriosíssima!

Eu vivia mergulhada nas minhas fantasias: bonequinhas de papel, com nome e história de vida; eu e minhas irmãs fazíamos as vozes e desenhávamos as roupinhas; eram contos de fadas, num deles havia uma menina que vestia um vestido feito de noite, ou de mar, ai, quanta imaginação… Mas eu conseguia. Vivia num mundo mágico. Numa história, era só imaginar que seus personagens mudavam de roupa, de lugar, de ambiente… e pronto!

Ainda criança, ganhei um piano. Meus pais me incentivaram e resolvi aprender a tocar. A professora era minha vizinha do andar de cima, mais perto, impossível. Tocou a música para me mostrar, me deixou tocar as primeiras notas. Fiquei toda empolgada. Mas antes, precisava fazer exercícios, escalas… dó ré mi fá… A ideia era praticar os exercícios em casa durante a semana e na aula seguinte tocar mais um pedaço da música. Aí foi ficando chato. Era muito exercício pra tocar mais um pedacinho! Bem, terminei meu primeiro e único prelúdio de Chopin mal tocado, e piano, nunca mais.

E assim aconteceu diversas vezes, em vários setores da minha vida. Começava, e quando ficava chato, desistia. Sutilmente, sempre evitava o compromisso: depois a gente se vê; no fim de semana vamos à praia, no ano que vem eu começo aquele curso.
Quando era obrigada a aceitá-los, estabelecer acordos, quando ficava chato… eu desanimava. E quando me parecia intolerável eu simplesmente quebrava o acordo, e salve-se quem puder.

Permaneci no mundo mágico durante muitos anos. Depois de quebrar a cara muitas vezes, de insistir teimosamente em caminhos impossíveis, percebi que, na verdade, o que eu queria mesmo era que o mundo fosse mágico, como eu sempre acreditara na infância. E percebi que, em vez de fugir dos compromissos, eu precisava agarrá-los e cumpri-los — principalmente os que estabelecia comigo mesma, em segredo. Porque esses, quando quebrados, ferem a autoestima e o amor próprio de tal forma, pessoa se diminui tanto diante de si mesma, em segredo, que embora ostente por fora o valor — qualquer valor, bilhões de dinheiros ou coisas —, por dentro vai virando um lago de vida que seca cada vez mais…

A magia existe, sim. Praticada nessa ordem: primeiro, estabelecer o compromisso consigo e depois seja lá com quem for; em seguida, confiar na vida e em si mesmo como parte dela, começar de onde se está e se empenhar em ir até o fim do seu propósito. Siga a receita à risca que aí tudo sai diferente do que você imaginou, mas muito melhor!

Não é fantástico?

 

 

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