A Macondo das Alterosas

Como naquele tempo não havia cemitério em Macondo, pois até então não havia morrido ninguém, conservaram o saco de lona com os ossos, à espera de que houvesse um lugar digno para sepultá-lo.
Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão

 

Já vou logo dizendo a você, ansioso leitor — sem essa de “querido” por aqui, não cultivo esse tipo de frescura —, que deixei Belo Horizonte há exatamente tanto tempo quanto me falta para completar meus cem anos de solidão, se é que você me entende. E tem mais, faz tanto tempo que li o clássico de Garcia Marquez que pouco me lembro da trajetória dos Buendía, mas que tem algo a ver com a dos Cohen em BH — Alan vai logo gritando: falsos Cohen! —, lá isso, tem.

Por falar nisso, Alan agora tem algo mais para me atacar: os dois sobrados onde vivi quando criança e que continuam lá, apesar da minha falha lembrança, um bem em frente ao outro na Avenida Amazonas — no caminho de Inhotim, ainda bem —, embora a calma circundante tenha evidentemente desaparecido, hoje substituída por um trânsito caótico e um ruído permanente, enlouquecedor.

Embora falso, como já contei em algum livro por aí, tendo mudado seu “Koretz” do stetl (sem nenhum pedigree) ao chegar ao Brasil, a verdade é que meu avô Isaac, nome adotado ou não, acabou por própria força de vontade sendo o cohen da cidade, onde construiu sinagoga e cemitério — assumindo o comando espiritual da ilibada moral da comunidade.

O que eu nunca tinha percebido antes, no entanto — pois é, esse tipo de coisa a gente só percebe na família dos outros, ou na ficção, sabem como é —, é que meu avô, como esta neta dele que vos escreve — que como ele é uma capricorniana arretada (embora eu não acredite em astrologia, claro) e obsessiva de carteirinha (com recente certificação psicanalítica, conferida, aliás, na animada noite belorizontina, essa depois eu conto) —, era um tremendo controlador, isso, porque não sei exatamente como traduzir control freak para o bom português, um dos males do casamento binacional.

Prova disso foi a disputa que tivemos com relação à sepultura de papai e que encostei no pescoço por todos estes 40 anos, como diria mamãe com aquele tapinha, entre raivoso e envergonhado, no topo do dorso humilhado. Passei muito tempo sem nem me lembrar disso, juro, embora a reação inconsciente é que nunca visitei a tal pedra tumular que provocou o incidente.

Me entendam bem: vovô sempre me tratou como sua querida menininha, única neta, gordinha, uma gracinha, mas quando eu quis dar uma de adulta e artista, órfã recente ainda por cima, ele logo defenestrou a impertinência: “De túmulos entendo eu, e não admito interferência”.

Então tá. Mas nessa minha viagem de reminiscências comentei com Alan que gostaria de visitar o cemitério, ah, gente, pra quê. Bem que eu quis escapar do heroísmo familiar proposto inicialmente, mas Alan, que não suporta mais meu crônico sofrimento e trauma de abandono intermitente — palavras dele, naturalmente —, não me deu chance de mudar os planos, e aí é que entra a loucura de Macondo.

A Belo Horizonte dos meus tempos de menina, calma vila repousante às margens de um Arrudas minguante, hoje em dia virou, evidentemente, uma cidade que só existe nos meus pensamentos, pensamentos negativos, confesso. A esquina da minha rua com a principal avenida da cidade, por exemplo, pela qual eu seguia a pé todos os dias até o Colégio Estadual Central, transformou-se num buraco, pasmem, uma “trincheira”, no linguajar local. Haja guerra.

Minha casa na Sinval de Sá, outro exemplo, mais parece a fortaleza de Osama, embora hoje em dia todo mundo saiba que isso não é garantia nenhuma de segurança, fazer o quê. Enquanto eu fotografava a transformação, surgiu na varanda do segundo andar, bem no quarto de vovó, a responsável por esta difamação, pensando, imagino, que aquela atividade toda devia ser com certeza algum plano de invasão, coisa que fui logo desmentindo: “Morei aqui quando era criança, meu avô construiu esta casa”, e já que estou botando os pingos nos iis, péssimo exemplo de arquitetura moderna, vamos combinar. Cansei de ocultar-me todos estes anos sob a falsa roupa de mineira boazinha, porque no fundo no fundo, todo mundo sabe, não passo de uma piranha ingrata, quanto mais velha, mais  ressentida. É de amargar.

O caso é que na ida ao cemitério — orientada por minha amiga da adolescência, hoje inevitavelmente psicanalista — me vi perdida no emaranhado de viadutos e vias suspensas que minha Macondo se tornou. Quis desistir, mas Alan… De um jeito ou de outro, errando aqui e ali, me vi de repente em frente ao cemitério surrealista, digo, israelita, de um sinistro exotismo pra ninguém botar defeito.

Fui atendida por um funcionário bastante solícito, que ao cabo de dois dedos de prosa identificou um de meus primos e descobriu quem era eu. O túmulo de meu avô encontrei logo, na avenida principal da metrópole dos falecidos, sóbrio como ele gostaria, sem retrato ou nada pessoal que o humanizasse, protegido de todo o mal por uma frondosa pitangueira e um cristal de quartzo lá colocado por alguma alma viva que acredita… na proteção de cristais de quartzo. Não eu.

Depois de uma investigação detalhada, finalmente encontrei o túmulo de papai, de cujo endereço jamais me esquecerei,  nem que o alzheimer me derrube — o número 400 da rua 1972 —, embora a grande chance é que não volte lá nunca mais, e vos digo: o tempo me deu razão sobre o design, pobre papai. De seu brilho carioca, cerceado pela família mineira (contra a vontade, ou seria apenas a minha imaginação, simples contratransferência?), restou apenas o negro granito trincado, sem nenhuma foto ou sofisticação como queria vovô, tendo à frente um raso canteiro deprimente sem nenhuma flor, ou folha, ou raiz, para quem já é triste por (causa dos percalços da) natureza, uma inaudita tristeza, pobreza, devastação: naquela pedra fria me sentei e chorei. Depois comecei a ação.

Subtraí alguns brotos de babosa  e outras cactáceas que detesto (vejo no Google: “guardiões”, segundo o Feng Shui, em que tampouco acredito) de alguns outros túmulos em volta — desculpem, mortos da periferia, mais bem cuidados, por seus sobreviventes melhor lembrados — e os replantei na jardineira de papai, na esperança de que ali sobrevivam, sem carinho, sem água e sem grandes cuidados.

No túmulo bem mais recente de minha avó, meio afastado, coitada, na zona norte da colônia fúnebre, longe do marido e primo a quem não sei se amou, nem uma pedrinha sequer. Fiquei consternada. Vovó já foi publicamente espinafrada, literariamente vilipendiada por um sobrinho que ela aparentemente maltratou, mas a mim, nunca fez mal nenhum. Muito pelo contrário, embora um pouco retraída e convencida de ter pouco dinheiro, sempre me tratou muito bem, e antes de envelhecer cozinhava muito bem também. De todos os parentes, foi quem me deixou a herança mais preciosa: além de seu colar de pérolas (que Alan acha horrorosas), um amplo glossário de imprecações em iídiche que até hoje uso e me fazem rir, oy vey isz mir: era infeliz, solitária, uma estranha traída em seu ninho e que não sabia ler nem escrever para melhor se defender, mas era bastante inteligente apesar disso, um espírito rebelde que só se expressava através dos cigarros que ela fumava com as mãos deformadas pela artrite, até que lhe foram proibidos pelo Dr. Moisés Chuster e nem assim ela se entregou. Viveu até os noventa, mais do que o doutor, com suas histórias enroladas e nenhuma grave doença, deixada em paz pelos exageros da ciência. Morreu dormindo. “Apagou”. Tomara eu.

E o que é mais curioso, pra já ir completando o texto que o montante de caracteres há muito se excedeu, é que tendo hoje dia certa tendência à ironia de uma realidade retorcida, aprecio mais na morte quem menos apreciei em vida; e encerro com a esperteza pós-mortem de mamãe, coisa de alma mesmo, só pode: enquanto os ossos de papai se trituram naquela dureza, mamãe repousa como rainha em meio às benesses da natureza, depois de trinta e tantos anos bem sobrevividos no Rio de Janeiro, de onde papai nunca deveria ter saído. Ela mereceu. Mas isso quem diz sou eu.

Voltando à Macondo do título, a coisa mais impressionante é a verossimilhança do cemitério. No terreno baldio da propriedade abandonada, contígua à entrada trancada e malcuidada, vive a família do coveiro num barraco mal ajambrado, muitos filhos remelentos, um tanquinho barulhento e uma cachorra miserável que bem poderia ser Baleia. Fui-me embora pensando em como aquelas crianças conviveriam com a fátua possibilidade de tantas almas penadas judaicas flutuando, sem lugar à sombra para pousar, zicaron lebrachá, deixa isso pra lá.

Semana que vem eu conto como também foi bom. E um bom domingo procês.

 

 

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8 Resultados

  1. Li, chorei e ri. Devo confessar. Sua crônica me fêz lembrar os percalços da vida e quem sabe algo da alma?

  2. Raul Augusto disse:

    Oi, Noga!
    Li e ri muito…
    Como dizia Nelson Rodrigues, com quem trabalhei uns sete anos: – Que Deus Te abençoe eternamente!

  3. Já li, adorei e tricompartilhei. Beijo!

  4. Edson Granja disse:

    Não há mais domingos como os de antes sem suas palavras, Noga!! Ansioso pelo próximo, assim vou digerindo esse…!

  5. manuelfunes disse:

    É… Todos Temos um Coronel Aureliano Buendia… Borboletas Amarelas…Fantasmas andando pela casa…

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