À luz de velas

Ela acabava de acender a luz do quarto quando ouviu o estrondo ecoar por toda a rua. No mesmo instante voltou à penumbra, tentando entender o acontecido lá fora.

Pulou da mesa para a janela, conferindo quadro a quadro o cenário sinistro. Por conta das nuvens pesadas, trazidas de repente pela forte ventania, o final da tarde se adiantava, deixando toda a vizinhança às escuras.

O vento soprava nervoso, assoviava alto, levando com ele folhas, varrendo vigorosamente o asfalto. Nem as árvores robustas resistiam a ele; seus galhos giravam pra lá e pra cá parecendo dançar loucamente com os fios elétricos da rede.

Desse modo a noite se impôs, bem antes do tempo e em péssima hora. Chegou refreando o trabalho que ela tentava em vão liberar há dias. E o que fazer com o novo impedimento, se descabelar? Xingar o mal tempo? Chorar? Bom mesmo era se controlar, pois sabia que, nervosa, ainda corria o risco de trocar a leve dor de cabeça por uma temida enxaqueca.

Se o jeito era relaxar, melhor que gozasse do recreio imprevisto. Assim, ela deitou-se no sofá da sala, iluminada apenas pela chama de uma vela.

Dez minutos e a tempestade se dissipara, oferecendo um espetáculo de nuvens descortinando céu, lua e estrelas. Parecia um pedido de desculpas pelo medo e incômodos que causara. Ela, com certeza, reconheceu a recompensa: assistiu a tudo de camarote e quando se deu conta, até mesmo a terrível ansiedade tinha ido embora.

Há dias se sentia ligada a uma tomada, incapaz de parar um pouco que fosse. Por isso caiu na risada quando em seus loucos pensamentos perguntou ao anjo da guarda se o blackout era obra dele. Certamente, se fossem questionados, os vizinhos discordariam do seu estranho ponto de vista: podia ouvi-los chegar do trabalho após enfrentarem o peso do transito e agora, ainda por cima, impedidos de cruzar o portão eletrônico da garagem. Entravam pela portaria, se trombavam pelos corredores e até trocavam algumas palavras! Curioso que embora se queixassem de tantos atropelos, pareciam se enxergar pela primeira vez, mostrando empatia.

A voz da vizinha de cima ela nunca ouvira antes. Ela sempre chegava abafada pela TV que reinava na casa. Mas sem os desenhos que distraíssem os filhos enquanto se ocupava do lanche, a mulher começou a cantar, acompanhando as duas crianças.

Homens que nem sabiam onde se guarda um prato em casa naquela noite ajudaram as mulheres a colocarem a janta na mesa.
Irremediavelmente no escuro, as famílias conversavam, sem pressa, sobre como tinha sido o dia de um e do outro. E um pouco mais tarde, sem intenção de ser indiscreta, ela flagrou maridos e esposas murmurando e dando boas risadas, alguns provavelmente jantando, outros namorando à luz de velas.

Iluminada pela chama da terceira vela que ainda queimaria, antes que a energia voltasse, ela registrou no papel o ponto final do texto parado no computador, concluindo que tudo nessa vida pode ocultar inúmeras bênçãos.

 

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