A lista do balde

Meu marido, a título de diversão — já que estamos na praia cuidando de três crianças com tempo chuvoso —, nos perguntou a mim e à minha filha quais seriam as cinco coisas que gostaríamos de ver realizadas antes de morrer.

Lembramo-nos imediatamente do filme “The Bucket List”, com Jack Nicholson e Morgan Freeman, dois monstros sagrados do cinema. Os personagens sabiam que estavam à beira da morte, o que, felizmente, não é o nosso caso. Respondi de bate-pronto que uma das coisas seria comemorar o reveillon de 2053. Recebi uma reprimenda:

— Falei a sério e você nem pensou para responder.

Eu, por meu lado, achei minha ideia genial, pois logo de cara já vou considerando que terei no mínimo cento e três anos, daí terei muito tempo para realizar muitas coisas, muito mais do que apenas cinco, mas não é do meu feitio ficar fazendo listas, sou mais do tipo “deixa a vida me levar”.

Tem dado certo, parece que o destino sabe muito bem o que é melhor para mim. Isso me deixa muito livre e tranquila para ir tocando o barco, sem maiores responsabilidades e tomadas de decisões. O prato já vem pronto, só me resta saboreá-lo. Assim sendo, não correrei o risco de tomar uma resolução precipitada do tipo ir visitar a Argentina, que era o ideal de muita gente no século passado e que agora se tornou uma ideia absolutamente obsoleta.

Eu poderia igualmente cair na esparrela de desejar o fim da fome no mundo, a paz mundial etc., mas já estou sábia o bastante para ter certeza de que enquanto o mundo for gerenciado pela raça humana, isso jamais irá ocorrer, já que a luta pelo poder é maior do que tudo. Quem está fora anseia desesperadamente por ocupá-lo, sem enxergar que às vezes seu lugar não é lá, pois sua competência não é suficiente.

Voltando ao tema inicial, acho que com cento e três anos tenho a possibilidade de ver nascer algum bisneto, e assim constatar que permanecerei perpetuada através de meus genes nas crianças. Só espero estar no lugar certo e na hora certa como aconteceu quando eu passava pela rua, há trocentos anos, e me deparei com aquele rapazinho, que na época me pareceu um homem feito, e ele se encantou pela menina moreninha que viu. Deu no que deu.

Estamos no meio de um feriado prolongado, e o clima não é exatamente aquele que desejamos, pois estava frio e garoando até ontem à noite, tivemos então que improvisar e as coisas saíram bem melhores do que o previsto, com muita diversão dentro de casa mesmo. Muitos estarão, assim como eu, dependendo de uma internet lenta ou nem isso, portanto a crônica será curta e tranquila.

Hoje amanheceu um dia lindo e a diversão aparentemente vai continuar, ou não, quem sabe o que nos foi destinado?

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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